Alm do Horizonte azul
Kay Thorpe












Copyright: KAY THORPE
Ttulo original: "THE IRON MAN"
Publicado originalmente em 1974 pela Mills & Boon Ltd., London

Traduo: DIOGO BORGES

Copyright para a lngua portuguesa, 1978 Abril S.A. Cultural e Industrial, So Paulo

Composto e impresso nas oficinas da
Abril S. A. Cultural e Industrial, So Paulo
Caixa Postal 2372  So Paulo

CAPITULO I

A maior parte da regio que se estendia alm da cidade apresentava-se coberta de verde e de florestas. Mais adiante, onde comeavam os trabalhos de minerao, residiam
a desolao e o p, em meio a uma paisagem composta de mquinas gigantescas que,  semelhana de aves de rapina enfurecidas, bicavam as rochas pardacentas, superpostas
em camadas. Pequenas partculas de entulho misturavam-se no ar, formando nuvens sombrias, envolvendo as silhuetas dos homens que trabalhavam incessantemente, e elevavam-se
acima do conjunto de edifcios de zinco, galgando os primeiros contrafortes das colinas e pousando finalmente sobre as esteiras rolantes, os vages e as pilhas cinzentas
de minrio.
Ao chegar ao porto principal da mina, Kim desceu da velha camionete, que servia de txi, desapertou o cinto da cala e suspirou por um banho de chuveiro frio.
O guarda de planto na guarita era africano. Ele a fitara sem se mover quando ela descera do carro, e naquele momento continuava a olh-la com curiosidade enquanto
Kim se dirigia  janela aberta.
 Estou procurando Christopher Adams  disse Kim, pronunciando bem as palavras.  Por favor, sabe me dizer onde posso encontr-lo?
O homem sacudiu vagarosamente a cabea, estendeu a mo e alcanou o telefone. Falou brevemente; sua voz ressoava abafada dentro da diviso de vidro, ouviu por alguns
momentos e ento colocou o aparelho no gancho.
 O patro vem vindo  comunicou.  Disse que  para a senhora esperar aqui.
Na verdade no havia outra alternativa, imaginou Kim. E pelo menos o vigia de planto poderia lhe dizer o que ela queria saber sem maiores delongas. Sem sombra de
dvida algo deveria ter acontecido a Chris, a questo era saber o qu. Tentou manter  distncia aquele medo to seu conhecido. Claro que ele ainda estava vivo.
Se tivesse ocorrido algum acidente, as autoridades lhe teriam comunicado. No, qualquer que fosse a explicao para sua falta de comunicao durante os dois ltimos
meses, tinha de ser de uma outra natureza. Chris jamais teria agido daquela forma sem um motivo, alis um bom motivo. No era de seu feitio simplesmente interromper
todo e qualquer contato por ter mudado de idia a respeito de querer casar-se com ela. Ele teria escrito e dito a verdade nua e crua.
Um carro aproximava-se velozmente estrada abaixo, vindo do grupo mais prximo de edificaes de zinco. Freou bruscamente ao lado da barreira e um homem desceu. Era
alto e de aspecto vigoroso e as mangas dobradas da camisa revelavam braos musculosos. Puxou para trs a aba do chapu empoeirado enquanto a contemplava da cabea
aos ps, sem transpor a pequena distncia que os separava.
 Meu nome  Dave Nelson  disse.  Quem  voc?
 Kimberley Freeman.  Seu queixo tremeu um pouco, ao ouvir o tom que ele empregava.  Sou noiva de Chris Adams. Posso v-lo?
Houve uma pausa breve, e o trao voluntarioso dos lbios do homem pareceu ficar ainda mais rgido.  Ele no se encontra aqui  disse.  H cinco semanas que ele
no est mais aqui. Se eu fosse voc, faria imediatamente a viagem de volta.
 No est aqui? Ento onde  que ele est? Voc deve saber! Sua sobrancelha arqueou-se ironicamente.
 E por que deveria?
 Porque ele trabalhou aqui  ela explodiu.  Aconteceu alguma coisa com ele, no  mesmo?  por isso que voc no quer falar comigo. Muito bem, no saio daqui enquanto
no me contar!
  melhor voc entrar  disse bruscamente, sem maiores amabilidades.
Kim fez o que ele dizia, tremendo de angstia e de uma raiva que procurava controlar. Algo muito estranho se passava naquele lugar. Todos os seus sentidos lhe diziam
isto. E aquele homem tinha a audcia de imaginar que ela se contentaria com algo que no fosse a verdade!
Olhou-a atravessar a barreira e caminhar em sua direo. Era jovem e esguia; seus cabelos castanho-avermelhados emolduravam um rosto mais interessante do que propriamente
bonito. As mas do rosto eram proeminentes, e acima delas um belo par de olhos verdes.
 Vamos at o escritrio  ele disse em tom enrgico, abrindo a porta do carro.
As molas arrearam enquanto ele se sentava a seu lado. Kim permaneceu em silncio enquanto ele esterava o carro e subia novamente pela estrada. Tomou ntida conscincia
daquelas mos queimadas de sol que seguravam o volante. Aquele Dave Nelson era um tipo de homem que ela jamais encontrara antes e de resto dispensava tal tipo de
conhecimento. Da mesma forma no lhe impressionavam seus trinta e poucos anos, segundo ele aparentava, e nem seu ar duro, cnico e provavelmente desprovido de qualquer
compaixo, a julgar por sua aparncia. Um homem que tinha feito de tudo, visto tudo e no se deixara impressionar por nada. Um homem em quem ela no depositaria
a menor confiana, fossem quais fossem as circunstncias.
Ele parou o carro diante de uma construo que se diferenciava das outras unicamente por uma porta pintada em um tom de vermelho muito vivo. Kim entrou atrs dele
em uma sala muito simples e superabafada, onde se encontravam duas mesas de ferro, fichrios, algumas cadeiras e em um canto uma cama de campanha sobre a qual se
estendia um cobertor cinza e surrado.
 Queira sentar-se  convidou bruscamente. Apoiou-se com todo seu peso sobre a mesa mais prxima e tirou um mao de cigarros do bolso traseiro.  Quer fumar?
Kim fez que no, sem a mais leve meno de ocupar a cadeira que ele lhe indicara. Tinha um pressentimento de que ele a fazia esperar de propsito, enquanto acendia
um cigarro.
 Voc vai me contar tudo a respeito de Chris.  disse incisivamente, colocando as mos nos bolsos da cala para disfarar seu temor.  Por que foi que ele deixou
o emprego?
 Porque eu o chutei para fora daqui  foi a resposta grosseira.
 Ele agora est morando em Freetown, se  que voc ainda est interessada.
 E por que no deveria estar interessada?  indagou.  Ele pode ter tido alguma divergncia com voc, mas isto no faz dele uma pessoa m a meus olhos.  Fez um
esforo para controlar a voz, que se alterara ligeiramente ao pronunciar as ltimas palavras.
 Se no for pedir demais, pode me dar seu endereo atual? Dave Nelson desviou o olhar de seu rosto para a extremidade do cigarro sem mudar de expresso.
 No quer saber por que foi que eu o despedi?
 Perguntarei a ele quando v-lo  respondeu.  Por favor, quer me dar o endereo?
 Como voc quiser.  Endireitou-se, foi at a mesa, abriu a gaveta, tirou um livro de anotaes e rasgou uma folha.  Aqui est.
Ela pegou o papel, espiou os rabiscos e olhou para ele.  Ele deixou isto aqui com voc?
 No que ele quisesse. Eu me dei ao trabalho de descobrir por mim mesmo.
 Por qu?
 Isto  problema meu. Voc veio de muito longe?
 Da Inglaterra  respondeu, e notou que sua expresso passava por uma brusca alterao.
 Mas que pessoa obstinada!  uma distncia e tanto para vir atrs de um homem, no acha?
Seus olhos verdes dardejaram.
 No quando o homem em questo  aquele com quem vou me casar. No sei o que aconteceu aqui e no quero saber sua verso, senhor Dave. Mas o que sei com certeza
 que Chris deve ter tido um bom motivo para no responder a minhas cartas.  Fez uma pausa, enquanto lhe ocorria um pensamento.  Isto, na suposio de que elas
lhe eram entregues.
 Obstinao e f  murmurou.  Que moa admirvel! Espero que voc ainda ache que ele valha a pena, quando o encontrar.
 Abriu novamente a gaveta e retirou um mao de cartas amarradas com um elstico.  Devem ser suas.
Ela as arrebatou de suas mos, examinou-as nervosamente e encarou-o, agressiva.  No foram abertas. Obviamente Chris nem chegou a v-las!
 Viu, sim.  A resposta foi imediata.  Ele no se deu ao trabalho de abri-las.
Isto cortou todo seu mpeto. Ela o fitou inibida, procurando uma resposta adequada. Voc est mentindo.  conseguiu dizer finalmente.
 Estou mesmo?
 Tem que estar. Chris nunca agiria desta maneira!  Ela cerrou os punhos e as unhas penetravam fundo na palma das mos.  Voc est tentando me dizer que eu no
conheo meu prprio noivo?
 Talvez voc conhecesse o homem que a deixou na Inglaterra  ele retrucou.  Isto se passou h mais de dezoito meses. Os trpicos mudam muito um homem.
 O que est querendo insinuar?
 Quantos anos voc tem?
 Vinte e trs.  A resposta foi dada com muito custo.  E no vejo o que...
 Voc tem idade suficiente para que eu no esteja precisando pr todos os pingos nos is. O que eu quero dizer  que aqui alguns impulsos bsicos adquirem uma urgncia
maior do que de costume.
 Agora sei que voc est mentindo  respondeu impulsivamente.  Chris no est... ele jamais...
 Jamais pensaria em ter outra mulher com voc esperando por ele na Inglaterra...  isto que voc est tentando me dizer?  havia crueldade no traado de seus lbios.
 Ou voc  de uma autoconfiana excessiva ou ento  incrivelmente ingnua!  Sua cabea recuou enquanto a mo de Kim descreveu um arco destinado a golpe-lo no
rosto. Agarrou-lhe o pulso e ela perdeu o equilbrio.
 Jamais faa isto, a menos que voc se sinta capaz de aceitar o troco  disse ele, com grosseria.  Voc no est mais na Inglaterra.
 Tire as mos de mim!  Afastou-se bruscamente dele, com olhar enfurecido e o rosto rubro de clera.  Voc evidentemente julga os outros a partir de suas prprias
tendncias, senhor Dave, mas no conseguir fazer com que eu acredite no que acaba de me contar a respeito de Chris!
 Voc precisa de provas concretas? Muito bem, dirija-se a esse endereo e achar o que procura.  O tom da voz era enrgico.  Encare os fatos, meu bem. Voc viajou
milhares de quilmetros  procura de seu homem. E acontece que ele est vivendo com outra mulher l em Freetown e no pretende desistir dela. Esquea-o, pois se
trata de um canalha e volte para casa. Voc no vai ter muita dificuldade em encontrar quem o substitua.
 Ele est com sua mulher?  indagou, maldosa.  Foi por isto que o despediu?
Os olhos cinzentos tornaram-se subitamente perigosos.  Se isso tivesse acontecido eu teria feito muito mais do que despedi-lo  disse suavemente.  Ento, est
comeando a mudar de idia, no ?
 No!  Ela mordeu os lbios, sentindo sua ironia.  Nem vou acreditar, at que Chris me diga pessoalmente a verdade.
 Ento voc sabe para onde se dirigir.  Levantou-se subitamente.  Vamos, irei acompanh-la at o porto.
 No se incomode. Irei a p.
 Voc  que pensa!  Alcanou a porta antes dela, interpondo-se no caminho.  L fora h homens que no pem os olhos em algum como voc, s Deus sabe h quanto
tempo. E pretendo que eles permaneam assim. J me d suficiente trabalho manter toda uma equipe sem lhes lembrar o que eles esto perdendo, enfiados aqui. Voc
pode subir ou ento posso fazer com que voc suba. Como voc preferir.
 Voc  bem o tipo duro, no  mesmo?  disse Kim com sarcasmo.   muito fcil notar que voc est privado da companhia de gente civilizada h muito tempo, senhor
Dave!
 Tem razo.  Disse isto sem a menor nfase.  O que, alis, me torna muito menos gentil do que quando voc chegou aqui. Tente me provocar um pouco mais e ver
que minha gentileza pode diminuir ainda mais. Vai ou no subir neste carro?
Kim passou diante dele sem dizer mais uma palavra e acomodou-se, sentando-se muito ereta enquanto eles se dirigiam para o porto principal. Nesse momento sua mente
estava completamente confusa. Talvez isto fosse uma bno. Ela ainda no queria comear a pensar, pelo menos enquanto no estivesse longe daquele homem e daquele
lugar. E quanto mais longe, melhor!
Logo em seguida fixou o olhar, horrorizada, ao notar o espao vazio onde o txi estivera at alguns momentos. Saltou do carro e olhou desesperada para a estrada
que contornava a montanha, como se sua vontade fosse suficiente para fazer com que o automvel voltasse.
 Eu disse a ele que me esperasse!  gritou.
Dave Nelson estava falando com o guarda na guarita. Caminhou em direo a ela, levantando os ombros largos.
 Ao que tudo indica, voc no lhe falou com suficiente energia. Ele foi embora pouco depois que voc entrou. Voc o pagou antes de sair da cidade?
 Sim. Ele insistiu.  Kim apoiou-se na cerca, inteiramente perdida, sem saber o que fazer ou dizer.  Acho que vou ter que pedir uma carona em algum de seus caminhes
 conseguiu dizer finalmente. Forou-se a encar-lo.  Sinto muito se isto vai contra o regulamento.
 No vai, no.  Ele parecia desprovido de qualquer espcie de emoo em relao a suas dificuldades.  Acontece que at amanh nenhum de nossos caminhes vai para
a cidade.
 Oh, s faltava esta!  O rancor ressurgia, voltando automaticamente como um mecanismo de defesa.  Se voc pensa que vou passar a noite nesta... neste fim de mundo,
est redondamente enganado!
 Voc no tem muita escolha  ele retrucou.  A menos que queira passar a noite l fora,  beira da estrada. E no fique pensando que estou pulando de alegria com
essa perspectiva.
 Ah, vocs, homens.  O tom com que falava era impregnado de raiva.  Como  que pretende me abrigar at amanh, senhor Nelson?
 Posso dar um jeito de escond-la debaixo de minha cama.
 A zombaria transparecia em seu rosto, enquanto ela se ruborizava.  J no se mostra to confiante como antes, no  mesmo? No se preocupe, no tenho ms intenes
a seu respeito. Prefiro que minhas mulheres conheam os fatos da vida.  Ignorou sua expresso agressiva e dirigiu o olhar para o carro.  Vai ter que dormir no
clube.  o nico lugar onde se pode encontrar uma cama decente. Apenas tente se lembrar de que nossos trabalhadores jamais freqentaram a escola e portanto tem um
comportamento um tanto especial, ouviu? No estou dizendo que voc  capaz de correr riscos srios, mas basta um movimento a mais nos quadris e voc ter de enfrentar
uma situao que seria melhor evitar.
 Eu no balano os quadris!  ela exclamou furiosa e sentindo-se imediatamente uma tola, ao notar o sorriso nos lbios dele. Voltou para o carro agitada, mas consciente
de que um silncio desdenhoso poderia ser muito eficaz.
Desta vez ele tomou a estrada  esquerda da guarita, contornando um pequeno morro e descendo por entre o arvoredo at uma clareira em meio  qual se elevavam diversas
edificaes de tijolo aparente. O clube era a maior delas e se estendia ao longo do conjunto. Havia vrios homens descansando nas espreguiadeiras distribudas pelo
gramado em frente ao clube. A maior parte, notou Kim imediatamente, tinha copos nas mos. Surpreendidos, fizeram uma pausa na conversa, enquanto ela descia desajeitadamente
do carro. Ouviu-se ento um assovio provocativo, que a fez ruborizar-se novamente, contra sua vontade.
 Cale o bico  disse Dave rispidamente ao homem que tinha assoviado, enquanto contornava o carro e se colocava ao lado dela.  Sabe por onde anda o Luke?
 Est l dentro.  O homem sequer por um minuto tirou os olhos de cima de Kim.  Que tal me apresentar a visita?
 Mais tarde.  Dave tomou Kim pelo brao e conduziu-a pelo gramado em direo  porta, ignorando os olhares dos demais. A porta abriu-se para o que parecia ser
uma rea de recreao, com uma mesa de bilhar que ocupava quase a metade da sala. Um jogador solitrio concentrou-se com todo cuidado em seu taco, sem se dar ao
trabalho de olhar os recm-chegados, colocou a bola preta na caapa com uma certa habilidade e endireitou-se, com uma exclamao de alegria.
Dave jogou o chapu em cima da cadeira e passou as mos pelos cabelos finos e escuros. Estava ficando grisalho.
         Tem a um quarto sobrando para a moa, Luke? Ela vai passar a noite aqui.
         Que garota corajosa!  Havia humor em seus traos rgidos como granito.  Mas  uma surpresa agradvel  acrescentou, desta vez dirigindo-se diretamente
a Kim.  Eu, se fosse voc, faria um seguro de vida.
         Eu pensei, mas no tive tempo  ela retrucou, sorrindo sem querer para aquele homem que parecia inesperadamente amvel, aps passar uma hora na companhia
de Dave.  Sinto muito se estou causando algum transtorno.
         Nem pense nisto. Voc  to bem-vinda quanto as flores na primavera.  Pousou o taco, contornou a mesa, indo em direo a eles.  Mostre-se civilizado,
homem, ou  segredo?
         Luke Drummond, Kimberley Freeman  apresentou-os Dave, imperturbvel.   s isto o que voc precisa saber. E em relao ao quarto...
         Est bem, entendi tudo.  Levantou a mo, em um gesto de resignao.  Voc  esperto como o diabo, Dave.
         Vim aqui  disse Kim com firmeza  para ver meu noivo, Chris Adams.  Com uma sensao de desamparo ela notou a rpida mudana da expresso no rosto de
Luke, reconhecendo no olhar que ele dirigiu a Dave a morte de suas ltimas esperanas de que este ltimo tivesse mentido a respeito de Chris.
         Sim, est bem, vamos providenciar o quarto  disse Luke, aps uma pausa breve e embaraosa. Voltou-se para um corredor que levava para os fundos do prdio.
  por aqui.
         Satisfeita?  perguntou Dave, baixinho, no momento em que ela se preparava para segui-lo. Kim ficou tensa e parou, erguendo a cabea em um desafio, olhando
bem em frente.
         No  to fcil assim  disse.  No basta que voc diga.
 Luke lhe contaria a mesma histria, se voc lhe perguntasse.
 No duvido  retrucou.  No duvido que eles contariam a mesma histria se eu me incomodasse em perguntar.  Ela fez de modo com que ele a encarasse, controlando-se
para que seu tremor no a trasse.  Duvido que qualquer um destes homens tenha a coragem de contrari-lo. Afinal,  o emprego que eles esto arriscando!
Os msculos de seu rosto retesaram-se enquanto ele cerrou os dentes. Durante um longo e intenso momento ele a contemplou fixamente antes de lhe dizer em tom brusco:
 Deixe que eu lhe diga uma coisa. Coragem  o que no lhe falta.  uma pena que voc no consiga juntar a ela um pouco de bom senso. Vou lhe dizer algo mais uma
vez e, depois, no torno a repetir. No v embora pensando que o fato de voc ser mulher lhe d qualquer espcie de imunidade, no que me diz respeito. Eu quebraria
a cara de um homem se ele me dissesse o que voc disse, mas h outras maneiras de lidar com uma mulher, e voc no apreciaria nenhuma delas. Kim mordeu o lbio inferior,
deu-lhe as costas e foi atrs de Luke, encontrando-o no meio do corredor, diante da porta de um quarto pequeno, mas mobiliado com surpreendente conforto.
 Este quarto  para os raros executivos que vm aqui  informou-a, parado ao lado da porta, enquanto ela verificava minuciosamente se o colcho era macio.  Receio
que no seja exatamente o que se poderia chamar de primeira classe.
 Para mim est muito bom  assegurou Kim.  Vou passar somente uma noite aqui. H muito tempo que trabalha aqui na mina, senhor Luke?
 H uns dois anos. Mais um ano e ento terei uma licena prolongada. Seis meses na Inglaterra, e depois voltarei por mais uma temporada.
 No acha este clima um tanto insuportvel?
 Acho. A maior parte do tempo  uma droga. Mas o dinheiro compensa.
Kim hesitou.   casado?
 Nem pense nisto! Ainda no encontrei uma mulher em quem tivesse suficiente confiana para deix-la sentada por trs anos, esperando seu homem voltar para casa.
 Talvez nunca tivesse encontrado a mulher certa  ela replicou suavemente.  Existem algumas assim.
 No quis ofend-la.  De novo ele parecia estar pouco  vontade.  Vou mandar algum para lhe arrumar a cama. Se vier at a sala de bilhar por volta das cinco
providenciarei comida, a menos que no esteja sentindo fome.
Ela sacudiu a cabea, vendo-o se afastar e decidiu que no podia deixar as coisas naquele ponto. Tinha de saber mais.  Luke.  O nome lhe escapou naturalmente,
sem que ela pensasse.  O que voc sabe a respeito de Chris?
 Pergunte a Dave. Ele sabe de todos os detalhes.
  a voc que estou perguntando  ficara plida, porm mostrava-se decidida a prosseguir.  Preciso que algum me confirme tudo antes de acreditar no que ele tiver
a me dizer.
 Por que  que ele iria mentir? Ele no tem motivo algum para isto. Tanto quanto eu saiba, mais de uma vez ele tentou dar conselhos a Chris, antes que as coisas
chegassem ao ponto a que chegaram.
 O que foi que aconteceu?  perguntou Kim em voz baixa.  Por favor, diga-me o que aconteceu, Luke.
Sua hesitao era evidente. Ele no queria falar a respeito do assunto, mas ela o tinha colocado em uma posio tal que ele dificilmente poderia se esquivar.  No
h muito o que dizer  admitiu por fim, com alguma relutncia.  Houve uma briga entre Chris e um outro homem por causa da mulher com quem ele se envolvera, e o
sujeito foi parar no hospital com duas costelas quebradas.
 Mas ele no perdeu o emprego?
 No.
 Voc acha que ele tinha razo para brigar?
Sentiu que ele voltava a ficar intimidado.  Claro, eu diria que ele tinha toda razo, sabendo como  que as coisas estavam com Mai.
 Mai?  Sentiu subitamente uma tenso enorme na garganta. Percebeu que ele a encarava e que seus olhos se enchiam de compreenso.
 Voc no sabia que Chris fugiu com uma das nativas da aldeia? Pensei que Dave tivesse lhe contado.
 No, ele no mencionou isso  Kim tentou racionalizar suas emoes. Ento, a mulher era africana. Mas o que quer que ela fosse, fazia alguma diferena? Chris a
tinha escolhido, preferindo-a  noiva que estava  sua espera na Inglaterra, tinha ido embora com ela, sem se arrepender aparentemente, partira para viverem juntos
em uma cidade estranha, em um pas estranho. No, no to estranho para ele, claro. H quase dois anos que ele estava l. A dor comeava a se fazer sentir, penetrando
em todos os recantos de seu corpo. Como podia ter mudado a tal ponto o homem que ela acreditara conhecer to bem? Como  que ele fora capaz de lhe fazer isso, deixando-a
imaginar toda espcie de coisas terrveis, enquanto o silncio ultrapassava os dias e as semanas?
No ouviu a porta que se fechava sem o menor rudo, permanecendo sentada e recordando a poca em que tinha conhecido Chris. Ele tinha vinte e cinco anos e ela vinte,
quando se conheceram, e se sentiram atrados um pelo outro ao descobrirem que estavam sozinhos no mundo. O amor havia nascido devagarzinho entre eles; no era aquele
fogo abrasador de que falavam os romances, mas mesmo assim era real e verdadeiro. Pelo menos ela tinha acreditado que sim. Kim podia lembrar o dia em que Chris tinha
lhe falado a respeito daquele emprego em Serra Leoa, o entusiasmo com que ele enumerava todas as vantagens que lhe permitiriam ganhar dinheiro tendo em vista o futuro
de ambos, mesmo que isto significasse adiar o casamento por trs anos.  verdade que eles tinham at mesmo chegado a pensar em se casar antes que ele fosse para
a frica, porm acabaram concordando que era melhor esperar.
Ou fora ela que havia feito a proposta? De repente Kim se achou em meio s maiores dvidas. No fora o prprio Chris que levantara todas as objees quanto a se
separarem por tanto tempo?
O tempo havia se escoado to lentamente... Chris escrevia pontualmente, mas isto no bastara. Haviam se passado seis meses desde que ela sugerira timidamente uma
viagem para Serra Leoa.  procura de um emprego em Freetown, de maneira que pudessem casar logo, em vez de esperar o trmino do contrato de Chris. Sua resposta tinha
sido rpida e incisiva. Era difcil adaptar-se ao clima, a menos que algum fosse obrigado a faz-lo, e ela se sentiria muito pior vivendo sozinha em Freetown, enquanto
ele estava metido nas minas a algumas centenas de quilmetros, no meio das montanhas. Observou que j estavam quase na metade dos trs anos e o tempo que restava
passaria depressa. Por maiores desejos que tivesse de v-la novamente, sentia que sua sugesto dificilmente iria ao encontro dos interesses de ambos.
Foi depois disto que as cartas dele comearam a mudar um pouco, a perder algo de sua antiga expansividade e a se tornar um tanto evasivas. Kim sentiu que algo no
andava bem, apesar dele ter negado enfaticamente, quando ela lhe perguntou sobre isso. E ento sobreviera a pausa prolongada, a sbita ausncia de cartas, os cuidados
e as preocupaes. Kim se controlara durante sete semanas antes de ceder ao impulso que a trouxera da Inglaterra  frica em busca de uma explicao. Para finalmente
encontrar... aquilo.
Tentou reagir. A verdade tinha de ser encarada. A dvida estava em saber que atitude ela iria tomar. De uma coisa tinha certeza: era preciso ver Chris, ouvi-lo dizer
de uma vez por todas que no gostava mais dela. At l recusava-se a acreditar no fato. Os trpicos faziam muitas coisas a um homem, dissera Dave. At a ela estava
disposta a compreender. Mas nunca se perdoaria se simplesmente deixasse as coisas naquele ponto.

Havia uma bacia em um dos cantos do quarto. Kim fez dela o melhor uso possvel, naquelas circunstncias. Arrumou-se o melhor possvel e sentiu-se pronta para enfrentar
o mundo novamente, apesar de a perspectiva de voltar a se encontrar com Dave ser mais do que suficiente para faz-la decidir-se a permanecer no quarto.
Ficou aliviada ao ver Luke entre os homens reunidos na sala de bilhar e ainda muito mais por notar que Dave no fazia parte do grupo. Luke fez apresentaes rpidas
e sucintas, sem dar qualquer explicao sobre sua presena na mina. Na verdade, ningum parecia especialmente interessado nisso.
Kim descobriu que eram de nacionalidades variadas, porm a maior parte era inglesa. Os africanos mais velhos podiam freqentar o clube, as relaes eram aparentemente
amistosas, apesar de Chris ter dito em suas cartas que as coisas no eram sempre muito fceis entre as raas.
At s cinco e meia Dave no dera o ar de sua graa. Seu nome nem sequer fora mencionado. Kim sentou-se na companhia de Luke e de mais dois homens em uma das mesas
do refeitrio e comeu uma refeio inspida. Para sua surpresa, o caf estava excelente. Terminado o jantar, Luke convidou-a para tomar um drinque no bar, onde ela
se tornou novamente o centro das atenes. Kim no se incomodava com a irreverncia bem-humorada daqueles homens. Eles eram rudes e em certos aspectos um tanto grosseiros,
porm suas intenes eram boas. Alguns no viam seus pases havia anos e declararam que no regressariam em hiptese alguma, preferindo ganhar a vida em empregos
como aquele. Outros se referiam saudosamente a seus lares e  famlia e falavam de climas consideravelmente mais benficos para a sade. Era como se a presena de
Kim houvesse aberto uma porta para estes ltimos e liberado as saudades de casa que eles, at ento, haviam conseguido dominar.
Ela no teve certeza de como foi que a briga comeou. Um dos alemes estava na mesa ao lado falando sobre determinada regio do Reno que ambos haviam visitado, quando
um dos compatriotas de Kim subitamente chegou at ele, bateu em seu ombro e deu-lhe um murro no queixo, no momento em que ele se voltava para encar-lo. Logo em
seguida ambos rolavam no cho, esmurrando-se mutuamente, enquanto os demais punham-se de p e os incentivavam, encorajando e aconselhando aquele que parecia estar
levando a pior.
Na confuso geral, as ordens de Luke mal foram ouvidas e totalmente ignoradas. Foi necessria a presena sbita de Dave para que aquela barulheira diminusse, e
mesmo assim ele teve de dar cotoveladas a torto e a direito at chegar aos dois briges, agarr-los pelo colarinho e obrig-los a ficar de p.
 Que foi que aconteceu?  perguntou Dave.  E por que logo aqui? L fora h espao suficiente, se vocs quiserem se matar, mas no admito baguna no clube!
O ingls lhe respondeu, porm Kim no conseguiu entender o que ele dizia com sua voz rouca, apesar da gesticulao, que obviamente dizia respeito a ela, ser mais
do que eloqente. Dave dirigiu-lhe um olhar severo, falou baixo com os dois homens em um tom carregado de significao e fez um gesto com a cabea, em direo 
porta.
 Daqui a quinze minutos  o novo turno de trabalho. Enfiem a cabea debaixo do chuveiro e acalmem-se. Se houver mais alguma perturbao eu desconto um ms do salrio
de vocs dois.
Ambos saram um tanto intimidados, seguidos por vrios outros que acharam a retirada uma boa idia. Dave caminhou em direo a Kim, ainda sentada  mesa ao lado
do bar.
 Tinha que acabar acontecendo, no  mesmo?  disse Dave.
 No fiz nada  ela replicou, com uma ponta de agressividade.
 Voc, em meio a todos esses homens, estava dando ateno a um deles. Eu a tinha prevenido em relao a isto.
 Voc no me disse nada quanto a simplesmente conversar com eles  ela retrucou, recusando-se a se deixar intimidar.   minha culpa se algum usa de pretexto para
agredir algum de quem ele no gosta?
 Aqueles dois  respondeu  costumam ser excelentes amigos.  sempre a mesma coisa. Basta que aparea uma mulher e sempre acaba saindo encrenca! A culpa foi minha.
Eu devia t-la deixado em algum lugar fora da vista deles, at que fosse embora.
 Devo esconder o rosto em um saco at o fim da noite?
 No  disse Dave.  O mal j est feito. Acho melhor ficar em minha companhia de agora em diante.
 Est na hora de eu ir trabalhar  comunicou Luke.  Como est o tempo l fora?
 Ao que parece, est se armando uma tempestade l para as bandas do poente, antes de anoitecer  Dave no parecia preocupado. Naquela parte do mundo eles deviam
estar acostumados a trabalhar sob a chuva, pensou Kim, recordando as aulas de geografia dos tempos da escola. No era, como apontara Chris, um clima especialmente
favorvel para se viver e trabalhar. A depresso voltou a apoderar-se dela e fez um esforo consciente para no pensar no dia de amanh, enquanto no chegasse a
hora. No importa o quanto ela se preocupasse com o problema, nada poderia ser feito fora do momento apropriado.
 Mais um drinque?  perguntou Dave, aps a partida de Luke. Olhou no copo dela.  O que estava tomando?
 Gim com limo  ela respondeu prontamente.
 Mais uma semana neste lugar e voc acabar esquecendo o limo. Vai tomar um drinque comigo ou ser que no mereo?
 Voc ainda tem dvidas?  Ela ergueu as sobrancelhas, um pouco surpreendida com sua audcia em enfrentar um homem daqueles, mas sem conseguir esquecer aquele instante
de bom humor da parte dele.  Claro que vou tomar um drinque em sua companhia, senhor Dave.
 O que sua famlia achou de voc vir sozinha at este fim de mundo?  perguntou Dave, enquanto solicitava as bebidas.
 Meus pais j morreram  ela respondeu.  Dependo s de mim desde a idade de dezoito anos.
 Isso sem contar com Chris.
 Chris e eu estivemos juntos durante um ano. Prefiro no falar neste assunto, se voc no se importa.
 Claro que no me importo. Pensei que voc gostaria de desabafar.
 Mas no com voc  respondeu bruscamente, mas se arrependendo no mesmo instante. Ele parecia estar se esforando para agir como um ser normal naquela noite. Por
que ela no poderia adaptar-se  situao e deixar de lado seus sentimentos em relao a ele?  Quero dizer  acrescentou  que voc est envolvido demais no assunto
para ser objetivo e no acho que seja justo para Chris eu dar ouvidos ao que seja contra ele, antes de ouvi-lo.
 Justo?  Ele deu uma risada breve.  Voc no acha que isto  levar a tolerncia um pouco longe demais?
 Voc mesmo disse que aqui acontecem coisas com as pessoas, que jamais sucederiam em outro pas. Chris pode ter tido...
 Pode ter tido, no  ele interrompeu bruscamente.  Teve. Est certo, um homem pode procurar de vez em quando uma mulher que satisfaa suas necessidades, mas ele
no precisa se juntar com uma delas, como Chris fez.
 Que outra escolha voc lhe proporcionou?  ela perguntou.  Foi voc quem o expulsou daqui.
 Somente depois que ele se recusou a desistir da mulher. S resta esperar que o marido e os irmos dela jamais descubram onde eles esto.
Kim cerrou os olhos por um momento. As coisas estavam piorando.
 No quero falar neste assunto  disse.
 Na realidade voc no quer  enfrent-lo. Voc ainda est se agarrando na esperana de que a histria toda esteja mal contada, no  mesmo?  O tom de sua voz
era frio e premeditado.  Pois eu lhe garanto que no est, e voc no vai conseguir nada indo at l amanh, a no ser se machucar ainda mais. Por que voc simplesmente
no aceita a situao e volta para casa?
 Cale-se!  O tom de sua voz era baixo e irado.  Voc no tem nada a ver com isso.
 Gostaria de pensar do mesmo modo. Voc alguma vez pensou em escrever  administrao da mina pedindo informaes sobre seu noivo, ou costuma ceder sempre a seus
impulsos?
Ele tinha uma percepo muito ntida dela, porm Kim recusou-se a lhe dar a satisfao de saber que atingira o alvo. Ela era impulsiva e sempre tinha sido. Se dependesse
dela teria casado com Chris poucos dias depois que o conhecera, porque havia sentido que ele era um homem com quem ela podia ser feliz. Chris se mostrara infinitamente
mais cauteloso, testando seu relacionamento, descobrindo interesses mtuos, passando muito tempo a seu lado, antes de tomar qualquer iniciativa que o levasse a um
envolvimento mais profundo. Era por isso que ela achava to difcil admitir este novo Chris que mandara tudo s favas em nome do... Em nome do qu? Do amor? Do desejo?
Era isto que ela teria que descobrir.
 O que o leva a pensar que me contentei em aceitar o que li em uma carta? Se voc me contasse esta mesma histria, ainda assim eu teria vindo.
 Voc quer enfiar na cabea que no se trata apenas de uma histria?  disse ele, entre dentes.  Meu Deus, eu conheo cada mulher...
 Tenho certeza que conhece  ela o interrompeu afoita.  Mas nem por isso voc entende quais so as razes que levam uma mulher a agir.
 No?  ele replicou suavemente, em um tom carregado de intenes.  Muito bem, amanh veremos quem estava com a razo.
Kim fitou-o por um longo momento, atrada pela fora de seu olhar.  Amanh?
 Eu a conduzirei at Freetown e irei com voc procurar seu cavaleiro andante. Se h uma coisa de que eu gosto  comprovar minhas teorias.
 No quero que voc esteja a meu lado quando encontrar Chris e, para falar a verdade, em nenhuma outra ocasio.
 Que pena.  Levantou-se da cadeira.  Vou mandar servir o caf da manh em seu quarto s seis e meia, e partiremos s sete. Quer acabar de tomar seu drinque agora
ou prefere lev-lo?
Ela mostrou-se cautelosa.  Para onde?
 Para a cama.  Ele sorriu zombeteiramente ao notar a mudana de expresso em seus olhos.  No para a minha, para a sua.
Tenho de sair novamente, e no vou deixar voc sozinha aqui para provocar mais um incidente como aquele.
 No so ainda nem oito horas  ela observou.
 Pois , no so nem oito horas. Leve algumas revistas para ler no quarto ou, se preferir, fique sentada, olhando as horas passarem. Em qualquer hiptese, sozinha
voc aqui no fica. Certo?
Sobravam a Kim muito poucas alternativas, e ela no queria passar pela humilhao de ser tirada de l  fora. Fazia apenas algumas horas que ela conhecia Dave e
no queria conhec-lo muito mais do que isto, porm aprendera que ele no era do tipo que dispensaria a menor considerao  sua sensibilidade, se ela se interpusesse
em seu caminho. Deixou o copo onde estava e levantou-se, consciente da ateno que ambos despertavam enquanto saam da sala. Se pudesse ler o pensamento deles, descobriria
que na manh seguinte sua reputao estaria em frangalhos.
Dave deixou-a diante da porta do quarto que lhe tinha sido designado, pois aparentemente no. confiava que ela fosse para l de livre e espontnea vontade. Com algum
esforo, Kim refreou seu desejo de perguntar satiricamente se ele gostaria de tranc-la no aposento. Ele seria mais do que capaz de aceitar a sugesto. Uma vez dentro,
andou inquieta em direo  janela. No havia muito o que ver,  claro, a no ser o brilho das lmpadas que iluminavam o local e a sombra escura das rvores ao longe,
em direo ao desfiladeiro. O rudo surdo das mquinas pulsava na noite, e bastaria um pouco de imaginao para transform-lo no som de tambores ecoando na floresta.
O lar, a rotina diria de ir ao escritrio, as noites compridas e solitrias, tudo isto parecia estar a milhares de quilmetros. Aqui estava a frica, quente, mida
e perigosamente imprevisvel quanto a seus efeitos sobre as emoes humanas. Nunca devia ter vindo para c, pensou. Dave tinha razo quanto a isto. No mais profundo
de si mesma j comeava a sentir-se diferente, e no era uma diferena que lhe agradasse.





CAPITULO II

A chuva antecipada veio como uma vingana pouco depois da meia-noite, soando como uma rajada de metralhadora contra o teto de zinco. Kim estava alagada de suor,
incapaz de dormir. Nenhum outro som interferia no rudo interminvel da chuva. Sozinha no quarto pequeno, ela sentiu-se isolada e vulnervel, apesar da porta estar
fechada, impedindo possveis intrusos. Finalmente, exausta, mergulhou em um sono agitado que se prolongou at o raiar do dia.
Conforme lhe fora prometido, o caf da manh foi servido s seis e meia. Por volta das sete, quando se preparava para deixar o quarto, o sol sugava a umidade da
terra atravs da nvoa quente e a temperatura j se elevava para os trinta e cinco graus. Consciente do aspecto amarrotado da blusa e da cala aps um dia de uso,
Kim dirigiu-se ao encontro de Dave no refeitrio, retribuindo sua breve saudao com um gesto distante.
A caminhonete estava l fora como antes, s que desta vez no havia espectadores, no momento em que ela se acomodou. Dave no falou enquanto esquentava o motor e
guiava estrada afora em direo ao porto principal.
Parou por alguns minutos no porto e foi trocar algumas palavras com o guarda, deixando-a no carro. Voltou logo em seguida; atravessaram o porto e desceram montanha
abaixo, em direo  estrada que serpenteava pelo desfiladeiro. Kim estremeceu involuntariamente no momento em que o estrondo de uma exploso encheu os ares, porm
Dave nem sequer se dignou a olhar.
 Estamos usando novamente a dinamite  foi a explicao que ele ofereceu.   a maneira mais fcil de chegar ao minrio.  Olhou-a rapidamente e seu rosto era inescrutvel.
 No mudou de idia?
 Claro que no.  Ela o disse evidenciando uma convico maior do que sentia. Agora que a hora se aproximava, comeava a pensar que teria sido prefervel pedir-lhe
que simplesmente a deixasse no hotel, dando-lhe a impresso de que voltaria para casa na primeira oportunidade. Tinha um pressentimento de que ele insistiria em
esperar at que ela tivesse se avistado com Chris, mesmo que fosse para lhe dizer que a prevenira, e isto significava que ela provavelmente teria de admitir tudo
o mais. Procurou reagir interiormente. Nem sequer chegara a ver Chris e no ouvira a sua verso dos fatos. At ento ela no faria planos.
A viagem at Freetown tomou muito menos tempo do que a ida em um txi velho. Abandonaram as terras ridas do planalto e agora percorriam os renques de palmeiras
do vale. De vez em quando cruzavam por aldeias abrigadas  sombra das rvores. As casas, de teto de duas-guas e janelas de trelia, enfileiravam-se uma aps outra.
E em todos os lugares via-se a vegetao luxuriante, que avanava como uma mar verde, esperando o momento de cobrir tudo que estivesse em seu caminho. Mais adiante
surgiu a curva majestosa da baa e o mar de telhados que se abrigavam ao p da montanha, estendendo-se em direo ao sul da pennsula.
A cidade era brilhante e colorida; o trfego era intenso nas ruas e a umidade era tremenda. Dave parou o carro em uma rua estreita que dava no porto, e na qual os
andares superiores das casas de concreto e zinco quase se tocavam.
  isto a, at que o dinheiro acabe  disse ele, com uma ponta de cinismo.  E neste lado do mundo isto no custa muito para acontecer.  Ele debruou-se e abriu
a porta.  Vou acompanh-la at l. Caso contrrio voc no vai conseguir.
Kim levantou-se e suas pernas comearam a tremer subitamente; ela quase chegou a desejar ter aceito seu conselho e deixar as coisas como estavam. Um bando de crianas
negras que brincavam na poeira da rua olharam para eles com indisfarada curiosidade enquanto se dirigiam para uma das casas. Kim sorriu para eles, sentindo-se um
tanto insegura, e foi recompensada com risadas que exibiam dentes alvssimos. Dave abriu a porta da casa sem se incomodar em bater e conduziu-a por um corredor estreito,
tomado por um aroma estranho e penetrante.
Sem nenhum aviso uma mulher jovem apareceu no fundo do corredor e l ficou a olh-los, com as mos nas cadeiras bem modeladas. Tinha mais ou menos vinte e cinco
anos de idade, os ossos da ma eram salientes e os olhos rasgados, tpicos da beleza negra. Jias douradas luziam em suas orelhas e nos pulsos e um cinto igualmente
dourado cingia-lhe a cintura apertada, ressaltando as cores vivas da roupa.
 Por que volta aqui de novo?  perguntou em ingls. Seus olhos dardejaram, ao encontrar os de Dave e em seguida admirou com certa insolncia a figura esguia de
Kim.  E por que traz esta mulher?
 Onde  que ele est?  ele disse, ignorando ambas as perguntas.
 Aqui no est. Vo embora!  Sua voz tinha se alterado e todo o corpo enrijecera.  Voc vem aqui para atrapalhar Chris. Sempre que voc vem aqui tem atrapalhao
para Chris!
 Pois a atrapalhao de verdade ainda nem comeou.  Dave deu um passo adiante.  Onde  que ele est? L em cima?
 Voc no pode subir l!  Colocou-se diante dele, impedindo o acesso  escada.  Ele no quer ver voc!
 Eu tambm no tenho razes para querer v-lo  foi a resposta imperturbvel.  Mas esta senhora quer. Voc vai traz-lo aqui para baixo, ou sou eu quem devo ir?
 Mai?  A voz vinha do andar superior.  Mai, o que ? Quem est a?
Dave levantou a voz.  Sou eu. Dave Nelson. Sua noiva est aqui embaixo comigo. Voc desce ou quer que eu a leve a para cima?
Houve uma longa pausa. Kim permaneceu imvel, apoiada contra a parede pardacenta, odiando Dave pela maneira como ele tinha anunciado sua presena, odiando com todas
as suas foras aquela histria srdida. Ouviu-se um barulho no topo da escada e aos poucos um homem fez-se visvel, abaixando a cabea para evitar as vigas baixas.
A ltima vez que ela vira Chris ele usava um terno muito bem cortado e seu cabelo estava cuidadosamente penteado.  primeira vista o homem que estava diante dela
agora correspondia muito pouco  sua recordao. Usava uma cala amarrotada, que dava a impresso de que ele tinha dormido com ela, e a camisa estava desabotoada
at a cintura. O cabelo claro estava comprido e mal cuidado, fazendo com que seu rosto parecesse mais magro, enquanto aqueles olhos azuis, que ela sempre achara
to francos, desviavam-se dos dela, depois de fit-los com surpresa, como coelhos que se refugiam na toca.
 Al, Chris  ela conseguiu dizer.  Eu... sinto vir incomod-lo desse jeito.
Dave proferiu uma exclamao de contrariedade e disse bruscamente.  Vou esperar no carro.
Houve outra pausa enquanto ele se retirava e ento Chris moveu-se desajeitadamente, indicando uma porta do lado oposto ao que ela se encontrava.  Acho melhor voc
entrar l.
 No!  Desta vez foi Mai quem se moveu, plantando-se diante da porta, com uma expresso de contrariedade no rosto.  Ela no entra l. Diga a ela pra ir embora,
Chris. Voc diz, est ouvindo?
 Est tudo bem, Mai.  Sua voz era envolvente.  Est tudo bem. Olhou para Kim e levantou os ombros.  Por que voc veio? Eu disse a voc que no viesse.
 Isso foi h seis meses  ela relembrou, em voz baixa.  Por que voc acha que eu vim? Por que voc no teve a coragem de me escrever e me contar a respeito...
disso?  Sua voz tremeu um pouco.  Por que, Chris?
 Porque sou um covarde, quando acontece uma coisa dessas, suponho. Esperei que voc fosse suficientemente sensata para compreender que eu havia desistido, assim
que parei de escrever. Eu jamais esperaria que voc aparecesse por aqui.
 Obviamente. No podemos ir conversar em algum lugar, somente ns dois? Voc me deve uma explicao.
Ele hesitou, deparou com o olhar de Mai e sacudiu lentamente a cabea.  No vai adiantar nada. No pretendo voltar. Sinto muito que as coisas tivessem de terminar
deste jeito, mas  assim mesmo. Tudo o que eu quero est aqui.
Kim desviou o olhar ao notar a expresso de triunfo no rosto arrogante de Mai, sentindo-se vitoriosa.  E quanto ao futuro? O que  que voc vai fazer quando no
tiver mais sustento?
 Eu me preocuparei com isto no tempo devido. Ganhei um bom dinheiro nestes dois ltimos anos.  Havia uma crueldade inconsciente em suas palavras, ou seriam to
inconscientes assim? Kim ficou a imaginar, confusa. Talvez ela tivesse se enganado em relao a Chris o tempo todo. Talvez ele tivesse sido sempre um egosta, s
que ela no tinha se permitido reconhecer o fato. Fosse o que fosse, agora pouco importava. No havia muito sentido em prolongar o encontro.
 Est certo  disse Kim.  Irei embora, se  isto que voc quer.
 Acho melhor. Voc no precisa se preocupar comigo.
 No  ela concordou, desanimada , acho que no. No mais. Adeus, Chris.
Deixou-os no corredor e saiu rapidamente para a rua,  luz do sol. Sentia uma dor aguda no peito e sua garganta estava seca e dolorida. Ele no indagou como ela
havia chegado l, e no mostrara o menor interesse em saber se tinha ou no condies de voltar. Perante ele, Kim tinha feito o possvel para no deixar transparecer
o que estava sentindo. As coisas haviam chegado quele ponto: tudo acabado, para sempre. Ela agora estava sozinha.
Dave olhou-a atravessar a rua, caminhando em sua direo, e sentando-se no banco do automvel que ocupara at h alguns instantes. Seu rosto estava impassvel. 
 agora, para onde vamos?
 Para meu hotel, suponho. Ser que deram meu quarto para algum, depois de ter passado a noite fora?
  possvel. Temos de verificar. H outros hotis.  Ligou a chave do carro e antes de partirem perguntou:  Voc veio de avio ou de navio?
 Avio.  Ela olhou adiante sem pestanejar, antecipando a prxima pergunta com os nervos  flor da pele.
 H um vo para a Inglaterra amanh  disse Dave.  Se voc tem um mnimo de juzo embarcar nele.  O silncio de Kim chamou sua ateno, e a expresso de seu
rosto alterou-se.  Voc reservou a passagem de volta, no  mesmo?
 Eu tinha dinheiro somente para a passagem de vinda. A viagem para c  um tanto cara.
 No me diga.  Buzinou para um cachorro que atravessava a rua, desviou-se e voltou a olh-la.  Desculpe a pergunta, mas quais so seus planos imediatos para o
futuro?
 No sei  ela confessou  Ainda no consegui pensar nisto.
 Voc quer dizer que fez uma viagem para o desconhecido com o objetivo de encontrar seu homem ou ento perecer? Como eu disse antes, voc  uma mulher e tanto,
Kimberley Freeman!
 Sou sim, com toda certeza!  Ela pretendeu que as palavras soassem irreverentes e jocosas, mas sua voz subitamente falhou e sentiu que as lgrimas lhe afloravam
aos olhos, como reao ao que experimentava. Dave lanou-lhe um rpido olhar, entrou em uma viela espremida entre dois prdios e estacionou o carro diante de um
muro que fechava a passagem.
 Muito bem  disse Dave.  Acalme-se.
De repente Kim se deu conta de que estava apoiada contra seu peito e que seus braos slidos a rodeavam. Ento descarregou toda a tenso acumulada durante as ltimas
semanas, explodindo em soluos que acabaram por deix-la exausta. Mesmo quando recuperou calma suficiente para saber o que estava fazendo e com quem, no quis se
mexer. O brao em volta de seus ombros era como uma barricada contra o mundo, uma armadura de metal que a protegia de uma dor maior. Queria permanecer como estava,
segura e a salvo.
 Desculpe  disse Kim baixinho.  Eu no sei o que aconteceu comigo.
 No sabe?  indagou ele, secamente.  Bem, deixando este assunto de lado por um momento, vamos tentar pr as coisas em ordem. Quanto dinheiro voc tem?
 Por volta de vinte libras.
Ele proferiu uma pequena exclamao.  Isto no a levar muito longe.
 Posso conseguir um emprego  ela disse, defendendo-se.
 Fazendo o qu?
 No sei. Um trabalho como secretria, acho.
 At parece que voc tinha planejado tudo. Voc acha que  assim to fcil?
 Provavelmente no. De qualquer modo voc no precisa mais se preocupar comigo. Por favor, queira me deixar no hotel.
Ele no se moveu imediatamente, apenas ficou ali sentado, olhando-a com aquele ar calculista que ela j havia notado antes.  Tem certeza de que  isto mesmo que
voc quer?
  um lugar to bom quanto qualquer outro.  O amor-prprio ajudava-a a manter o tom da voz inalterado.  Preciso ter um ponto de referncia enquanto estiver procurando
emprego.
  mesmo?
Era impossvel saber o que ele estava pensando, enquanto guiava o carro para fora da viela. Kim ficou a imaginar por que ele tinha feito aquela pergunta aparentemente
to suprflua. Havia muito pouca coisa a ser feita, seno voltar para o hotel, apesar de que o dinheiro dava para mant-la somente por alguns dias. Se durante aquele
perodo ela no conseguisse encontrar algum emprego... Procurou afastar aquele pensamento com toda firmeza... Era uma ponte que iria de atravessar quando chegasse
o momento.
A primeira ponte a ser atravessada veio muito antes do que ela imaginara. O gerente do hotel mostrou-se polido, porm irredutvel. Como ela no tinha voltado na
noite anterior, presumiram que ela no precisava mais do quarto e o tinham dado a outra pessoa, havia uma hora. A bagagem seria retida, at que ela pagasse a conta
relativa s duas noites em que o quarto tinha sido reservado em seu nome.
 Pague  disse Dave laconicamente  e vamos embora daqui.
 Ele estava apoiado no balco da recepo, ao lado de Kim, aparentemente sem se dar conta do papel que o gerente do hotel obviamente lhe atribura na vida da garota.
Kim no questionou sequer um minuto a convenincia de sair de l o mais rapidamente possvel, sobretudo quando viu o tamanho da conta por apenas dois. dias de estada.
Mais uma semana l e ela estaria  beira da falncia.
 E agora?  perguntou Dave, quando saram.  Outro hotel?
 Imagino que sim.  Acrescentou com alguma relutncia:  Voc conhece algum outro, menos caro do que este?
 Claro  disse ele.  Mas em nenhum dos que conheo eu me arriscaria a deixar uma mulher sozinha.
 No me restam muitas alternativas  ela respondeu, preocupada.  Tenho que aceitar o que me aparecer.
 Mas no aquilo em que estou pensando.  Encarou-a, mordiscando o lbio inferior.  Acho que estamos precisando tomar um drinque antes de prosseguirmos no assunto.
 No quero beber, obrigada. Se voc no me indicar um lugar conveniente para ficar terei de procurar eu mesma.  Pegou a mala com ar de desafio.  At logo, senhor
Dave. De qualquer modo, obrigada por me trazer  cidade.
 Um momento.  Ele avanou e tomou a mala de suas mos.  Muito bem, entre no carro.
Kim obedeceu sem discutir. Uma coisa era ser orgulhosa, mas naquele momento ela precisava de sua ajuda. Iria se sentir terrivelmente s, quando ele a deixasse, admitiu,
tremendo. Deixando de lado seus. aspectos negativos, havia algo em sua presena que inspirava um sentimento de segurana. Enquanto ele estivesse por perto nada de
mal poderia lhe acontecer.
 Em que parte da cidade fica o hotel em que voc est pensando?  ela indagou aps alguns momentos, supondo que ele se localizaria nos subrbios, como era provvel,
em se tratando de um lugar mais barato. Nesse caso ela teria de economizar, vindo a p todos os dias at o centro, a fim de comear a procurar emprego.
 Que hotel?  foi a resposta.  Eu disse a voc que amos tomar um drinque.
 E eu lhe disse que no queria beber! Pare o carro e deixe-me saltar. Pode deixar que eu encontrarei um lugar!
 Para incio de conversa, voc nem saberia onde procurar. De qualquer modo, tenho uma proposta a lhe fazer.
 Proposta? Quer dizer que voc sabe de um emprego para mim?
 Talvez.  Lanou-lhe um breve olhar.  Voc se sai bem com cifras?
 At que sim. Fiz um curso de contabilidade.
 Muito bem.  Parou diante de um bar um pouco afastado da rua.
 Daqui de onde estamos podemos ficar de olho na sua mala  comentou, escolhendo a mesa mais prxima da entrada.  Aqui neste lugar o que no falta  ladro.  Dave
pediu as bebidas ao garom.  Precisamos de algum no departamento de pessoal  disse, como se no tivesse havido a menor pausa entre este comentrio e o anterior.
 L na mina, quer dizer?
 E onde mais?  Apressou-se em acrescentar:  Devo entrar de frias dentro de umas cinco semanas. O emprego duraria at ento e o salrio  bom.
As coisas comearam a ficar claras.  Oh, percebo  disse ela.
 Quer dizer que como empregada da companhia provavelmente poderia comprar a passagem de volta com desconto?
  possvel. Mesmo tendo isto em mente duvido que voc consiga em to pouco tempo ganhar o suficiente para adquirir uma passagem para a Inglaterra. O emprego 
s para ajud-la, para que voc tenha o que fazer enquanto estiver presa aqui. Se fizer a viagem de volta comigo a passagem ser grtis.
Kim franziu o cenho.  No percebo qual a diferena que isto faria.
 Faz, sim, se voc estiver usando o meu sobrenome, Nelson.  Seus lbios se afastaram ironicamente ao perceber a expresso de espanto que surgiu em seu rosto. 
 uma medida temporria, naturalmente. Assim que chegarmos na Inglaterra tomaremos uma providncia. O principal  que a coisa, sendo legal, poupar muito trabalho.
A cabea de Kim girava. Casar com um homem a quem ela conhecia h menos de vinte e quatro horas? Era simplesmente fantstico! E, no entanto, de seu prprio ponto
de vista a proposta dele fazia um certo sentido. Na qualidade de esposa de Dave Nelson, ela no teria de enfrentar a menor dificuldade com as autoridades e a situao
significaria uma dupla segurana, no que dizia respeito a seu emprego na mina. E a coisa toda no era como um casamento de verdade. Ele simplesmente estava lhe oferecendo
a oportunidade de sair de uma situao a que fora levada por sua prpria impetuosidade, pois de certo modo se sentia responsvel por ela. Isto lhe servia para mostrar
at que ponto era possvel julgar algum mal, a partir de uma primeira impresso.
 Eu... eu no sei o que dizer  conseguiu responder finalmente.
 Voc consegue pensar em uma soluo melhor?  disse Dave.
 No  ela teve de reconhecer.  No, no consigo. Assim eu poderia voltar para casa com algum dinheiro no bolso e em tempo razoavelmente curto.  Fez uma pausa,
encontrou seu olhar e baixou rapidamente os olhos, fitando o tampo da mesa.  No consigo entender por que voc vai to longe para me tirar de uma situao difcil.
Afinal de contas, somos totalmente estranhos um para o outro.
 Ambos somos ingleses  disse ele, irnico.  Isto significa alguma coisa. Digamos que no posso deixar uma patrcia em apuros. Ento, est de acordo?
 Como voc mesmo disse, no h outra soluo. Pelo menos no consigo pensar em nada melhor.  Ela hesitou, pois mal podia acreditar que ele estivesse sendo sincero.
 Quando foi que voc teve a idia... quero dizer, h quanto tempo...
 Se fosse hoje, por exemplo?  ele respondeu, tranqilo.
 Hoje?
 Claro.  Ele parecia estar se divertindo.  Isto a incomoda?
 No. No, claro que no.  Kim no tinha certeza absoluta de que estivesse dizendo a verdade. Hoje! Tudo tinha sido to rpido! Rpido demais. No lhe dava tempo
para pensar. E, no entanto, no seria esta a melhor soluo, pensando bem? As prprias circunstncias no aconselhavam ir levando as coisas adiante? De que. adiantava
esperar? Nem por isso sua situao se modificaria. Alm do mais, era reconfortante saber que tudo poderia se resolver daquela forma, ter algum em quem confiar.
Os mineiros podiam ser duros na aparncia, mas certamente possuam qualidades inestimveis.
Os drinques foram servidos. Kim levantou o copo impulsivamente e sorriu para o homem sentado diante dela.  Ao dia de hoje  brindou.  Jamais cometerei o erro de
julgar algum to precipitadamente.
Depois disso, tudo pareceu acontecer em meio a uma atmosfera de sonho. Saindo do bar, Dave voltou novamente para a cidade dirigindo-se para um grande edifcio de
aparncia oficial, situada em uma das ruas mais movimentadas. Deixou-a sozinha por alguns minutos no amplo hall de espera e ao voltar encontrou-a sentada na mesma
posio. Sua mente estava to ausente quanto sua expresso. Em seguida, encontraram-se em uma sala pequena com algumas outras pessoas, em meio a muita conversa e
ao barulho do carimbos que se apoiavam sobre documentos. Kim repetiu o que Dave lhe ordenara dizer, sem compreender o sentido exato das palavras, retribuiu um sorriso
de despedida ao funcionrio que os atendera e encontrou-se novamente na rua, indo em direo ao carro, ao lado de Dave.
 Vamos almoar , disse ele displicentemente.  Em seguida voltamos. J est ficando tarde e quando chegarmos ser noite.
Levou-a at um pequeno restaurante situado em uma travessa, onde, a comida era bem temperada e abundante, o vinho levemente cido, porm muito agradvel. No parecia
haver muita coisa a ser dita. Kim desejou ter o tempo e a oportunidade de tomar um banho e trocar de roupa, mas no parecia passar pela cabea de Dave que tais assuntos
tivessem importncia para ela naquele momento. Nem o calor, nem a umidade pareciam afet-lo muito. Ele enfrentava a situao e a encarava como parte do seu trabalho.
A estao chuvosa deveria comear por aqueles dias, pensou Kim. A tempestade da noite anterior tinha sido apenas um preldio, um aviso. Ela imaginou como seria nas
montanhas, quando as tempestades de verdade comeassem a cair.
Novamente no carro, sentou-se, sentindo-se desligada da realidade. No havia se passado quatro horas desde que eles chegaram  cidade como dois estranhos, e no entanto
agora o homem sentado a seu lado era seu marido. Lanou um olhar para aquele perfil duro e bem delineado, baixou os olhos para as mos que seguravam a direo com
firmeza e sentiu um pnico momentneo. Tratava-se apenas de um arranjo conveniente e de mais nada. No havia nada a temer, no havia por que se preocupar. Dave dera
a entender claramente desde o incio que ela no era seu tipo.
A noite mal dormida, os acontecimentos da manh, o calor e o vinho que havia bebido ao almoo, tudo isto comeou a fazer efeito ao mesmo tempo. Mal tinham se afastado
alguns quilmetros da cidade e as plpebras de Kim comearam a cerrar-se. At mesmo o barulho que fazia o carro ao deslizar pela superfcie spera da estrada no
era suficiente para mant-la acordada. Quando finalmente conseguiu abrir os olhos j era quase noite, e sentiu uma dor incmoda no pescoo, no ponto em que sua cabea
se apoiara desajeitadamente de encontro  porta. Sentou-se ereta, massageando o lugar dolorido, deparou com o olhar de Dave e sentiu um tremor percorrendo seu corpo,
no mesmo momento em que lhe voltava a memria.
 Onde estamos?  perguntou.
 A alguns quilmetros da mina. Voc dormiu de fato.
No podia pensar em mais nada para dizer. Estavam a apenas alguns quilmetros da mina e a distncia diminua cada vez mais. Tentou imaginar a cara de Luke quando
entrassem no clube e as reaes que despertariam nos outros homens. As coisas aconteciam depressa nos trpicos, mas no to depressa assim. Imaginou quantos ficariam
a par do que acontecera ou se Dave encararia o assunto como coisa dele e de mais ningum. Claro que ningum alimentaria grandes dvidas quando soubessem que ocupavam
quartos separados. Supunha que Dave dormia no clube. At aquele momento no pensara no assunto. Mas eles todos no poderiam dormir l, no  mesmo?
 Eu ouvi voc falar de chuveiros ontem  noite  perguntou Kim, alguns quilmetros adiante.  Neste momento sinto que no h nada que eu deseje tanto.
 Quer dizer que Luke no lhe mostrou o lugar? Que relaxado!  Lanou-lhe rapidamente um olhar, enquanto sua silhueta se recortava contra a tarde que caa.  Como
 que voc se arranjou?
 Fiz o que pude, usei a bacia. Voc mora no clube?
 No  disse ele.  Os engenheiros mais graduados tm casa  sua disposio. Esto situadas em uma clareira, do outro lado do clube;  quase uma aldeia. H vrios
banheiros nos fundos.  um tanto primitivo, mas resolve o problema. No entanto, acho melhor voc usar o banheiro do clube hoje  noite.
Uma casa que era s dele. Kim no tinha certeza de como se sentia em relao a isto. Naquele exato momento no tinha certeza de como se sentia em relao ao que
quer que fosse. O dia tinha transcorrido em meio a uma sensao indeterminada, como um sonho que comea a dissipar-se no momento em que se desperta. Os portes da
mina assomavam ao longe, desenhados contra o crepsculo graas s luzes dispostas em arco. O guarda fez sinal para que entrassem e Dave tomou a estrada estreita
que levava ao clube. As luzes do farol incidiram sobre os tufos de samambaias gigantes que se espalhavam por entre as rvores. Ento pararam diante do edifcio todo
pintado de branco e Dave retirou sua mala do banco de trs.
O silncio pairou na sala do clube, no momento em que entraram. Todos os olhares se pousaram sobre eles e a curiosidade estampou-se em cada rosto. Dave no lhes
prestou ateno e atravessou a sala tendo Kim a seu lado, em direo ao corredor. Assim que saram a conversa reiniciou e houve uma sbita exploso de gargalhadas.
Com o rosto pegando fogo, Kim esperou at que Dave parasse diante de uma porta  direita antes de dizer, insegura:  O que  que voc vai contar a eles?
Voltou-se e a encarou, com a mo na maaneta da porta.  A verdade,  evidente. Que mais poderia dizer?  No esperou pela resposta, mas girou a maaneta e escancarou
a porta.  Tranque e ningum a incomodar. Vou providenciar comida.
Kim recebeu a mala de suas mos e entrou na sala comprida, na qual uma das paredes era tomada por cubculos com chuveiros. Fechou a porta e girou a chave, como ele
tinha determinado, em seguida colocou a mala em cima do banco que ocupava o outro lado da sala e, abrindo-a, escolheu um vestido estampado.
Quinze minutos mais tarde, sentindo-se refrescada e desperta, saiu do banheiro e dirigiu-se para a sala de jantar. O rudo dos talheres cessou de repente, assim
que ela entrou. Kim endereou um vago sorriso para todos os presentes e manteve os olhos fixos em Dave, enquanto atravessava a sala em direo  mesa onde ele estava
sentado, consciente do modo como ele a olhava.
 Veio mais cedo do que eu esperava  comentou, enquanto ela se sentava na cadeira em frente.  Pedi gim com limo para voc. Est bem?
 Gostaria que eles parassem de olhar  murmurou, pouco  vontade.  Eu me sinto como se fosse um monstro.
 Uma mulher como voc  uma raridade por estas bandas. A ltima mulher que apareceu por aqui era uma psicloga alem, um tanto avantajada, e dificilmente ela teria
condies de elevar a temperatura de quem quer que fosse. Tente ignor-los. Eles no iro embora, mas se tornaro parte do cenrio.
 Eles todos sabem?  perguntou.
 Sabem o qu?
 Que ns...  Ela mordeu o lbio inferior, percebendo um brilho irnico em seu olhar.  Voc sabe a que me refiro.
 Em breve ficaro sabendo. No  necessrio que eu me levante e faa uma comunicao formal.
 Kim esperou at o garom colocar a sopa diante deles e afastar-se. Ento perguntou, insegura:  Ser que eles vo acreditar? Afinal de contas, eu nem sequer estou
usando anel.
 E se estivesse, isto provaria alguma coisa?  Estudou-a por um momento.  Voc tem alguma objeo quanto ao fato de no usar nenhum?
 Bem  disse ela, defendendo-se   o costume, no  mesmo?
 No tinha pensado no assunto  ele reconheceu.  Vou ver o que posso fazer.  Fez um gesto, apontando para seu prato.  Voc no vai comer? Eu sei que no  o
Hotel Ritz, mas no deixa de ter seus mritos.
 Nunca pus os ps no Ritz, portanto no tenho nenhuma referncia para comparar. O restaurante na esquina, perto de casa, estava mais ao alcance de minha bolsa.
Voc conhece bem Londres?
 Nasci l  respondeu ele, desinteressado.
  mesmo?  Olhou para ele na expectativa, mas, como Dave no se dispusesse a fazer maiores comentrios, indagou com alguma hesitao:  A sua famlia ainda mora
l?
 No tenho mais famlia, a menos que leve em conta uma tia que mora no interior. Nem imagino que ela se d ao trabalho de levar em conta que existo. Como parece
que estamos no momento das perguntas e respostas, o que aconteceu com sua famlia?
 Meu pai morreu quando eu era pequena, e minha me h alguns anos. Eu era filha nica. Parece que h um ramo da famlia em algum lugar de Westmoreland, mas no
cheguei a conhec-lo. Tnhamos uma pequena propriedade em Kent, mas teve de ser vendida aps a morte de papai. Mame voltou para seu emprego na cidade e eu fui para
o jardim da infncia. Desculpe, estou falando demais. Nada disso deve lhe interessar muito.
  que eu no acredito em olhar para trs, s isto. O que passou, passou, o que ainda vai acontecer  que importa.  Com um brilho irnico no olhar levantou o copo.
 Felicidades.

J passava das oito quando terminaram o jantar. Quando Dave lhe perguntou se ela gostaria de tomar mais um drinque no bar Kim recusou, no sentindo a menor vontade
de encarar novamente aqueles homens, enquanto o assunto no fosse ventilado e entendido por todos.
Sua mala estava onde ela a havia deixado, no banheiro. Dave levantou-a facilmente com uma s mo e dirigiu-se para o carro, saudando os homens que cruzou no caminho,
mas sem acrescentar maiores comentrios. Assim que chegaram junto ao carro, Kim sentiu-se insegura em relao a suas preferncias, caso lhe tivesse sido dado o direito
de escolha: se a surpresa que sem dvida se seguiria a qualquer tipo de comunicado ou se a aceitao um tanto bvia de seu status na vida de Dave. Subiu apressadamente
no carro, desejosa de se afastar do clube e de seus membros, desejosa de estar novamente a ss.
Como Dave dissera, as casas ocupadas pelos engenheiros mais graduados espalhavam-se atravs de uma grande clareira logo aps a curva da estrada. Ao todo eram cinco
casas pequenas, de tijolo aparente, com uma varanda estreita que se estendia por trs lados. Isto Kim conseguiu perceber antes que Dave desligasse os faris e voltasse
para o carro a fim de pegar sua mala e gui-la at os trs degraus de madeira da segunda casa. A luz de uma lamparina brilhava sobre a mesa colocada no meio de uma
pequena sala de estar muito comum, mobiliada com algumas peas muito simples e com duas estantes cheias de livros.
 O lar de um ingls  seu castelo  disse ele, ironicamente.  Venha, vou lhe mostrar o resto da casa. No h muito o que se ver. Outra porta no fundo da sala dava
para um corredor, ao longo do qual viam-se mais trs portas. Dave abriu a que estava  sua frente e indicou a ela que entrasse em um quarto, o qual continha duas
camas de solteiro, um guarda-roupa e uma cmoda.
 Disse a eles que colocassem mais uma cama enquanto jantvamos. Ficou um pouco apertado, mas no ser por muito tempo.
Kim permaneceu imvel, com os olhos pregados no espao estreito entre as camas e seu corao subitamente disparou.  Voc... voc pretende dormir aqui?  conseguiu
dizer finalmente.
 Naturalmente  disse ele com simplicidade.  Onde mais eu iria dormir? H somente um quarto.
Ela o encarou e em seu olhar havia espanto e constrangimento.  Mas voc... no pode!
 No posso?  Ele fitou-a com cinismo.  Isto so modos de uma mulher dirigir-se ao marido?
 As coisas no se passam assim. Voc sabe que no!  Tentou dominar o pnico que nascia dentro dela.  Voc casou comigo somente para impedir que os demais homens
tivessem idias a meu respeito enquanto estivesse aqui.
  mesmo. Estava certo.  Seu rosto manteve-se inalterado.
 Vamos, voc no nasceu ontem. Voc pensa realmente que eu concordaria com suas condies? Ofereci-me para casar com voc a fim de tir-la de uma dificuldade, mas
no me lembro de ter dito que desistiria das recompensas.
 Voc me enganou!  Naquele momento suas palavras no soavam ridculas. Seu rosto empalidecera.  Voc me fez acreditar que apenas estava me oferecendo uma soluo
temporria, e sua atitude foi deliberada.
  verdade. A oferta continua temporria. Cinco semanas aqui, depois voltaremos para a Inglaterra e imediatamente nos separaremos.
 Sua voz era implacvel.  Mas  bom voc no ter iluses a respeito: enquanto durar no haver regras.
 Se voc puser as mos em mim, eu... eu o mato!
 Isto tornaria nossas relaes ainda mais interessantes. Tenho de ir at a mina durante mais ou menos uma hora. Como voc parece estar to decidida a preservar
seus ideais de adolescente, terei cuidado de bater  porta antes de entrar.  Fez um gesto irnico de despedida.  At logo mais.
Kim permaneceu onde estava, olhando estarrecida a porta que fechara. Sentia-se quase que paralisada, fsica e emocionalmente. A partir de agora, o que iria acontecer?
Como  que pudera se envolver com o homem que acabara de deix-la, um homem em quem ela no podia perceber um lampejo sequer das qualidades que lhe atribura naquela
manh? Casara-se com um estranho, e, mais do que isto, com um estranho que a atemorizava. Ele estava falando absolutamente a srio, disto ela tinha certeza. Assim
que voltasse esperaria que ela se submetesse a ele, sem levar em conta seus sentimentos, sem levar em conta o que quer que fosse, a no ser o fato de que ela legalmente
era sua esposa.
Um tremor percorreu-a toda,  medida que passava o torpor. Ela no conseguiria suportar aquela situao. No admitiria suport-la! Pelo menos no que dependesse dela!
Se ele a desejava assim to simplesmente teria de lutar. Com a maior determinao apagou da memria a dureza e a fora de seus ombros e braos, a certeza de que
lutar contra um homem daqueles seria o mesmo que tentar deter um trator. Foi at a porta, girou a chave e ps-se a estudar o quarto. A cmoda parecia ser suficientemente
pesada. Se ela conseguisse arrast-la at a porta j seria suficiente, pelo menos por aquela noite. Ela se recusava a levar em conta o que aconteceria depois disso,
pelo menos naquele momento.
Estava sentada na cama, ainda completamente vestida, quando ouviu Dave, que regressava  casa. Ouviu o barulho da porta da entrada que se fechava e seus passos ressoando
na sala de estar. Fascinada, Kim olhou a maaneta da porta que baixava e ouviu o rudo do fecho ao ser forado. A pausa que se seguiu pareceu durar um sculo. Quase
comeara a acreditar que ele partira quando a pancada seca produzida por um pontap logo abaixo do fecho da porta deixou-a sem saber o que fazer. Com o corao aos
pulos, sentou-se sem esboar um movimento sequer, enquanto a porta cedeu, ao som da madeira que se estilhaava, e a cmoda era arrastada de lado. Dave surgiu na
entrada; sua respirao estava um tanto ofegante e o semblante tenso.
 Voc no aprende suficientemente rpido. Voc no vai escapar desta situao, moa dos olhos verdes, portanto acho melhor desistir de tentar. J  tempo de comear
a agir como uma adulta.
 Para que voc possa agir como um animal?  Lanou-lhe as palavras no rosto e o receio que tinha dele foi momentaneamente substitudo por uma fria incontrolvel.
 Se o que voc queria era uma mulher na cama poderia ter conseguido sem casar com ela primeiro!  Refugiou-se instintivamente em um dos cantos da cama poucos segundos
antes que ele a tocasse.  Se voc puser o dedo em mim, gritarei com tanta fora que me ouviro em Freetown!
 Vou fazer muito mais do que simplesmente pr o dedo em voc  disse ele suavemente, com toda convico.  E pode gritar  vontade, se  que isto lhe traz algum
alvio. O que  que espera, um peloto de socorro  sua porta? Voc fez um acordo e vai cumpri-lo at o fim!
Deu um salto e agarrou-lhe o pulso com tanta rapidez que ela no teve chance de se defender. O desespero lhe dava foras e lutou contra ele, golpeando-o no rosto
com o punho, sem mesmo notar a dor que isto lhe provocava. Vendo que isto no adiantava de nada, baixou rapidamente a cabea e enterrou os dentes no punho dele,
sentindo uma exaltao selvagem ao ouvir seu grito de dor.
Imediatamente, ela se viu de costas na cama e ele por cima dela; seus olhos lampejavam, sorria impiedosamente e suas mos a pressionavam contra o travesseiro. De
repente seus ombros largos se interpuseram entre a luz e ela e seus lbios procuraram os dela com tamanha avidez que sentiu o mundo rodopiar  sua volta.
O som estridente de uma sirena trouxe um sbito alvio. Ainda meio tonta, Kim viu, Dave levantar-se e sentiu que as mos dele abandonavam seu corpo. Levantara a
cabea e toda sua postura mudara.
 Sinal de alarme  disse, pondo-se imediatamente de p e atravessando rapidamente o quarto. Ela ficou sem se mover, como ele a deixara, enquanto a porta se fechava
 sua passagem.



CAPITULO III

O barulho de um motor despertou Kim da sonolncia que se apoderara dela por volta das trs da madrugada, fazendo-a sentar-se ereta na cama, assustada. A madrugada
comeava a raiar e a claridade comeava a filtrar-se atravs das persianas parcialmente abertas, invadindo o quarto. Ela obrigou-se a permanecer sentada enquanto
os passos se aproximavam da varanda e a porta era aberta.
Dave parecia cansado e sujo; a camisa estava toda desabotoada e rasgada. Havia uma poeira cinza em seus cabelos e ela tambm se assentara no seu rosto vincado, fazendo-o
dez anos mais velho. Ficou parado por um momento encarando-a, com um ligeiro sorriso no canto da boca.
 No precisava ficar acordada  minha espera  disse ele. -Bastava que um de ns perdesse uma noite de sono.
 Foi um acidente? O tom com que falava era baixo, porm firme.
 Um deslizamento de terra. Foi devido  chuva. Trs homens ficaram presos, porm conseguimos retir-los.  Entrou no quarto, massageando o pescoo.  Estou precisando
 de um chuveiro.
 Sem gua quente?
 Frio mesmo serve, no momento. Posso tomar mais outro banho assim que levantar.
 Voc vai para a cama? Deste jeito?
Ele fez uma pausa, voltou-se e encarou-a.  Para a cama, no. Alis, nem cheguei at ela, se  que voc se lembra. No seria m idia se voc fosse se deitar. Estou
me sentindo de uma tal maneira que voc no precisa se preocupar comigo. Pegarei em um sono ferrado durante muitas horas.
Desta vez sua voz tremia ligeiramente.  No podemos... voc simplesmente no pode ignorar o que aconteceu na noite passada. Est certo, interpretei mal suas intenes.
Foi ingnuo da minha parte, talvez, mas parece que este  o meu jeito de ser. Nestas circunstncias seria melhor que esquecssemos o que combinamos e que eu voltasse
para Freetown. Eu farei o possvel para voltar sozinha para a Inglaterra.
 Em primeiro lugar, nada aconteceu na noite passada. No houve chance. E nossa combinao permanece. Eu disse que levaria voc de volta para a Inglaterra e o farei.
 Mas a que preo!
 Voc estava preparada para me usar; por que  que eu no deveria esperar uma compensao?
 Eu no estava usando voc  ela protestou.  Pelo menos no da maneira como voc coloca. Foi voc quem se ofereceu.
 Claro que sim. E sou eu tambm quem est ditando as regras. Voc poderia se poupar de um bocado de aborrecimentos se aceitasse as coisas como elas so.
 E voc tambm, suponho  ela respondeu, sarcstica.
 No especialmente.  Observou com ironia o sbito rubor que subia a seu rosto.  Cinco semanas passam depressa. Na verdade, passam at depressa demais. Posso querer
ficar com voc um pouco mais.
 Voc vai ficar comigo o tempo que for necessrio para eu encontrar uma maneira de escapar deste lugar! E acharei um jeito, nem que seja preciso ir a p! Voc no
estar a meu lado o tempo todo.
 No  ele concordou , no estarei. Mas lembre-se de que as chuvas esto para chegar e voc vai ter muita sorte se conseguir agentar sozinha por mais de vinte
e quatro horas. Acontece tambm que tenho pelo menos cinqenta homens peritos em rastejar os traos de quem quer que seja, e se eu tivesse mesmo que ir atrs de
voc...  Suspendeu a frase com um gesto sbito de cansao.  Vou tomar um banho. Faa o que quiser, mas no me acorde antes das dez, a menos que surja alguma coisa
urgente.
Passou-se muito tempo at que Kim resolveu levantar-se de onde estava. Ergueu-se lentamente e foi espiar atravs da persiana, pondo-se a contemplar a terra nua e
avermelhada da clareira. As rvores l fora no se moviam, envolvidas pela nvoa mida e quente que logo daria lugar ao sol que se levantava. Estavam em um lugar
bem abrigado e todos os rudos eram amortecidos pela barreira protetora da montanha. Estavam a centenas de quilmetros da civilizao, mas eles poderiam se multiplicar
por milhares. Mesmo que conseguisse roubar um carro jamais conseguiria atravessar o porto principal.
Seu rosto adquiriu uma expresso enrgica. Uma coisa era certa: no daria a Dave a oportunidade de acabar o que havia iniciado na noite passada. Estava disposta
a correr todos os riscos em Freetown, mesmo que para chegar at l tivesse de viajar escondida em um dos caminhes da mina. Chris deveria ajud-la, pensou desesperadamente.
Se ele pelo menos lhe emprestasse o dinheiro para comprar uma passagem de volta... Prometeria envi-lo de volta no momento em que chegasse, mesmo que tivesse de
se pr de joelhos diante do gerente do banco para consegui-lo. E quanto ao seu casamento, quem poderia afirmar que ele era legal, at mesmo na Inglaterra? E mesmo
que fosse... bom, isto era algo para se encarar. O preo da impetuosidade, disse a si mesma, com pesar. Talvez isto lhe ensinasse a ser mais precavida antes de se
jogar nas coisas.
Um barulho no corredor a fez voltar o rosto abruptamente. Tornou a relaxar, preparada para dar as boas-vindas a qualquer pessoa que no fosse Dave. Um jovem africano
estava parado na entrada do quarto. Ele parou assim que a viu, pareceu perturbado por um breve momento e em seguida mostrou os dentes, sorrindo amplamente.
 A senhorita gostaria de tomar caf agora?  disse o rapaz.
 Ainda no. Voc  do clube?
 Meu nome  Patrick  disse.  Trabalho aqui para o chefe Nelson.
 Muito bem, Patrick  disse, esforando-se por parecer natural.  Vou querer caf com torradas dentro de uma meia hora. H... h algum no banheiro?
Ele pareceu se perturbar um pouco.  Ainda no tem gua quente, dona.
 No faz mal. Fria mesmo serve.
Ao se dirigir at a porta notou que sua mala ainda estava no quarto onde Dave a deixara na noite passada  e ele estava l agora. Ela fez uma pausa, sentiu que os
olhos de Patrick se pousavam sobre ela e forou-se a prosseguir. Seu corao batia rpido; girou silenciosamente a maaneta e abriu a porta o suficiente para ver
a cabea pousada no travesseiro, na primeira cama. O rosto estava voltado para o outro lado e a respirao era calma e profunda. Mal ousando respirar, entrou no
quarto e cerrou a porta, dando-lhe as costas enquanto estudava aquela figura na cama. Estava deitado de bruos, coberto at a cintura; as costas nuas e bronzeadas
se destacavam contra o linho alvo. Um dos braos descansava  beira do colcho e a mo repousava espalmada. Mesmo dormindo seu corpo rijo e musculoso mostrava um
poder tremendo.
Sua mala estava no outro lado do quarto, sob a janela. Ainda segurando a respirao, Kim afastou-se da porta e atravessou o quarto; deteve a mo que se estendia
ao notar que Dave movera-se subitamente, ficando de costas com um suspiro abafado. Somente quando se certificou de que ele ainda dormia completou o gesto, pegando
a mala e voltando  porta.
A despeito da necessidade de sair do quarto com toda pressa, descobriu que seus olhos eram inexoravelmente atrados para o rosto no travesseiro, pousando primeiro
no seu cabelo negro e fino, na sua fronte vincada e demorando-se por uns segundos na boca, de traos enrgicos. Na noite passada aqueles braos a tinham cingido,
aquela boca a tinha beijado, e ela soubera que no havia como escapar dele, uma vez que a solicitara. Se a sirene no tivesse soado, ela no teria conseguido se
defender contra sua fora e sua determinao; no havia como fugir disto. Somente a necessidade de salvar homens em perigo a tinha livrado de ser possuda como uma
das escravas que a regio fornecera outrora em quantidade, e ela dificilmente poderia esperar se ver livre novamente. Precisava fugir ainda hoje, pensou preocupada.
De um modo ou de outro, tinha de ser hoje!
O banheiro era um pequeno cercado de bambu ao lado da varanda dos fundos, com o teto forrado de palha e um sistema de cordas e roldanas que proporcionava um banho
surpreendentemente agradvel, quando a gua se despencava de um reservatrio. Enxugar-se no foi problema, mas vestir-se em um espao to estreito no foi fcil.
Saiu, sentindo-se limpa e refrescada em sua cala de linho creme e blusa da mesma cor; dobrou cuidadosamente o vestido e enfiou-o na mala. Era bom que o guardasse
com carinho, pensou. No tinha certeza de quando voltaria a precisar us-lo.
O banho frio tinha-lhe ajudado a recuperar o equilbrio. O que estava feito estava feito; no fazia o menor sentido ficar pensando no assunto. O que ela tinha de
fazer agora era concentrar-se inteiramente no modo de escapar. No seria nada fcil, reconheceu. Chris dissera uma vez que o trem ia somente at Pepel, s margens
do rio Serra Leoa, a alguns quilmetros acima de Freetown. De qualquer maneira, pelo que pudera observar, havia muito pouca chance de achar um lugar para se esconder
dentro dele, em sua viagem pelo planalto abaixo. Sobrava a estrada e at aquele momento ela no tinha a menor idia do tipo de transporte que era usado  se  que
era  ou com que freqncia. Talvez tivesse maiores chances com os veculos que vinham de fora. Era possvel que de vez em quando viessem entregar carne fresca e
legumes. De vez em quando  mas talvez nem hoje ou nem mesmo amanh. Assim sendo, ela prometeu a si mesma resolutamente que subornaria algum para tir-la daquele
lugar. Se chegasse naquela situao  casa de Chris talvez ele estivesse mais preparado para ajud-la. Quanto ao resto, at mesmo Mai poderia aceit-la. Tudo o que
Kim sentira por Chris, como homem, morrera ontem, naquele corredor espremido.
A mesa j estava posta quando Kim dirigiu-se para a sala de estar. Patrick serviu suco de frutas gelado e torradas sadas do forno naquele minuto; em seguida foi
at a cozinha buscar mais caf. Em resposta a suas indagaes, contou que morava na aldeia do outro lado da montanha e trabalhava na mina desde criana. Todos os
homens da aldeia trabalhavam na mina, aceitando o fato como inevitvel,  semelhana do que faziam os mineiros do Norte da Inglaterra, pois no havia qualquer outra
espcie de trabalho na regio. O prprio Patrick parecia muito contente com o fato. Tinha mulher e filhos, e com o que ganhava conseguia mant-los. Kim p-se a imaginar
o que constitua o conforto para uma mente africana, mas no quis intrometer-se. Gostaria tambm de ter perguntado como ele adquirira aquele nome irlands, porm
suspeitou que a resposta seria um tanto bvia. Sua pele era bem mais clara do que a da maior parte dos africanos que ela vira no local, at ento.
Tentando no se mostrar muito interessada na resposta, perguntou-lhe displicentemente de onde vinham os mantimentos para a mina, obtendo como resposta que eram entregues
em pequena quantidade e em prazos dilatados, sendo que a ltima entrega se dera  vspera de sua chegada. A correspondncia e as encomendas de pequeno porte eram
trazidas semanalmente de helicptero, o qual, alis, devia chegar naquele dia. Kim ficou alerta ao ouvir isto. Viajar clandestinamente em um helicptero poderia
ser difcil, mas havia uma chance de persuadir o piloto a dar-lhe carona. Isto resolveria metade de seus problemas. Iria at a cidade, em uma viagem rpida, e veria
Chris, antes que Dave pudesse ir a seu alcance.
Acabava de tomar sua segunda xcara de caf quando Luke subiu os degraus da varanda. Parou diante da porta aberta e seus olhos percorreram rapidamente o aposento,
antes de pousar-se sobre Kim.
 Al  disse.  Dave no est?
 Est dormindo  respondeu.  Disse que no quer ser acordado antes das dez.  urgente, Luke?
 No vai adiantar nada acord-lo agora. Acabo de saber que um dos rapazes que ele retirou do deslizamento de terra morreu h meia hora. Leses internas, disse o
mdico. No havia nada que ele pudesse fazer.
 Sinto muito.  Kim sentiu-se entristecida.  Deixou famlia?
 Sim. No vamos deix-los desamparados. Ele era um de nossos melhores motoristas. Dave vai ficar muito aborrecido.
 Por perder um motorista?
Luke contemplou-a por alguns momentos antes de responder.   um pouco mais do que isto. Sobrou algum caf?
 Esfriou demais  ela respondeu prontamente.  Vou pedir a Patrick que faa mais.
 Eu lhe direi.  Foi at a porta dos fundos e soltou um berro portentoso em direo  cozinha.  Pat, caf!  Voltando-se, surpreendeu a expresso de Kim e riu
levemente.  No se preocupe,  preciso muito mais do que isto para despert-lo. Nesta profisso acostumamo-nos a no despertar, com o que quer que seja, salvo o
alarme da sirene. Ouvi dizer que voc vai trabalhar no escritrio.
 Sim, estou pensando nisto  ela respondeu cautelosamente. Tomou mais um gole de caf, pousou a xcara e levantou os olhos.
 Por que no diz de uma vez, Luke?  perguntou, com um tom de insegurana na voz.
 Dizer o qu?
 O que voc est pensando.
 No tenho muita coisa a dizer. O fato deste envolvimento, diz respeito a voc e a Dave. Voc podia ter agido pior. Ele cuidar de voc.
Ela tinha feito a cama e agora teria de deitar-se nela  e com isto o assunto estaria liquidado, pensou com ironia. De qualquer modo, era mais do que evidente que
Luke no estaria disposto a envolver-se a ponto de ajud-la a partir. E ela no poderia censur-lo. Ningum que tivesse um mnimo de sensatez se indisporia com Dave.
Patrick trouxe caf fresco e mais uma xcara, cumprimentando Luke com alegria. Kim serviu-o, adicionou acar a seu gosto e esperou que ele tivesse bebido a metade
antes de perguntar cautelosamente:
 Voc no acha que devia descansar, depois de ficar de p a noite inteira? Voc deve ter passado por momentos difceis.
 Foi Dave quem se encarregou de tudo. Se a mquina de terraplenagem tivesse sido arrastada um pouco mais quando a terra deslizou, hoje de manh teramos quatro
mortos, em vez de um. Ele conseguiu escor-la por intermdio de alavancas e l ficou sustentando o peso at que ns os desenterramos. Ele mesmo conseguiu sair bem
em cima da hora. Mais um minuto e...  Deixou a frase em Suspenso.  Levou mais de uma hora at o doutor Selby dar alguma notcia. Depois daquilo eu j no agentava
mais. Acho que Dave vai se sentir da mesma forma quando ele souber.
 Souber do qu?  perguntou Dave, parado na porta da sala. Ficou l postado, encarando-os, embrulhado em um velho roupo e com um par de sandlias muito gastas
nos ps. O cabelo estava todo despenteado, o rosto escurecera, devido  barba de muitas horas, mas o olhar era penetrante.  Souber do qu?  repetiu.
Luke contou-lhe em duas palavras o que se passara. Kim no conseguiu notar nele nenhuma reao visvel ao que lhe fora dito.
 Pois   disse ele.  O caf est quente? Ele prprio encheu uma xcara, sem esperar por respostas, bebeu e ficou parado, olhando o rosto de Kim.  A vida no
vale muito por estas paragens disse com uma certa dureza.  Voc acabar se acostumando.
 Se depender de mim, no  respondeu enfaticamente.
Luke apressou-se em dizer:  Desculpe por t-lo acordado, Dave. Imaginei que voc estivesse em um sono profundo.
 Acordei j faz algum tempo  replicou Dave.  No sei porque no consegui dormir novamente. Talvez uma premonio.
Luke levantou-se sem a menor pressa dizendo:  J vou indo. Vejo vocs mais tarde.
  isso a.  Dave apoiou os cotovelos sobre a mesa enquanto Luke saa e segurou a xcara entre as mos, dizendo casualmente:  Voc parece que esteve batendo um
grande papo com Luke.
 Com ele eu sei a quantas ando  replicou.  Luke  uma pessoa sincera.
 De acordo com voc eu no tenho usado de muitos rodeios  disse ele, em tom seco.  No ponha a culpa em mim por ter passado a vida inteira protegida entre quatro
paredes. A espcie de gentileza que voc espera desapareceu com a corte do rei Artur!
 A nica coisa que espero  um comportamento civilizado  respondeu incisivamente.  Voc nem sequer se incomoda de vestir-se antes de se sentar  mesa.
 Tambm no fiz a barba, como voc deve ter notado. Voc alguma vez j foi beijada por um homem de barba crescida?
Ela lanou-lhe um olhar de intenso desprezo e arrastou a cadeira para trs.  Acho que voc entende por que eu prefiro a varanda.
 Kim.  Seu tom de voz era suave, porm havia algo nele que a fez hesitar, por menos que ela pretendesse.  Volte aqui.
 Eu disse que ia l para fora.
Kim no ousou pensar o que teria acontecido em seguida, se Patrick no tivesse escolhido aquele momento exato para entrar na sala trazendo bacon com ovos. Quando
ela se voltou, Dave estava se sentando novamente, mas o brilho de seus olhos revelava claramente suas intenes. O fato de ele no estar disposto a fazer uma cena
em frente do africano era algo a que ela devia se agarrar, apesar de no poder esperar que Patrick estivesse por perto o tempo todo. Aproveitou a oportunidade para
refugiar-se na varanda, afundando-se aliviada em uma das cadeiras, com o sentimento de que aquilo no passava de uma trgua temporria.
As outras casas pareciam estar desertas. Mesmo ali,  sombra do teto de palha que cobria a varanda, a atmosfera era opressiva, provocando uma letargia instantnea.
Kim podia sentir o suor que molhava a blusa ao redor da cintura, e sentiu-se aliviada, pois a erupo cutnea de que fora acometida quando chegara no fizera maiores
progressos. Ela imaginou que, com o passar do tempo, uma pessoa aprenderia a entrar em um ritmo mais suave durante o dia, conservando a energia ao invs de expandi-la.
S que ela no ficaria l o tempo suficiente para aprender como viver confortavelmente nos trpicos. Para ela a amostra fora mais do que suficiente.
Estava sentada na mesma posio quando, mais ou menos uma hora mais tarde, Dave veio a seu encontro. Estava vestido mais ou menos do mesmo jeito de quando ela o
vira pela primeira vez, s que desta vez trazia o chapu nas mos. Seu rosto estava bem barbeado.
 Vou acompanh-la at o escritrio e mostrar-lhe suas tarefas  disse bem  vontade.   melhor voc pegar um chapu.
Kim fez o possvel para dominar-se. De nada adiantava dizer tudo o que pretendia. Seria chover no molhado. Em todo caso, para ela era vantajoso acompanh-lo, pois
assim poderia garantir com mais certeza sua volta. A este respeito sua proposta no poderia ter vindo em melhor hora. Levantou-se sem falar e foi at o quarto buscar
um bon na mala. Imaginou que no era o tipo da coisa que algum normalmente esperaria ver nos trpicos, mas era o que ela possua. Colocou-o desafiadoramente na
cabea enquanto voltava para a varanda, onde Dave estava  sua espera. Passando por ele, sentiu que sua mo fazia um gesto e puxava a aba do bon para diante.
 Use assim, de modo que seus olhos fiquem protegidos  disse.  O pescoo fica protegido pelo cabelo.
O escritrio era do lado oposto ao que Dave a havia levado no primeiro dia. Dentro fazia um calor sufocante. Os quatro funcionrios africanos olharam-nos curiosamente
enquanto Dave mostrava-lhe os livros e as fichas, mexendo nas pilhas de envelopes coloridos e notas fiscais. A parte principal de sua tarefa consistiria em calcular
o dinheiro devido a cada trabalhador, a partir de anotaes das horas de trabalho, e confeccionar recibos de pagamento a serem colados em cada envelope. Tudo o que
os africanos tinham a fazer era checar seus clculos. Era muita responsabilidade, e s de olhar a amostra das anotaes das horas de trabalho que Dave lhe mostrou
compreendeu que sua tarefa no era das mais simples, pois teria de lidar com abonos, horas extras e pagamentos por empreitada.
 As horas extras so pagas uma semana depois de vencidas  explicou Dave.  As horas regulares de trabalho so pagas s sextas-feiras e os envelopes devem estar
prontos s cinco da tarde. Voc tem pela frente trs ou quatro dias para fazer todos os clculos. Acha que vai dar conta?
 Voc alguma vez pensou em solicitar um computador  companhia?  perguntou ela ironicamente.
 Enquanto Loxley Gunter esteve aqui nunca foi preciso. Ele  de uma preciso matemtica.
 Imagino que tenha ido embora.
 Est de licena. Tratamento mdico.
 Percebo.  Kim virou as pginas do livro de contabilidade e seu olhar percorreu as colunas de cifras.  O que teria acontecido se eu no estivesse disponvel?
 A companhia seria forada a nomear um novo funcionrio. Acho que vai dar certo e provavelmente agentaremos at que ele obtenha permisso para voltar ao trabalho.
Os nigerianos so uma raa forte. Ele vai ficar bom.
Kim no quis perguntar qual era a doena do funcionrio e Dave no parecia estar disposto a dar qualquer informao. Abandonar a mina naquele momento seria privar
Loxley da oportunidade de manter o emprego. Mas ela no podia ficar. Se ficasse, teria de aceitar as condies de Dave, e isto ela se recusava a fazer. Por maior
que fosse a solidariedade que sentia em relao ao nigeriano ausente, naquela situao tinha de pensar nela em primeiro lugar.
Um homem a quem ela reconheceu estar no clube na noite anterior apareceu na porta. Seu olhar demorou-se sobre ela, antes de pousar sobre Dave.  Esto precisando
de voc l em cima  disse.  Encrenca.
 J vou indo.  Dave deu a volta na mesa e pegou o chapu.  Fique e d uma olhada nesta papelada  disse para Kim.  Se for l fora no se aproxime dos tanques
de lavagem e no tente voltar para casa. Estarei de volta assim que puder.
Para Kim a ltima declarao encerrava mais uma ameaa do que uma promessa. Assentiu sem responder, fingindo estar absorta no livro de contabilidade, enquanto ele
saa. Levantando a cabea muito imperceptivelmente, viu-o subindo o morro e deu um suspiro de alvio quando o carro finalmente sumiu, aps virar no canto do prdio.
Quando se voltou, os quatro funcionrios a encaravam com indisfarada curiosidade. Sorriu para eles desajeitadamente, tentou encontrar algo para lhes dizer e no
conseguiu pensar em nada de muito adequado. Praguejou interiormente, amaldioando o homem que a deixara naquela situao.
 Eu...  principiou hesitante, parando em seguida, pois todos os olhares se desviaram para a janela, como se se tratasse de um sinal combinado. Seguindo a direo
em que olhavam, Kim viu a fuselagem colorida de um helicptero que se aproximava. As rvores vergavam-se ao vento provocado pelas hlices e o barulho do motor fundia-se
com o rudo das atividades rotineiras da mina. Comeou a pousar, passando por cima dos telhados de zinco e dirigindo-se para a estrada esburacada. A nica indicao
de seus traos eram as nuvens de poeira que danavam no ar.
Os africanos fizeram comentrios excitados em sua lngua. Obviamente a visita semanal do helicptero era um acontecimento em suas vidas. Esquecida por alguns momentos,
Kim dirigiu-se at a porta e saiu, aliviada por se afastar daquela estufa. L fora a diferena era pouca. O sol era uma fornalha que lhe queimava a cabea e parecia
penetrar no seu crebro. A nuvem de poeira comeava a assentar por detrs do escritrio de Dave. Atravessou a estrada com toda cautela, pulando os sulcos deixados
por algum veculo pesado aps a chuva, e passou por entre os prdios. O helicptero l estava, pousado em um terreno plano, perto do porto principal. O piloto conversava
com dois homens, a alguma distncia. Seu cabelo era muito louro e brilhava ao sol. Kim sentiu um aperto na garganta e cerrou os olhos, no permitindo que as lembranas
voltassem. Aquele no era o momento de pensar em Chris. Aquele no era o momento de pensar no que quer que fosse, a no ser escapar da priso que ela mesma forjara.
Teve de voltar at a estrada, a fim de poder aproximar-se do helicptero. Andou o mais rpido que podia, abrigando-se sob a sombra exgua dos prdios e ignorando
as poucas pessoas que estavam por perto. O piloto tirava um saco do interior do aparelho, enquanto ela passava pelo ltimo prdio e vinha em sua direo. Ele a viu
aproximar-se no momento em que entregava o saco a um dos homens, e uma expresso de surpresa total estampou-se em seu rosto.
 No acredito!  exclamou.  Voc  de verdade ou o que estou vendo  uma miragem?
Kim sorriu e notou seu sotaque americano, bem como seus traos, que denotavam franqueza e expansividade.  Meu nome  Kimberley Freeman  disse sem hesitar.  E
sou feita de carne e osso.
 Mas que alvio.  Sorriu e encostou-se na fuselagem do helicptero, abrigando-se  sombra da hlice.  Jerry Brice. No me diga que agora eles tm mulheres trabalhando
aqui!
 Est certo  ela respondeu bem-humorada.  Contemplou-o durante alguns momentos.  Eu achava que o dinheiro, e muito dinheiro, era a nica coisa que trazia os
homens para este lado do mundo.
 Inicialmente . Se voc consegue, muito bem, mas...  Fez uma pausa e deu de ombros.  H alguma coisa nos trpicos que prende voc. Estou aqui h quatro anos
e at agora nem penso em voltar para casa. Acho que depois de tanto tempo eu iria sentir uma falta danada daqui. Faz tempo que voc est aqui?
 Estou apenas de visita  respondeu ela rapidamente.  E, por falar nisto, gostaria de saber se voc por acaso poderia me dar uma carona at Freetown, quando for
embora. Pela estrada leva tanto tempo...
 Claro. Por que no?  Ele se mostrava extremamente simptico.  Mas s se voc estiver pronta para partir imediatamente. Eu tenho hora certa para chegar.
Kim tomou uma resoluo imediata. Se voltasse para apanhar suas coisas perderia a oportunidade, e se Chris se dispusesse a ajud-la, a coisa seria para valer. 
Sim, estou pronta.
 Muita bem, suba.  Escancarou a porta e subiu em primeiro lugar, estendendo a mo para ajud-la.   isso a. Agora puxe a porta pela maaneta que ela desliza
e fecha automaticamente.  Seus olhos se fixaram em um ponto adiante e com um gesto sbito deteve o movimento.  Espere um momento. Dave Nelson vem vindo. Nestas
ltimas viagens eu no o tenho visto.
Kim voltou-se rapidamente e viu aquela figura de ombros largos que avanava rapidamente atravs da estrada poeirenta, e por um momento experimentou uma sensao
de pnico total. Era tarde demais. Ele j estava muito prximo. Sua tentativa de fuga tinha falhado mesmo antes de ter comeado. Permaneceu onde estava, desanimada
pela derrota, esperando, at que o homem com que havia se casado alcanasse o aparelho.
Era difcil decifrar a expresso de seu rosto, quando ele se aproximou. Kim encarou seus olhos cinzentos e no conseguiu saber se o brilho que se notava neles era
causado pela raiva ou por ele estar se divertindo. A segunda hiptese parecia pouco provvel. Principalmente pelo fato de o orgulho dele estar  prova, como parecia
estar acontecendo agora. No podia haver qualquer engano em relao s intenes dela, no havia como contornar o fato de ela ter tentado usar Jerry Brice em sua
tentativa de afastar-se dele. Nem mesmo Dave conseguiria manter as aparncias em uma situao semelhante.
 Desa  disse bruscamente, e em seguida dirigiu-se a Jerry.  Sinto muito priv-lo de sua passageira. Minha mulher vai ficar.
A expresso do rapaz alterou-se bruscamente.  Sua mulher?  Desconcertado, pousou o olhar sobre Kim.  Voc disse que seu nome era Freeman.
 Eu sei  ela respondeu, desviando o olhar.  Sinto muito. Dave ps as mos em sua cintura enquanto ela se voltava para alcanar o degrau e a segurou; o calor que
se desprendia dele a abrasava.  At a prxima viagem  disse a Jerry, em um tom que no deixava margem a qualquer dvida.
Jerry no precisou de mais nenhuma deixa. Com a mais total confuso estampada no rosto, fechou a porta, esperou que ambos sassem da frente do helicptero e ligou
o motor. Os cabelos de Kim esvoaaram pelo seu rosto, no momento em que as hlices comearam a girar. De olhos semicerrados, viu o helicptero comear a subir, notou
que Jerry olhava para ambos enquanto o aparelho pairava no ar por alguns segundos; afastou-se em seguida, em direo ao desfiladeiro. Foi somente ento que Dave
afrouxou as mos, mas sem solt-la.
 Tente fazer isto mais uma vez  ele disse baixinho, ao seu ouvido  e vou lhe dar motivos suficientes para fugir!
L fora,  luz do dia, ela sentia-se segura, na medida em que era possvel experimentar tal sentimento na companhia daquele homem. De qualquer modo, suficientemente
segura para dizer as palavras amargas que vieram a seus lbios.  Motivos eu j tenho. Voc no pode me obrigar a ficar aqui.
 No?  Desta vez ele demonstrou estar se divertindo muito.  E para onde  que voc acha que vai se eu a deixasse partir agora?
 No sei  ela mentiu.  E no me importo. Contanto que seja para bem longe de voc!
 Mentirosa.  Ele a tomou pelos ombros e a girou, obrigando-a a enfrent-lo.  Voc ia procurar Adams novamente, esperando que ele fosse suficientemente decente
para ajud-la. Quando  que voc vai compreender que ele no quer mais saber de voc? Se depender dele voc at pode fazer a vida, para ganhar dinheiro.
 Ser que isto  to diferente assim daquilo que voc me oferece?  retrucou ela, e sentiu que todos os nervos de seu corpo se retesavam em sinal de aviso, enquanto
os olhos dele se estreitavam.
 Lembre-se de que eu me casei com voc  disse ele suavemente.  Foi tudo legal, segundo as regras. O costume aqui determina que a mulher deve obedecer ao marido
em todas as circunstncias ou ento sofrer as conseqncias. No tenho nada contra brigar com voc em particular, moa dos olhos verdes, mas vou lhe dar uma lio
se voc insistir novamente em me expor ao ridculo diante de todos. Soltou-a, com um riso zombeteiro.  Vamos comer no clube. Disse a Pat que ele podia ter a tarde
livre.
 No estou com fome  disse ela com um fio de voz.  Prefiro voltar para casa.
Ele deu de ombros.  Como quiser.
Passados dez minutos, ele a deixou diante da casa e Kim foi imediatamente para dentro, sem querer v-lo manobrar o carro e afastar-se novamente. Patrick j tinha
ido embora. Kim no se importou. A penumbra da sala de estar era um blsamo, aps a claridade l fora. Jogou o bon em cima de uma cadeira e sentou-se, folheando
sem ver duas ou trs revistas antigas. No havia nada naquele lugar que a interessasse. L era a casa de um homem, um mundo masculino. No havia lugar para ela.
Sentindo necessidade de algo com que ocupar seus pensamentos, foi at a cozinha esquentar gua para o caf; procurou durante alguns instantes e encontrou o p em
uma lata para biscoitos, num dos armrios. Descobriu que este estava cheio de formigas. Alguma providncia precisava ser tomada. A primeira coisa que ela iria mandar
Patrick fazer na manh seguinte era mat-las com inseticida e limpar todas as latas de mantimento. Se ela tinha mesmo que ficar naquele lugar, no estava disposta
a correr riscos, no que dizia respeito  sua sade.
Mas teria mesmo que ficar? Sentiu um aperto na garganta. Que outra escolha lhe restava?


CAPITULO IV

Aquela tarde quente e abafada escoava-se lentamente. Kim sentiu-se aliviada por passar a maior parte dela deitada em uma das camas com o mnimo de roupa. Ps-se
a imaginar o que Patrick havia de pensar ao notar o fecho arrebentado, se  que ele tinha pensado alguma coisa. Provavelmente aceitava tudo o que sucedia na casa
de um homem branco como se fosse a coisa mais natural do mundo, assim como tinha aceitado a presena dela naquela manh sem sequer piscar um olho. Ela, de certa
forma, imaginava que compensaria cultivar a mesma atitude enquanto durasse sua permanncia l. No havia como escapar de Dave. Ele a tinha cercado de todas as maneiras.
E nesta noite nada o impediria de reclamar os direitos que ela mesma lhe dera. Ela podia lutar contra ele, mas por quanto tempo? E, afinal de contas, de que adiantava
se incomodar, quando sabia que iria perder? Haveria mais dignidade em uma falta total de correspondncia de sua parte. Mais dignidade, e menos satisfao para um
homem do seu feitio. Se ele descobrisse que ela no se importava em contrapor qualquer tipo de resistncia, poderia at mesmo chegar a perder o interesse.
Tomou mais um banho de chuveiro s seis, e ps um vestido azul, de tecido muito fino. Quando entrou na sala de estar, Patrick estava pondo na bandeja copos limpos
juntamente com duas garrafas. Pela primeira vez na vida, Kim sentiu-se mais do que disposta a aceitar o drinque que ele se ofereceu para preparar. Aceitou gim com
limo e sentou-se com o copo na mo diante da porta, a fim de aproveitar a brisa suave que soprava desde que a noite tivera cado. Esta j era a terceira noite que
ela passava ali, e no entanto parecia ter se escoado um sculo desde a manh em que ela tinha sado de Freetown para vir at a mina  procura de Chris. Era estranho
como a recordao de seu antigo noivo no lhe despertava qualquer espcie de sentimento. Ele estava l, e ela se sentia pronta a us-lo, se tivesse oportunidade,
mas somente porque j no sentia mais nada por ele.
Estava na metade do drinque quando o carro desceu o morro e brecou diante da casa. Permaneceu onde estava, enquanto Dave subiu os degraus; neste momento levou o
copo aos lbios com toda a firmeza.
 Voc no custou muito a adquirir o hbito  foi o comentrio irnico. Deixou-se afundar em uma cadeira, tirou uma bota, em seguida a outra e espreguiou-se com
ar de alvio.  No quer me preparar um?
Kim levantou-se sem dizer uma palavra e foi em direo  cristaleira.  O que  que voc toma?
 Usque, puro.  Parecia um tanto surpreso. Kim serviu uma quantidade generosa e entregou-a para ele, antes de voltar a sentar-se. Podia sentir que ele a olhava
enquanto bebia, e tomou cuidado para manter uma expresso de afabilidade e despreocupao. Nada do que ele pudesse dizer ou fazer poderia abalar seu controle recentemente
adquirido. Disso ela fazia questo. De agora em diante, ela seria a esposa mais dcil que um homem jamais tivera, e ficaria observando at que ponto ele apreciava
isto. Se ela o conhecia bem, ele se sentiria mortalmente aborrecido dentro de vinte e quatro horas. Os Dave Nelsons do mundo sempre recusavam aquilo que chegava
at eles com muita facilidade.
O silncio pairava no ar, interrompido unicamente pelo rudo dos grilos e pelo assovio alegre e desafinado de Patrick, que lhes preparava o jantar. Quando finalmente
Kim deu uma olhadela para os lados de Dave, ele agitava o usque que sobrara no copo com um sorriso enigmtico nos lbios. Ele levantou a cabea e pegou-a de surpresa.
Ergueu o copo em sua direo, esvaziou o contedo e levantou-se.
 Preciso me fazer um pouco mais apresentvel. No beba muito se no estiver acostumada. Isto a pode produzir um efeito inesperado.
Jantaram s oito; a comida era abundante, mas sem muita inspirao: carne enlatada, servida com cheiro-verde e outros condimentos, feijo, igualmente de lata, arroz
sem tempero e como sobremesa um pudim que nadava em um caldo amarelo, absolutamente inspido. Dave comeu o que lhe era servido sem fazer o menor comentrio; portanto,
a m qualidade da refeio no era nada de extraordinrio.
Kim resolveu trocar algumas palavras com Patrick na manh seguinte. At mesmo uma comida daquele tipo poderia ser menos indigesta do que aquela que lhes fora servida.
Foi Dave quem sugeriu tomassem o caf na varanda. A noite estava escura e a brisa transformara-se em vento. Ao longe ouvia-se o barulho de trovo. Naquela noite
havia luzes acesas em uma das casas, e o som de risadas e vozes masculinas atravessava a clareira.
 Esto jogando cartas  disse Dave, despreocupado. Seus ps apoiavam-se na balaustrada da varanda e ele se afundara confortavelmente na cadeira.   na casa de
Carl Gerhardt.  o melhor jogador de pquer que j vi.
 Voc costuma ir l?  perguntou Kim.
 Com bastante freqncia. Ajuda a passar o tempo.
 Ento no se prenda por mim.
Havia ironia em seu sorriso.  Como, deixar voc sozinha? Eles vo achar que eu enlouqueci. Entre eles no existe um que no desse um ano de salrio para estar na
minha pele. Voc  suficientemente atraente para chamar a ateno onde quer que v, mas aqui voc  uma sensao. Voc ir fazer parte de mais sonhos do que poderia
imaginar!
 Pare com isso.  Falava em tom baixo.  No quero saber como  que afeto os homens aqui. No estou interessada.
 Nem tanto. Voc no seria normal se no se divertisse com a coisa, especialmente sabendo que est protegida contra qualquer tipo mais afoito que poderia decidir
que os sonhos no lhe bastavam.
 Afoito ou depravado?  retrucou ela.  E eu no sou nem uma coisa, nem outra, no ?
Ele riu.  No existe nada de depravado em um homem que deseja a mulher com quem se casou.
 Sim, quando no existe nada alm disso. A rigor voc no  melhor do que qualquer outro homem que fora uma mulher a... submeter-se a suas exigncias!
 A palavra que voc est querendo empregar  estupro  disse ele displicentemente.  E no forcei voc a fazer o que quer que fosse: pelo menos ainda no. E tambm
no espero que isto seja necessrio. Pobre do homem que no consegue excitar uma mulher.
Kim apertou as mos pousadas no colo e seu pulso acelerou-se loucamente.  Mesmo quando a mulher encara o homem com desprezo?
 Principalmente nessas circunstncias. O dio  uma emoo positiva, garota dos olhos verdes. Pode tornar uma relao to excitante quanto a sua contrapartida.
 Como  que voc pode saber?
 Oh, eu j me apaixonei uma vez.  O tom da voz dele era sardnico.  Fiquei em ntida desvantagem e aprendi uma lio de que jamais esquecerei. S existe um lugar
para a mulher na vida de um homem: a cama.
Estava muito escuro para poder notar os traos dele claramente, mas sua postura, apesar de no ter se alterado, tornara-se mais tensa. Kim disse suavemente:  Ela
deve t-lo feito sofrer muito.
 Ela me fez um favor. E, em relao a isso, eu posso at me sentir grato. Nada dura; portanto,  bom aproveitar enquanto existe.
 E isto me inclui, suponho.
 Inclui, sim.
Sem alterar o tom, Kim disse:  Mas comigo voc cometeu um pequeno engano. Voc coloca nosso relacionamento em um plano diferente dos demais. Mas suponha que eu
tambm decida me aproveitar. Suponha que eu me recuse a levar adiante seus planos, quando regressarmos  Inglaterra. Voc teria ento de se ver a braos com uma
esposa, e eu teria todo o direito de exigir que voc me sustentasse.
A pausa que se seguiu foi demorada.  Voc est me ameaando?  perguntou ele finalmente, em um tom inesperadamente tranqilo.
 No.  As palmas das mos estavam molhadas de suor, mas ela decidiu ir at o fim.  Apenas estou fazendo voc notar que as vantagens no esto todas do seu lado.
Aqui estou completamente indefesa. Reconheo isto. Eu me meti nesta encrenca e agora tenho de sair dela. Mas no v esperar que eu simplesmente desaparea de sua
vida quando voc quiser, sem alguma forma de compensao.
Ele no esboou nenhum gesto.  E qual  o preo que voc cobra por seus... favores?
"E se aquele envolvimento estivesse indo muito mais longe do que pretendia?", indagou-se Kim, defendendo-se. Por nada deste mundo permaneceria ligada a Dave, a partir
do momento em que tivesse a oportunidade de livrar-se dele, mas no havia a menor razo para deix-lo pensar que seria assim to fcil.  Um preo muito alto  respondeu.
 Muito bem.  Dave levantou-se e veio para o lado dela. O claro de um relmpago revelou o sorriso irnico que brincava em seus lbios. O trovo ribombou novamente
enquanto ele se inclinava e a erguia em seus braos, sentindo o quanto seu corao batia.  Pois ento vamos ver se voc merece.

Kim no abriu os olhos quando Dave levantou-se da outra cama, assim que comeou a clarear. Por nada deste mundo ela teria conseguido enfrentar seu sorriso irnico
a uma hora daquelas. Permaneceu sem se mexer, com o rosto enterrado no travesseiro, ouvindo-o andar pelo quarto.
Somente quando a porta finalmente fechou-se s suas costas  que ela movimentou-se lentamente, deitando-se de costas, fitando o teto caiado de branco. Seu pensamento
voltava sem cessar para as ltimas horas. No tinha havido sequer um elemento de ternura nos momentos que passara nos braos de Dave, nenhuma gentileza no modo apaixonado
como ele a possura. Ela, entretanto, no podia deixar de ignorar sua reao que desabrochava, o despertar de uma necessidade que ela teve de lutar para superar.
A vergonha apossou-se dela. No era melhor do que ele, na verdade, era at pior, pois ele no fingia ser melhor do que era. As emoes que ele havia despertado nela
na noite anterior nada tinham a ver com o amor. Em relao a isto, era impossvel ela se iludir. Dave Nelson no era o homem a quem ela poderia amar um dia. E agora
menos do que nunca.
Levantou-se s sete, incapaz de suportar a tortura da inatividade por mais tempo. Seus olhos, refletidos no espelho acima da cmoda, pareciam pisados. Contemplou
sua figura esguia com um olhar desapaixonado, concentrou-se na boca e cerrou o maxilar. No adiantava mais se enganar. Tinha acontecido, e nada poderia alterar o
fato. Imaginou que devia ficar agradecida por ele ter consentido em lhe dar seu nome, antes de tudo o mais. Sabendo o que agora ela sabia, duvidava que algum tivesse
erguido a mo para ajud-la, mesmo que Dave tivesse se apoderado dela  fora. Aqueles homens viviam segundo seu prprio cdigo de regras. Isto servia apenas para
provar que, afastados das restries de uma comunidade maior por um certo perodo de tempo, os homens sempre retornam ao estado selvagem. Dave simplesmente no passava
de lder da tribo, ele era o touro que tinha mais fora. Pensou com ironia que no seria absolutamente despropositado se ele tivesse fincado o p sobre ela e berrado
seu triunfo a plenos pulmes, na noite anterior.
E o que havia sucedido na noite anterior certamente voltaria a acontecer, a menos que ela conseguisse escapar de l. O problema consistia em saber qual dos dois
males era o pior  Dave, ou a possibilidade muito real de se ver encalhada em Freetown sem qualquer espcie de ajuda. Supondo que Dave se recusasse peremptoriamente
a lhe emprestar dinheiro, o que aconteceria? Ela no tinha como for-lo a fazer o que ele no queria, e de modo algum era o homem que conhecera um dia. Colocando
a questo nestes termos, talvez fosse mesmo melhor ficar e enfrentar o mal pela raiz. Pelo menos agindo assim ela tinha certeza de regressar  Inglaterra e ao lar.
No fazia muito sentido deixar a mala arrumada por mais tempo. No guarda-roupa havia muito espao para colocar suas coisas, apesar dos dois ternos de tecido leve,
das vrias calas e camisas que j estavam l. Kim ficou intrigada, pensando por que um homem precisaria de tanta roupa trabalhando em uma mina, at se dar conta
de que elas certamente eram usadas nos fins de semana na cidade, bem como durante as frias anuais concedidas pela companhia. Lembrou-se de que Chris raramente mencionava
como passava seus momentos de lazer. Em suas cartas, s se preocupava em falar do trabalho, do clima e, nos primeiros tempos, do quanto sentia falta dela.
Isto a levou a formular um outro pensamento. O que aconteceria com os tais fins de semana, agora que Dave tinha uma esposa pendurada ao pescoo? Ele os esqueceria
enquanto ela permanecesse em sua companhia, ou teria a condescendncia de lev-la at a cidade em sua companhia? Uma coisa parecia certa: ele no parecia estar disposto
a deix-la sozinha por muito tempo. Tinha deixado suficientemente claro que no confiava nela e muito menos em seus colegas, e Dave no era o tipo do homem que se
arriscava a se deixar passar para trs.
Vestiu um roupo azul de algodo, amarrando-o firme na cintura antes de dirigir-se ao banheiro. Naquela manh a gua estava suficientemente quente para ser agradvel.
Patrick evidentemente a tinha ouvido levantar e preparava-lhe o caf da manh com todo o esmero. Ela podia ouvi-lo assoviando na cozinha, e lembrou-se de que justamente
aquele setor de seu lar temporrio iria passar por uma faxina. No havia a menor dvida de que Patrick ficaria um tanto ressabiado por ela interferir, mas simplesmente
no podia ignorar o estado em que se encontravam aqueles armrios por mais cinco semanas.
Ela abordou o assunto imediatamente aps o caf e foi polidamente informada de que as formigas expulsavam os demais insetos das latas de mantimento.
 gua quente e inseticida tambm  replicou energicamente.  Voc limpa as prateleiras enquanto eu areio as panelas. Assim tudo estar em ordem antes do almoo.
Patrick parecia indeciso.  O patro no gosta, dona  murmurou.
 O patro no vai ficar sabendo, a menos que voc conte  Isto era quase um convite para conspirar contra a autoridade de Dave, pensou, mas agora era tarde demais
para voltar atrs.  No vai levar muito tempo  repetiu com impacincia.
O estoque de enlatados pareceu estar em ordem depois de limpo com um pano mido, apesar de Kim ter mandado jogar fora umas duas latas de carne em conserva, como
medida de segurana. Quando chegou a vez dos demais mantimentos foi outro assunto. Os biscoitos estavam infestados de gorgulhos e a lata de farinha de trigo estava
coberta por uma espcie de mofo esverdeado. Kim pensou na calda que Patrick derramara por cima do pudim na noite anterior e imaginou o mal que ela deveria ter feito.
No admirava que o gosto fosse to estranho! O que restava da farinha de trigo iria direto para a lata de lixo.
Quando a limpeza acabou, Kim tinha colocado praticamente todos os mantimentos em um saco de papel que Patrick lhe dera e j o pusera diante da porta, pronto para
ir para o lixo. Sentiu-se melhor ao ver as latas de mantimentos limpas, porm achou que ficaria ainda mais contente se aquilo que elas encerravam fosse igualmente
limpo. Patrick informou-a que as compras para a casa deveriam ser retiradas do depsito situado atrs do clube e que a requisio deveria ser assinada pelo prprio
Dave. Kim fez s pressas uma nova lista, antes que Dave voltasse para casa e deixou-a em cima da mesa de jantar. Voltou para a cozinha para inspecionar o trabalho
de Pat e descobriu que ele ainda estava na metade das tarefas que lhe tinha designado. Aparentemente, para um africano, era tarefa impossvel mover-se mais rapidamente
do que o ondular de uma cobra. Ou a pessoa se colocava no mesmo ritmo das coisas ou ela mesma executava a tarefa. Kim optou pela ltima alternativa e despachou-o
para limpar os quartos e a sala de estar, enquanto se punha a trabalhar.
O suor escorria ao menor movimento durante aquela parte do dia; ela j estava ensopada antes de comear sua tarefa, e o vapor que se desprendia do balde de gua
quente no contribuiu em nada para melhorar a situao. Os cabelos insistiam em cair-lhe sobre o rosto, apesar da faixa que os prendia, fazendo-a sentir um calor
ainda maior. Ela ajeitou-os irritada, deixando uma mancha negra de um lado do rosto; em seguida agachou-se e tentou amarr-los, para que deixassem de atrapalh-la.
Quando voltou a cabea, Dave estava parado diante da porta, com uma expresso tensa no rosto.
 Que diabos voc pensa que est fazendo?  perguntou. Kim encarou-o com ar de desafio, sem gostar de sua expresso, o tom com que falava e sua aparncia em geral.
 Algo que deveria ter sido feito h muito tempo atrs  respondeu finalmente.  Acho que este lugar no passou por uma limpeza mais profunda desde que foi construdo!
 Pois ento voc deveria ter ordenado a Pat que o fizesse.  Ele parecia estar furioso.  Voc acha que ele  pago para qu?  deu dois passos em direo a ela,
sacudiu-a, seus dedos agarraram a blusa dela, afastando-a da pele.  Voc est ensopada, sua idiota! Voc no tem juzo?
 Pelo visto, no  Kim no se moveu, enquanto ele a segurava.  E no  um pouco tarde demais para se preocupar com o meu bem-estar?
 Estou preocupado com o bem-estar de todo mundo aqui, inclusive com o seu! Voc sequer se acostumou com este clima maldito, e no entanto eu a encontro...  Ele
interrompeu-se, cerrou os dentes e falou:  No tente sequer fazer isso novamente, est me ouvindo? Voc no  uma empregada!
"O que queriam dizer aquelas palavras?", pensou ela cinicamente.  Precisava fazer alguma coisa para passar o tempo  disse, no momento em que ele a soltava.  O
outro emprego s comea no incio da semana.
  isso mesmo. Na segunda-feira pela manh voc ter diante de si todas as tarefas que quiser. At l voc vai ter que se conformar.
 Irei trabalhar no escritrio?
 No, aqui em casa. No quero que voc fique por l, a menos que eu esteja com voc.  Esboou um gesto de impacincia.  V se trocar. Vamos almoar no clube.
E no me diga que desta vez voc no est com fome.
 Eu no ia dizer mesmo  ela respondeu sem a menor nfase, saindo da cozinha.
Patrick foi despachado para preparar outro banho de chuveiro, enquanto ela se dirigia ao quarto, a fim de escolher a roupa que iria usar. A roupa suja que ela havia
colocado na bacia ao lado da porta naquela manh j no estava mais l. Kim ps de molho as calas de algodo e a blusa que acabara de despir, escolheu um vestido
para o almoo e embrulhou-se no roupo azul, caminhando para o banheiro. Patrick no tinha se esquecido de providenciar uma toalha limpa. Estava dependurada em um
gancho, ao lado do banheiro. Kim entrou e trancou a porta de bambu, tirou o roupo e pendurou-o na estreita abertura entre a porta e o teto, ao lado da toalha. Estava
enrolando os cabelos e ia colocar uma touca quando Dave veio da cozinha at a varanda. Parou, apoiou-se  balaustrada e observou o mato rasteiro que comeava a despontar
entre a casa e a floresta.
 Podamos usar um lana-chamas para impedir este matagal de crescer  observou bem  vontade.  Neste clima, cortar o mato adianta muito pouco, especialmente nesta
poca do ano.  Deu uma olhada para ela, vendo que no obtinha resposta, e um brilho divertido surgiu em seus olhos, que se demoraram sobre o rosto e os ombros nus
de Kim.  Apresse-se. Eu disse a Luke que o encontraramos dentro de meia hora.
Ele estava fazendo isso de propsito, ela pensou, pretendendo desconcert-la. Pois bem, no lhe daria aquela satisfao. Acabou de ajeitar os cabelos e puxou a corda
que fazia o balde de gua entornar-se, tentando controlar-se enquanto o lquido frio se espalhava sobre ela. Quando terminou, alcanou a toalha e enxugou-se bem
devagar, de modo que a transpirao no voltasse. Estava a ponto de dispensar a toalha e troc-la pelo roupo quando algo que se mexia junto a seus ps chamou-lhe
a ateno. Kim sentiu que seus lbios tremeram ao olhar, paralisada pelo terror, o escorpio preso na ponta da toalha. No tinha a menor idia de onde ele surgira.
Naquele momento isto parecia no ter a menor importncia. A questo era saber o que ela faria em seguida.
Quando recuperou a voz ela saiu trmula e baixa.  Dave, h um escorpio aqui dentro.
 Bom, no discuta com ele  ele aconselhou, despreocupado.  Venha para fora.
 No posso. Est... est na minha toalha.
Ele ficou preocupado.
 Onde?
 Perto do cho. Ele no se move.
Dave aproximou-se rapidamente.  Estenda o brao e abra a porta. Faa isto bem devagar. Eles se movem com a rapidez do raio.
Kim obedeceu sem a menor hesitao. Seus dedos acharam a tranca da porta por instinto, e ela no ousava tirar os olhos do inseto to prximo a seu p. Dave abriu
a porta cuidadosamente, tentando evitar que algum jorro de luz penetrasse subitamente na cabine. Deu uma olhada no escorpio e agiu imediatamente, mandando-o pelos
ares com um pontap que deixou de atingir os dedos de Kim por alguns centmetros; em seguida, empurrou-a para fora.
Ela o abraou sem o menor pudor e naquele momento esqueceu-se de tudo, menos do fato de que estivera a pique de se expor a uma morte horrvel. Somente quando sentiu
a camura spera contra a pele compreendeu o que estava fazendo. Com o rosto pegando fogo, amarrou a toalha em torno de si e afastou-se do homem que a acudira com
tanta presteza, vendo ao mesmo tempo um sorriso surgir em seus lbios.
 Sua vida e seu pudor, ambos salvos  disse ele satiricamente.
 No se preocupe, no vou tirar vantagem de sua gratido.  melhor voc colocar uma roupa enquanto me livro deste nosso amigo aqui.
Kim foi correndo para o quarto, resistindo ao mpeto de bloquear a porta com uma cadeira colocada sob a maaneta. Estava tremendo de novo, s que desta vez de desgosto
com sua prpria fraqueza. Odiava Dave Nelson com todas as suas foras, e no entanto h um momento atrs tinha se atirado em seus braos  procura de segurana, tinha
se aferrado a ele como se no quisesse solt-lo nunca mais. E tudo por causa de um incidente que ela mesma poderia ter contornado se no tivesse entrado em pnico.
 claro que no tinha havido nenhum perigo real. Fora protegida pela toalha. Dave com certeza percebera isso instantaneamente, mas a oportunidade de caoar dela
era boa demais para ser desperdiada.
O almoo no clube foi um suplcio, mas ela conseguiu ir at o fim. Imaginou quanto tempo levaria para que sua presena fosse aceita como algo normal pelos homens
que trabalhavam na companhia de minerao, pois eles paravam imediatamente de conversar no momento em que ela entrava na sala. Isto nem sequer se devia ao fato de
eles estarem privados de mulher, pensou enquanto tomava caf. Alm do desfiladeiro havia uma cidade.
Luke passou a maior parte do almoo discutindo as novas medidas de segurana relativas aos efeitos das chuvas que se aproximavam. A tempestade que se armara na vspera
finalmente no tinha cado; hoje, porm, o cu estava muito carregado e havia nuvens negras sobre as colinas verdejantes alm da mina. Kim no ousou imaginar como
seria quando as chuvas chegassem: uma umidade opressiva, o cheiro da vegetao podre, lama por toda parte. Precisaria de um par de botas e de uma capa de chuva,
a menos que desejasse passar a maior parte do tempo confinada em casa.
Sentindo um pequeno choque, Kim compreendeu como deveria ter ido longe ao conformar-se com sua posio, na medida em que formulava planos desse tipo. Em poucos dias
Dave tinha conseguido dobrar seu esprito combativo, e a tal ponto que ela estava comeando a recuar e reconhecer o direito que ele tinha de a manter l. "Mas ela
se vingaria de tudo o que ele estava lhe fazendo", disse a si mesma, indignada. "Algum dia, de alguma forma, ela o faria pagar por cada minuto daquelas semanas que
a forara a passar em sua companhia!"
Um dos garons veio at eles e disse a Dave que havia um chamado para ele na cabine telefnica. A ss com Luke, Kim disse, aps uma pausa:  Ser que voc quer me
ensinar a jogar bilhar, algum dia?
A surpresa deu lugar a um sorriso.  Sinuca  corrigiu.  H uma diferena. Gostaria muito, contanto que...
 Contanto que Dave concorde  ela completou a frase, imperturbvel.  Algum motivo em contrrio?
Ele deu de ombros.  Talvez ele no goste da idia de voc vir ao clube sem ele. E nem eu posso garantir que no vai surgir mais uma encrenca por sua causa. Lembra-se
do que aconteceu na primeira noite?
 Isto foi antes de eu me tornar a propriedade exclusiva de um homem  ela replicou suavemente.  Ningum vai comear uma briga por causa da mulher de Dave Nelson,
sobretudo se quiserem manter o emprego. Eu sei disto, voc sabe disto e eles tambm sabem. Portanto, qual  o problema?
Luke fez um gesto com o polegar por cima do ombro, apontando a direo por onde Dave sara.  L est o problema. Repare que eu no o estou criticando. Se eu tivesse
uma mulher como voc em um lugar como este, eu no teria confiana em deix-la sozinha com o meu melhor amigo!
 Voc no parece ter uma opinio muito lisonjeira a respeito do meu cdigo de tica  ela disse.
Ele a contemplou com insegurana durante alguns momentos e em seguida sua fronte desanuviou-se.  Desculpe  murmurou, encabulado.  Eu quis dizer que no confiaria
no amigo.
 H muito tempo que voc conhece Dave?  ela indagou.
 Ns nos conhecemos em Dacar, h alguns anos. Naquela poca ele trabalhava em Zouerate, na Mauritnia, e eu perambulava de um emprego a outro. Regressei para a
Inglaterra por algum tempo, no me acostumei mais e assinei um contrato com esta companhia. Dave j estava aqui quando cheguei, h uns dois anos.
Kim disse lentamente.  Voc o aprecia um bocado, no  mesmo, Luke?
Passaram-se alguns momentos antes que ele respondesse  indagao.  Digamos que ele  algum em quem eu posso confiar, quando estiver em apuros. Houve um tempo...
 Fez uma pausa, balanou a cabea, tirou um cigarro.  Deixe para l. Ele no gostaria que eu lhe contasse a histria.
Kim no fez presso para que ele lhe contasse o resto. Havia algo nela que se recusava a ouvir. Luke tinha uma viso do homem com quem ela se casara, ela tinha uma
outra e as coisas iriam permanecer desse jeito. Nada iria se interpor entre esses dois pontos de vista. Seu olhar passou por cima dos ombros de Luke e dirigiu-se
para a porta aberta do restaurante e para o corredor onde Dave era visto falando ao telefone. Um dos ps dele se apoiava  travessa da cadeira ao lado do telefone
e ele estava inclinado para frente, com o brao pousado sobre o joelho dobrado. Vistos de perfil, seus traos pareciam talhados em rocha slida por um escultor mais
interessado em planos e ngulos do que em apelos estticos. No era um belo rosto, mas certamente chamava ateno. Ele parecia ser o que era. Um homem de ferro,
insubmisso e virtualmente indestrutvel. Algumas mulheres achavam aquela combinao excitante e at mesmo irresistvel, sem a menor dvida, mas no era o seu caso.
Tudo o que ela desejava era abrir uma brecha naquele seu lado insensvel, era descobrir um modo de feri-lo, a tal ponto que ele carregaria as cicatrizes para o resto
da vida.
Foi nesse momento que uma idia comeou a germinar. Outrora, h muito tempo atrs, uma mulher conseguira mago-lo, por mais que ele tentasse diluir no cinismo a
importncia do fato. Supondo, apenas supondo que ela conseguisse fazer com que ele se apaixonasse por ela, isto no lhe forneceria a arma mais aguada de todas?
E por que no?  bem verdade que agora ele talvez fosse uma parada mais dura de se enfrentar, mas, no que dizia respeito  atrao, ela j saa com uma certa vantagem
e no tinha nada a perder. E que vingana seria! Quase valia a degradao que ele estava lhe impingindo.
Deu-se conta subitamente de que Dave tinha colocado o telefone no gancho e olhava em sua direo, com uma expresso estranha. Kim baixou rapidamente os olhos, imaginando
se teria revelado seus pensamentos, naquele momento de abandono. Uma campanha como a que ela estava planejando encerrava um desafio muito real, pensou. Ele era por
demais astuto para ser surpreendido por tticas tmidas. Ela no tinha certeza se seria capaz de se entregar a um papel contra o qual sua sensibilidade protestava.
 Vou at a cidade  anunciou, assim que se aproximou da mesa.  Quer ir comigo dar um passeio?
Kim encarou-o, sem saber se a pergunta era dirigida a ela ou a Luke. Sua expresso era enigmtica e no denotava nada naqueles calmos olhos cinza.  At que seria
divertido.  ela condescendeu, aps uma breve pausa.
Luke acompanhou-os at a porta da entrada, mirando o cu com ar de entendido.  No vai demorar muito tempo para chover.  afirmou.  A estrada estava um verdadeiro
rio na noite passada. Acha que vai conseguir voltar a tempo?
 Se no conseguirmos, voltaremos a nado  foi a resposta imperturbvel.  Talvez fosse uma boa idia mandar alguns homens abrir algumas canaletas ao lado da estrada
antes da primeira chuva pesada. Algo me diz que elas viro mais cedo este ano.
J no carro, Kim perguntou timidamente:  O que acontece na mina quando as chuvas comeam a cair para valer?  impossvel levar o trabalho adiante sob as tempestades,
no?
 Depende da quantidade de chuva. Se mandssemos os homens parar cada vez que chove, teramos de desistir e fechar a mina tambm durante a estao seca.  um tempo
difcil, mas a gente consegue dar conta.
 S que neste ano voc no vai estar aqui para ver.
 No.
Ela esperou um momento antes de formular a pergunta seguinte:  Voc est planejando voltar?
 Para Pillai no, com toda a certeza. Trs anos no mesmo lugar so mais do que suficientes. Luke me substituir quando eu partir. Ele provavelmente ficar por mais
uma temporada, a menos que surja algo que o faa mudar de idia.
 O qu, por exemplo?
Ele lanou-lhe um rpido olhar.  Como  que eu posso saber? Ele ainda tem um ano de contrato para cumprir. Depois disto tudo pode acontecer. Aqui voc aceita as
coisas como elas vm.  Ele mudou a marcha e acrescentou casualmente:  Ainda bem que vamos embora dentro de algumas semanas. Voc jamais agentaria passar uma estao
inteira aqui.
O que ele provavelmente queria dizer, pensou,  que no agentaria mais v-la por perto, transcorrido aquele tempo. E era este o homem a quem ela queria fazer ajoelhar-se
a seus ps em cinco curtas semanas! Com a maior determinao ps de lado o derrotismo que ameaava apoderar-se dela. No momento ele se mostrava interessado nela,
no era mesmo? E ela nem sequer havia iniciado a campanha para ati-lo. No quis tambm refletir sobre o fato de que no tinha a menor certeza de como haveria de
inici-la. O instinto deveria desempenhar um papel de grande importncia em um assunto daquela natureza.
Levaram vinte minutos para alcanar a cidade, atravs daquele verdadeiro atalho tortuoso. Dave contou-lhe que os trabalhadores desbastavam a floresta para chegar
at a mina, porm as picadas que eles abriam no eram suficientemente largas para dar passagem a um automvel. A cidade era maior do que Kim imaginara. As casas
de alvenaria, cobertas com chapas onduladas, dispunham-se desordenadamente ao longo de ruas enlameadas, ornamentadas com palmeiras e rvores semelhantes a cedros.
A casa diante da qual Dave parou o carro era uma das melhores. O teto de zinco estava livre da ferrugem que atacava as residncias vizinhas.
 No vou levar muito tempo  disse, deixando Kim enfrentar o olhar curioso dos moradores. Dentro do carro estava insuportvel e a umidade pairava como um manto.
Kim afastou-se do encosto do banco e sentiu que a blusa grudava em sua pele. Saiu do carro e apoiou-se a um muro, sentindo algum alvio ao ar livre. Uma nuvem aproximara-se
do norte e cobrira todo o cu, espessa, escura, e ameaadora. Ouvia-se novamente o trovo ecoando nas colinas, e desta vez mais perto, enquanto os relmpagos riscavam
o cu. Gostaria que Dave se apressasse. No seria brincadeira enfrentar a tempestade como a que tinha certeza de que iria cair.
Dois meninos aproximaram-se do carro. Pareciam irmos, um deles deveria ter dez anos, o outro doze. Puseram-se a encar-la com solene curiosidade. O mais novo usava
um capacete branco de mineiro que lhe caa at a orelha e balanava perigosamente cada vez que ele movia a cabea.
 Cigarro?  pediu o mais velho, esperanoso, encorajado pelo sorriso involuntrio de Kim.  Me d cigarro, dona?
 Sinto muito, no tenho.  Kim mostrou as mos vazias, desejando ter algo mais apropriado para oferecer aos meninos, em compensao.
Dave saiu da casa, acompanhado at a porta por duas mulheres sorridentes que usavam vestidos europeus.  Dem o fora, vocs dois  disse aos garotos, porm sem severidade,
e jogou uma moeda para o mais velho antes de subir no carro.
 O que  que eles queriam?  perguntou a Kim, quando o carro se ps novamente em movimento. Ela contou e ele sorriu.
 Aqueles dois gostam um bocado de tabaco. Desse jeito vo parar de crescer, se no tomarem cuidado.
 Voc parece conhec-los  murmurou.
 So filhos do meu capataz:  o homem que acabo de ver. Na noite passada quebrou a perna e ficou preocupado com a famlia. A Companhia toma conta desses casos,
s que eles nunca acreditam, a menos que voc os tranqilize pelo menos umas doze vezes. O que voc achou das mulheres dele?
Kim lanou-lhe um rpido olhar.  As duas?
 E por que no? Ele  muulmano; pode se casar com quatro.  Estava voltando pelo caminho por onde tinham vindo.  Vou deix-la em casa e voltarei para a mina,
antes que a chuva despenque.
Ele calculou mal. Estavam na metade do caminho quando o barulho extremamente violento de um trovo anunciou uma sbita pancada de gua. Kim jamais vira em toda sua
vida uma chuva como aquela. Era uma muralha slida de gua que transformou a pequena estrada em um atoleiro em uma frao de segundos e tornou impossvel guiar.
Dave dirigiu o carro para uma pequena elevao ao lado da estrada e desligou o motor.  Vamos ter que esperar at melhorar um pouco  disse.  Caso contrrio somos
capazes de sair da terra firme e de nos atolarmos.
 Voc chama a isto terra firme?  ela perguntou, tentando no parecer muito perturbada.  A gua est correndo como um rio pela estrada!
 Enquanto estiver correndo, tudo bem.  quando ela pra que comeam os problemas.  Tirou um cigarro do bolso, observou sua expresso enquanto o trovo ribombava
novamente e acrescentou:  Parece pior do que , na verdade. Por estas paragens tudo parece fora de proporo. Quer fumar?
Ela aceitou, contente por poder se concentrar em algo mais que no fosse a tempestade. Dave primeiro acendeu o cigarro dela e em seguida o seu, sacudiu o fsforo
e atirou-o pela janela aberta. Por alguns momentos ficaram em silncio, sublinhado unicamente pela chuva ininterrupta.
 Como  que voc consegue agentar isto durante seis meses?  Kim explodiu finalmente, incapaz de suportar ficar sentada l por mais tempo, esperando.
 O primeiro ano  o pior  ele replicou.  Depois disso voc aceita qualquer coisa que o clima queira lhe infligir. Alguns homens conseguem tirar frias durante
as chuvas e vo para o norte.
 Mas voc no  ela arriscou.
Ele deu de ombros.  Quando voc est de frias, um lugar  to bom quanto outro qualquer. Passei a maior parte do tempo em Freetown.
 Suponho que voc vai l com muita freqncia.
 Nos fins de semana.  Acrescentou jocosamente:  Comporte-se e at pode ser que eu a leve comigo. Voc no teve muitas oportunidades de conhecer a cidade nas duas
vezes em que esteve l.
 No.  Kim obrigou-se a adotar o mesmo tom ligeiro.  Devo dizer que ficaria muito desapontada por ter que voltar para casa e contar que o nico lugar de Serra
Leoa que eu vi de verdade foi um acampamento de mineiros nas montanhas.
 E quanto a seus amigos de Londres?  ele perguntou inesperadamente.  Voc os colocou a par de seus planos?
 Os seus planos, voc quer dizer.  Ela no conseguiu evitar o comentrio intencional.
 Acaba dando no mesmo. Seus amigos sabem?
 Tenho apenas uma amiga, com quem dividia um apartamento.
 Dividia?
 Naturalmente tive de dizer a ela que encontrasse outra pessoa quando vim para a frica. No teria possibilidades de pagar minha parte do aluguel enquanto estivesse
fora. De qualquer forma no tinha certeza de quanto tempo estaria fora.
A expresso de Dave refletia curiosidade.  Voc no consegue nunca parar para refletir antes de agir?
 No muito freqentemente  ela admitiu pesarosa, dizendo logo em seguida em tom firme:  Apesar de sentir que conseguirei, no futuro.
 Vamos!  Ele sorria novamente.  No  to ruim assim. Eu tive a impresso ntida de que voc poderia comear a gostar de nossa combinao.
Kim sentiu o sangue subir-lhe ao rosto.  Existe uma diferena enorme entre o gozo e o sofrimento  retrucou.  Penso que aprendi alguma coisa a seu respeito: voc
 totalmente desprovido de qualquer espcie de senso de humanidade, portanto  uma perda bvia de tempo oferecer qualquer resistncia. Nossa combinao, como voc
a denomina,  algo que devo tolerar para poder voltar para casa. No gosto dela, mas h muito pouca coisa  no levando em conta um assassinato  que eu possa fazer.
Surgiu um brilho em seus olhos cinzas enquanto ele a estudava.  Voc  uma mentirosa.  ele disse, em tom quase normal.  Basicamente voc me deseja tanto quanto
eu a desejo, s que isto se choca com seu cdigo imaturo de tica. No existe uma mulher to imatura que consiga acreditar na tolice que voc me disse na noite passada.
Voc apenas estava tentando munir-se de uma defesa contra suas prprias inclinaes.
 Isto no  verdade!  Ela disse entre dentes.  Voc talvez se considere irresistvel para todas as mulheres, mas posso lhe garantir que, quanto a mim voc simplesmente
 um meio para um fim. Se voc quer saber, causa-me arrepios ser tocada por voc!
 Eu bem que notei.  Havia ironia no tom com que ele falava.  Muito bem, guarde para voc sua prpria verso. Voc no gosta de nada que diga respeito ao nosso
relacionamento e sobretudo a mim.  Inclinou-se para ela, tirou o cigarro que ela mal tocara, jogou-o pela janela juntamente com o seu e puxou-a para si, caoando
de sua resistncia involuntria.  Vamos, lute. Gosto de sentir um pouco de esprito em minhas mulheres!
Kim fechou os olhos, enquanto a cabea dele se inclinava em direo a ela, preparando-se para se defender contra o contato dos lbios dele com os seus. Vendo que
nada acontecia, abriu os olhos rapidamente e encontrou os dele a alguns centmetros dos seus, carregados de um brilho irnico. A mo dele moveu-se, apoiou-se em
seu corao e registrou a pulsao que se acelerava, moveu-se novamente at tocar a base do pescoo e acarici-la com uma ternura inacreditvel, deixando retesados
todos os nervos do seu corpo. Estremeceu no momento em que os lbios dele encontraram o canto de sua boca, lutando para controlar suas emoes traioeiras, odiando-se,
quase tanto quanto o odiava, por no ter a fora de vontade necessria para suprimir a sensao que seu toque lhe provocava. Trs dias, pensou revoltada, e ele j
conseguira reduzi-la quele estado de humilhao. Que espcie de pessoa ela era, quando os princpios de uma vida inteira podiam se alicerar em algo to frgil?
Mas uma reao positiva era necessria aos planos que tinha feito para ele, foi o pensamento que lhe ocorreu naquele instante. Como ela esperaria executar o tipo
de vingana que escolhera, a menos que usasse todo tipo de armas  sua disposio? Para atingir o interior daquele homem primeiro teria de satisfazer suas emoes
mais primrias. Este era um fato inelutvel. Foi por esta razo unicamente que ela se permitiu relaxar um pouco a tenso que se apoderara de seu corpo, deixando-o
atra-la para seus braos, descerrando os lbios a seu beijo e oferecendo em troca alguma retribuio. O fim justifica os meios, pensou enfaticamente. O fim sempre
justifica os meios!
No entanto no conseguia enfrentar de todo os seus olhos, quando ele finalmente a soltou. Poderia haver alguma justificativa para seu relativo abandono nos ltimos
minutos, mas agora que eles haviam passado, ela se orgulhava muito pouco de si mesma e de suas motivaes. Se fosse honesta consigo mesma, teria de admitir que desejara
corresponder a ele. Dave no subestimara seu poder sobre ela ao se declarar capaz de excit-la no momento que quisesse. Ele a conhecia melhor do que ela mesma.
 Foi melhor do que eu esperava  ele disse suavemente.
 Foi melhor do que voc merece  ela retrucou, dominando seu langor por um esforo supremo de vontade. Levantou a cabea e o queixo apontou para a frente.  Muito
bem, voc provou do que  capaz. Deve estar se sentindo muito orgulhoso de si mesmo.
 No de todo. Estou mais intrigado do que qualquer outra coisa.  Havia um tom estranho na voz dele.  Voc tem suficiente fora de vontade para controlar-se, no
entanto voc cedeu propositalmente agora h pouco. Por qu?
 Ela disse em voz baixa.  Voc sabe por qu.
 Porque voc no pde dominar-se?  Estudou-a e seus lbios moveram-se imperceptivelmente.  Acho que no. Penso que voc tinha outros motivos.
 Tais como?  Apesar de todo o esforo que fazia por manter a voz calma, ela tremia.
 A esperana de que, ao se tornar agradvel, digamos, para mim, voc poderia encontrar uma brecha por onde penetrar. Voc no  l muito perita em esconder seus
pensamentos, meu bem. Compreendi que voc estava maquinando algo no momento em que a surpreendi lanando aquele olhar calculista, quando telefonava na hora do almoo.
Muito bem, continue treinando. Com um pouco mais de prtica  capaz de voc aprender at mesmo a se envolver!
Kim olhou para ele, derrotada, consciente de que ele estivera brincando com ela como um gato brincaria com um rato. No adiantava de nada pedir, mas ela fez mais
uma tentativa de atingir seus instintos mais nobres.  Dave,  disse, tremendo  deixe-me ir embora. Eu no significo nada para voc.
 Engana-se novamente. Voc significa muito  com o polegar acariciou a ponta do queixo.  Voc  uma mulher muito desejvel e acontece que voc  minha esposa.
Enquanto estas duas circunstncias persistirem voc vai ficar aqui comigo.  Inclinou-se e ligou o motor.  A chuva est passando um pouco. Acho melhor voltarmos
para a mina.
Kim no disse sequer uma palavra na volta. A clareira estava toda sulcada por pequenos rios enlameados, formados pelos pneus dos automveis. Dave parou o carro o
mais prximo possvel dos degraus e saiu antes que Kim pudesse mover-se, levantando-a em seus braos a fim de evitar que ela pisasse naquele lamaal e levando-a
at a varanda. A chuva talvez tivesse diminudo de fora, mas mesmo assim sua camisa ficou toda molhada. Ele a ps no cho e entrou na casa antes dela.
Ela preparava um drinque quando ele voltou do quarto abotoando uma camisa seca.
 No  um pouco cedo demais para isso?  disse.
 Acha?  Voltou-se com o copo na mo e havia um brilho muito pouco natural em seu olhar.  Talvez eu esteja precisando. No h do que se admirar.
Veio at ela carregado de intenes e tirou-lhe o copo das mos.  Voc se acalmar sem precisar recorrer a isso. J tenho suficientes problemas com voc sem precisar
acrescentar o lcool a eles.
 Problemas? Comigo?  Deu uma breve risada.  Voc deveria decidir-se, Dave. H poucos momentos voc parecia convencido de que me tinha sob total controle.
Houve uma pausa e uma ligeira mudana de expresso antes que ele dissesse bruscamente.  No estamos falando das mesmas coisas. Voc vai pr este negcio de lado
at hoje  noite ou vou ter que trancar?
Ela levantou a mo, em um gesto de aceitao.  No beberei. Quer que eu ponha de volta na garrafa?
 No, j que se serviu, eu mesmo beberei.  O sorriso irnico estava de volta.  Estou acostumado e voc no. A diferena est a.
 Se quiser, na garrafa tem mais  ela retrucou, mas sem muita convico.  Voc vai sair de novo?
 Sim. Ficou feliz?
 Felicssima.  Passou por ele sem dizer mais uma palavra, foi para o quarto e fechou a porta.
0 carro saiu aps cinco minutos. Deitada de bruos, Kim examinou as ondulaes da colcha e calculou que tinha cerca de trinta e cinco dias pela frente antes que
a Inglaterra e o lar se tornassem mais do que um sonho. Mais trinta e cinco dias e um nmero igual de noites. E quando ela voltasse para Londres, o que aconteceria?
Estava desempregada, no tinha onde morar e s lhe restavam vinte libras. Mas preferia morrer a aceitar dinheiro de Dave. Isto seria a degradao final.


CAPTULO V

Caiu mais uma tempestade durante o fim de semana e nos trs dias que se seguiram a regio foi envolvida por uma nuvem escura e densa, que aprisionava o calor e a
umidade, provocando uma opresso desvitalizadora. Apesar de qualquer esforo implicar num desgaste imenso, a mina continuava funcionando rotineiramente, parando
somente durante trs horas durante todo o perodo. Os homens praguejavam contra aquele clima maldito, mas nenhum deles parecia se sentir muito afetado pelas mudanas
climticas.
Kim tinha comeado a pr ordem nas folhas de pagamento na segunda-feira, trabalhando trs horas pela manh e mais trs no final da tarde. Com a ajuda de uma mquina
de calcular um tanto antiquada que Dave lhe trouxera do escritrio, achou o trabalho menos difcil do que havia imaginado. Quando chegou a hora do almoo, na quarta-feira,
havia terminado sua tarefa. As pilhas de envelopes j estavam etiquetadas e classificadas, prontas para serem enviadas para a seo do pessoal, onde os funcionrios
as preencheriam. Ela espreguiou-se, e afastou a cadeira da mesa, colocada em um dos cantos da sala de estar, onde estivera trabalhando. Tinha tempo suficiente para
comear a escriturao dos livros de contabilidade somente na manh seguinte, o que lhe proporcionava uma tarde livre de qualquer preocupao, se ela assim o desejasse.
O torpor l fora quase s encontrava paralelo na atmosfera abafada que reinava dentro de casa. No tinha a menor idia de onde Dave se encontrava naquele momento.
E nem se importava especialmente, disse a si mesma. Nos dois ltimos dias ela se afastava da casa at o pr-do-sol, retornando para fazer um lanche rpido e descansar
durante mais ou menos uma hora, at o jantar. Sua vida com Dave j tinha adquirido um certo padro, pensou. Um padro que ela aceitava porque no lhe restava nenhuma
outra escolha, mas contra o qual seu esprito ainda se rebelava. Para Dave no passava de uma amenidade, uma companhia com quem ele poderia passar agradavelmente
as horas que se seguiam a um dia de trabalho e o prximo. Por nada deste mundo Kim teria admitido conscientemente que as horas do dia, quando ele no estava em sua
companhia, pareciam se alongar ao infinito, e muito menos que o despertar da vitalidade nela coincidia com o momento em que seu carro voltava, mal se iniciavam aquelas
noites ligeiramente mais frescas.
Patrick serviu o almoo ligeiro que ela tinha pedido, composto de salada e carne fria, e perguntou se iria querer ch s quatro e meia, como de costume. Em um impulso,
Kim disse-lhe que folgasse para o resto do dia.  noite jantariam no clube e, se Dave no gostasse, pior para ele. J era mais do que tempo de mudar a rotina.
Passou a tarde preguiosamente lendo um romance policial escolhido entre os livros empilhados na estante da sala de estar, fazendo o possvel para ignorar a intensa
umidade. Ao longe, ouvia-se novamente o ribombar do trovo e pairava no ar o silncio que pressagiava outra tempestade. Em uma ou duas semanas a violncia dos elementos
decresceria, mas a chuva continuaria caindo com regularidade crescente durante os meses de julho e agosto antes de comear a diminuir vagarosamente quando se aproximasse
a estao seca. Para Kim no havia nada que lhe recomendasse aquela regio. Era um lugar quente e mido e ela mal podia esperar para sair de l.
Foi somente quando ela se decidiu tomar um banho de chuveiro e trocar de roupa que se lembrou da gua. Patrick costumava manter uma grande panela cheia de gua aquecendo
constantemente no fogo a lenha, e depois a colocava na caixa-d'gua que servia ao chuveiro, a fim de preparar o banho. Devia ter ido embora depressa, depois de
Kim lhe ter dado aquela folga inesperada, pois quando ela foi para a cozinha encontrou o fogo j frio e a panela quase vazia. Ench-la no apresentava problema
algum, esquent-la, porm, era outro assunto. Kim j tinha visto Patrick acender o fogo algumas vezes, mas tinha somente uma vaga idia de como proceder. Havia
uma pilha de lenha colocada em um caixote, a um canto da cozinha, e algumas revistas velhas ao lado, que ela presumiu poderem ser usadas para atear o fogo. Amassou
algumas folhas e colocou-as juntamente com a madeira no fogo, ateando fogo por meio de um palito de fsforo. O papel comeou a queimar nas bordas, porm apagou
logo. Acendeu mais um fsforo e desta vez segurou-o junto ao papel at que ele quase queimou-lhe os dedos. O fogo propagou-se com rapidez inesperada e Kim retirou
rapidamente a mo enquanto as chamas ardiam. Ignorou a dor por um momento, enquanto olhava desalentada a chama extinguir-se sem ter feito mais do que tostar a extremidade
de dois pedaos de lenha.
Foi somente quando virou a palma da mo que compreendeu o quanto tinha ficado queimada, e desta vez estava comeando a doer para valer. Passou um pano em volta para
impedir o contato com o ar e tentou se lembrar do que era bom para passar em queimaduras. Lembrou-se: bicarbonato, na falta de algo melhor, s que no conseguia
se lembrar de ter visto alguma caixa quando limpara os armrios.
Em algum lugar da casa deveria haver uma caixa de primeiros-socorros, pensou. Foi procur-la na sala de estar, protegendo a palma ferida com a outra mo. No ouviu
o carro e levou um susto quando Dave apareceu no limiar da porta, acompanhado por mais uma trovoada.
 Vai cair uma chuva forte  observou; em seguida, seus olhos foram atrados pela mo de Kim envolvida em um leno limpo e o tom de sua voz alterou-se.  O que foi
que aconteceu?
Kim contou.  No foi nada srio  concluiu, tentando no demonstrar que estava sentindo dor.  Estava procurando a caixa de primeiros-socorros.
Dave aproximou-se e tomou-lhe a mo, desenrolando o leno e esticando cuidadosamente a palma para olhar a queimadura.  Voc precisa ser medicada  comentou.  
melhor lev-la at a enfermaria e mandar o doutor Selby dar uma olhada nisto.
 Oh, tenho certeza de que no  necessrio.  Kim protestou.
 Realmente, Dave...
 Eu decido o que  necessrio.  fcil contrair uma infeco neste clima. S por curiosidade, por que  que voc estava tentando acender o fogo?
 Dei folga para Patrick. Pensei que podamos jantar no clube.  Enfrentou desafiadoramente seu olhar.  Alguma objeo?
Seu riso foi sbito e inesperado.  Nenhuma de que eu me lembre. Voc no precisa se mostrar to agressiva. Concordo inteiramente que voc merea sair de vez em
quando, at mesmo neste fim de mundo.  Segurou-a pelo cotovelo e a fez andar em direo  porta.  Mas primeiro vamos tratar desta mo.
Entraram no carro e se dirigiam para o clube quando ele disse displicentemente:  O que voc acha de passar o fim de semana na cidade?
Kim olhou para ele rapidamente.  Com voc?
 Com quem mais haveria de ser?
Ela ficou em silncio por um momento antes de dizer suavemente:  Voc no tem receio de que eu tente fugir novamente?
 No. Voc no tem para onde ir, a menos que estivesse pensando novamente em Adams.
 De que adiantaria?
 Exatamente. Fico contente de ver que voc finalmente se mostra sensata em relao quele tipo.  Fez uma pausa breve e acrescentou:  Voc ainda sente vontade
de fugir de mim?
H alguns dias atrs Kim no teria de pensar duas vezes para responder  pergunta. Agora ela se mostrava hesitante, antes de responder lentamente:  Como voc acaba
de dizer, no tenho para onde ir. No precisa se preocupar em relao a isso, Dave. Eu cumprirei a minha parte na barganha que fizemos.
Os lbios dele ficaram um tanto tensos.  Sabe de uma coisa? Estou comeando a ficar cansado desta sua atitude. Voc embarcou nesta histria de olhos bem abertos,
portanto pare de fazer de mim o vilo da pea. Claro, eu queria voc e talvez tenha manipulado as coisas em meu favor para t-la; porm, agi legalmente e sem recorrer
a falsas promessas.
Ela engoliu em seco.  Nem mesmo uma certido de casamento d necessariamente a um homem direitos totais sobre a mulher, pelo menos no na Inglaterra, com toda a
certeza.
 Mas aqui no  a Inglaterra, como eu no me canso de recordar, no estou interessado na legalidade de um papel. Voc veio aqui  procura de um homem e encontrou
um. No acho que estou me lisonjeando em excesso ao me julgar uma escolha melhor do que Adams, mesmo que essa escolha seja temporria.  Havia ironia no tom com
que se expressava.  Voc pode dizer a si mesma que deseja que estas semanas passem o mais rapidamente possvel, mas garanto que voc jamais as esquecer!
 A modstia no  exatamente o seu forte, no?  replicou sarcstica, tentando disfarar suas reaes quela afirmao.  Elogiar a si prprio  algo que recomende
quem quer que seja.
O sorriso dele era vagamente divertido.  A ingenuidade muito menos. Voc acha que eu no sei a diferena entre uma rejeio autntica e um controle proposital?
Kim olhou para fora da janela, consciente da proximidade dele e da fora daquelas mos queimadas de sol. Ele sabia muito a respeito de tudo, especialmente de mulheres.
Quem fora mesmo que dissera que a familiaridade gera o desprezo?
O mdico da mina era um homem taciturno, na casa dos cinqenta, e a quem dirigira a palavra somente uma vez. Examinou a queimadura um tanto superficialmente, passou
por cima dela uma pasta amarela e espessa que cheirava horrivelmente e enfaixou a mo com uma atadura de crepe.
 No ter maiores problemas, contanto que mantenha a atadura seca  resmungou.  Remova na parte da manh e deixe tomar um pouco de ar.
Por mais incmodo que fosse o remdio, a dor desapareceu. Kim ps-se a refletir, quando voltavam para casa. Afinal de contas, estavam fazendo um escarcu em relao
a um ferimento sem maior importncia. Do jeito que as coisas se apresentavam, seria realmente um problema lavar-se com uma das mos enfaixada daquele jeito.
A tempestade que se anunciava despencou assim que eles chegaram em casa. A chuva caiu com uma rapidez assustadora, apesar de se ter feito anunciar. Dave acendeu
o fogo e ofereceu-se para preparar alguns drinques enquanto esperavam a gua esquentar. Ficou parado na porta, com um copo na mo, apreciando a chuva, mas sem surpreender-se
com ela.
 Pelo menos serve para refrescar um pouco  comentou. Kim disse:  No imaginei que o clima pudesse perturb-lo.
 Acho que de nada adianta praguejar contra ele  respondeu, dando de ombros , mas no creio que seja a melhor coisa que existe. A nica coisa que se pode dizer
em favor dele  que estamos em uma situao muito melhor do que aqueles pobres diabos no Mali, morrendo devido  seca.  Esvaziou o copo e voltou para a sala. Os
envelopes de pagamento ainda estavam sobre a mesa, onde Kim os tinha deixado. Ps-se a manusear as folhas de controle das horas de trabalho.  Em quanto tempo voc
acaba?
 J acabei  ela disse.  Desde a hora do almoo.  No conseguiu evitar acrescentar com uma ponta de malcia.  Por mim eu j as teria levado at a seo do pessoal
se tivesse transporte  minha disposio... e, naturalmente, sua permisso para sair de casa.
Dave endireitou-se, olhando para ela com um ligeiro sorriso.  Voc est querendo briga?
 No quero brigar com quem quer que seja  ela retrucou prontamente.  O que estou tentando dizer  que gostaria de ter como sair de casa ocasionalmente durante
o dia. Sei que voc no quer me ver perambulando pela mina, mas eu me manteria afastada de tudo que pudesse trazer problemas.
 No sabia que voc dirige  comentou, aps um momento.
 Chris ensinou-me, antes de embarcar para a frica.  Procurou eliminar qualquer tom de emoo.  Eu nunca guiei uma Land-Rover antes, mas de tanto observ-lo na
direo acho que conseguirei. No pretendo sair para fora da mina. No daria conta de atravessar o porto.
 No  ele concordou secamente  no daria. Estudou-a pensativo.  A mo melhorou?
 Mais um dia ou dois e estarei boa. Foi uma queimadura superficial.  Estava tentando evitar lhe pedir.  No  muito o que estou solicitando.
 Muito bem  ele disse.  Quando voltarmos de Freetown, veremos o que  possvel fazer. H um carro a mais e voc poderia us-lo.  Registrou a reao dela com
um brilho de zombaria no olhar.  Acha que foi fcil demais ganhar a batalha?
Kim teve de sorrir.  Esperava uma oposio muito maior  admitiu.  Voc no costuma ser to acessvel.
 Voc nunca tentou me pedir algo, antes.  O tom de voz dele mudou abruptamente.  A gua j deve estar quente. Voc quer tomar banho primeiro?
Ela balanou a cabea.  Hoje  noite vou ter de me contentar apenas em me lavar um pouco. Se no tomar cuidado, molho a atadura. Ficaria muito agradecida se voc
enchesse uma bacia com gua quente e a deixasse na cozinha. L eu me ajeito.
O sorriso dele foi rpido e satrico.  Se precisar de ajuda  s chamar.
 Eu dou conta, obrigada.
 Voc  quem sabe.  Pousou o copo vazio sobre a mesa e em seguida saiu da sala.
Kim ajeitou-se, com efeito, apesar das dificuldades. Novamente vestida, foi para o quarto a fim de acabar de se arrumar, na certeza de que Dave j estaria pronto.
Parou surpreendida ao v-lo deitado na cama com um cigarro entre os dedos, enquanto folheava um mao de papis. Tinha trocado o jeans, mas ainda no vestira a camisa.
Levantou os olhos assim que ela surgiu, erguendo a sobrancelha com um ar inquisitivo, ao notar que ela no entrava no quarto.
 Algo a incomoda?
 Eu... eu pensei que voc j estava pronto  ela conseguiu responder.
 Pois estou... quase. Estamos com pressa?
 Nenhuma.  que...  hesitou  quero pentear o cabelo e passar batom.
O rosto dele assumiu uma expresso divertida.  Existe algum tabu que proba a um homem espiar sua mulher se pintando?
 Eu acho que no.  Kim no tinha a menor certeza das razes que a levavam a se opor  presena dele enquanto dava os toques de beleza necessrios a qualquer mulher
quando ela se dispunha a sair de casa e, ao compreender que estava se portando de modo irracional, sentiu-se sumamente irritada.  Tenho direito a uma certa privacidade,
mesmo em se tratando de voc  acrescentou teimosamente.
Ele se divertiu ainda mais.  Pois ento muito bem, pea para eu sair com carinho, que eu talvez at possa levar em considerao.
A cautela lutou brevemente com o enfado e perdeu.  V para o inferno!
  a isto que voc chama pedir com gentileza?  Sacudiu a cabea, zombeteiro.  Voc ainda tem muito que aprender a respeito de como tratar um homem, garota dos
olhos verdes. Agora venha at aqui e pea direitinho.
Kim depreendeu do tom com que ele lhe falava que, se ela no fosse at onde ele estava, ele a obrigaria a faz-lo. Pensou em desafi-lo a qualquer preo, mas de
que adiantava? Se fosse at ele, pelo menos manteria um certo esprito de iniciativa. Exteriormente calma, dirigiu-se at a cama e pegou a camisa limpa, estendendo-a
para ele.  Voc me faa o favor de pr isto aqui e sair.
Para um homem de sua corpulncia, ele se movia com a velocidade de um relmpago, quando queria. Sem se mexer da posio reclinada em que se achava esticou a mo
e puxou-a para a cama, a seu lado, debruando-se sobre ela para esmagar o cigarro no cinzeiro, na mesa de cabeceira. Os olhos cinza procuraram os olhos verdes. 
O que  mesmo que voc estava dizendo?
 Voc est amassando a camisa  ela disse.
 Pegarei outra.  Seu olhar percorreu o rosto dela, pousou sobre seu colo a voltou novamente para a boca.  Voc est tremendo  ele disse.  Voc est fazendo
tudo o que pode para que eu no perceba, mas voc me deseja tanto quanto eu a desejo. E por que no? Somos ambos providos das mesmas necessidades bsicas.
 Mas com um cdigo de valores diferente.  Ela tentou dizer estas palavras calmamente, cerrar sua mente ao apelo inegvel que sua proximidade provocava nela. 
Para voc isto  tudo, no  mesmo, Dave? Algo totalmente fsico. Voc absolutamente no se importa com o que eu estou pensando ou sentindo.
Sua expresso era curiosa.  Voc se importa com o que eu estou pensando ou sentindo neste momento?
 No - ela retrucou prontamente , porque eu no ligo para voc! E  disto que estou falando. Para um homem, qualquer mulher satisfaz, contanto que ele a ache
razoavelmente atraente; mas para uma mulher tem de haver algo mais do que isto, tem de haver um sentimento maior, antes que ela possa corresponder inteiramente.
Aquela boca enrgica ficou tensa.  Como a espcie de sentimento que voc tinha por Adams, por exemplo? , ele devia ter alguma coisa realmente especial!  Observou
a mo dela cerrar-se involuntariamente, como se fosse dar um murro e sorriu.  Faa isso e receber um troco que no esperava!
Por um breve momento Kim sentiu-se tentada a correr o risco, pela simples satisfao de esmurrar aquela boca cruel, mas o impulso logo se dissipou. Por maior que
fosse a satisfao obtida em golpe-lo e1a seria suprimida pela humilhao que seu gesto certamente provocaria. Relaxou novamente no travesseiro e seus olhos o fuzilaram.
 Deixe Chris fora disto!
 Por qu?  ele perguntou.  Porque voc ainda se sente magoada ao pensar que ele est com Mai, ou porque seu orgulho no pode suportar o pensamento de ter se enganado
a respeito dele desde o incio?
Ela sentiu um n na garganta.  No quero falar a respeito dele.
 Muito bem, ento vamos esquec-lo e nos concentrarmos no aqui e agora. Voc est disposta a continuar representando o papel de um iceberg ou comear a ser honesta
consigo mesma?
 E faz alguma diferena?
 Para mim, muito pouca, mas, para voc, bastante. Por mais que lute, voc est presa a mim; ento, por que no tira proveito?  Por alguns segundos sua voz tornou-se
mais suave.  Esquea esses seus princpios to rgidos, garota dos olhos verdes. Eu cuidarei de voc.
Seus sentidos cediam e uma sensao deliciosa a invadia, mas havia um lado seu que se agarrava desesperadamente  sensatez.
 Eu no vou desistir, no, Dave  ela disse com um fio de voz.  Qualquer coisa que voc queira de mim voc vai ter de tom-la  fora.
A impacincia tomou conta do olhar de Dave e endureceu novamente seus lbios.  Se  assim que voc quer que seja...
E seria exatamente assim, disse Kim para si mesma, decidida, enquanto os lbios dele procuravam os dela. Por mais que custasse, ela jamais lhe daria a satisfao
de saber o quanto ele a modificara, a partir do momento em que desposara a garota ingnua que ela tinha sido.
Chegaram a Freetown por volta das quatro horas da tarde, na sexta-feira, dirigindo-se imediatamente para o hotel onde Dave costumava se hospedar quando passava os
fins de semana na cidade. Seu quarto era claro e limpo, porm simples, e o banheiro, um dos menores que Kim tinha visto. Dave pousou a mala sobre uma das camas e
observou-a enquanto ela caminhava em direo  janela, com um sorriso no canto dos lbios.
  alto demais para pular, ou ento no  suficientemente alto, depende de como voc encare.
Kim no tomou conhecimento dele, olhando em direo ao mar. Havia navios ancorados no porto. Talvez at mesmo um barco britnico. No que seria de alguma utilidade
para ela, se houvesse. Faltavam somente trs semanas, pensou. Durante mais trs semanas ela seria a sra. Dave Nelson e depois poderia voltar para casa e nunca mais
o veria. Mas tambm nunca mais o esqueceria, disse-lhe uma pequena voz interior, o que a fez voltar-se abruptamente.
 A que horas  o jantar?  perguntou.
  hora que voc quiser  ele respondeu.  Est com fome?
 No, foi s curiosidade.  Abriu a mala e tirou dela seus pertences, pendurando no guarda-roupa o vestido que trouxera para usar naquela noite, juntamente com
a blusa de algodo leve que vestiria na manh seguinte. Ps seus objetos de toalete sobre a penteadeira, deu as costas  mala e hesitou.  Prefere voc mesmo guardar
suas coisas?
Ele deu de ombros.  Como quiser. Vou procurar um drinque. O bar fica  esquerda, assim que voc desce a escada, caso queira ir me encontrar quando estiver pronta.
 Prefiro ficar aqui no quarto, obrigada  retrucou com frieza.
 Est bem.  Ele parecia indiferente.  Vejo voc dentro de umas duas horas.
Quando ficou a ss, Kim acabou de desfazer as malas. A ausncia de Dave deveria significar um alvio para ela; no entanto, sem ele, o quarto parecia nu e vazio.
Ela quase se arrependeu por ter recusado o convite de juntar-se a ele no bar. Tinha sido um gesto ftil. Com tudo guardado no lugar, as duas horas que se seguiriam
seriam longas demais. Kim pensou em dar uma volta pela cidade, nas proximidades do hotel, mas a idia no a encantou. A umidade era ainda maior do que na mina, mas
pelo menos o enorme ventilador que girava lentamente no teto do quarto tornava a temperatura suportvel.
Estava olhando novamente pela janela quando ouviu baterem  porta. Foi abri-la e ficou encarando, por um momento que parecia no ter fim, o homem parado no corredor,
at que finalmente conseguiu recuperar a voz.
 Chris!
 Al, Kim.  O tom com que falava era baixo e tenso, e o olhar furtivo que lanou para o corredor sugeria nervosismo.  Posso entrar?
 Eu...  A voz ficou bloqueada na garganta. Tentou novamente:  O que  que voc quer?
 Falar com voc.  Havia sinais de desespero em seus olhos.  Por favor, Kim, estou com um problema. Um problema enorme!
Ela se afastou e deixou-o entrar no quarto, fechou a porta e permaneceu de costas para esta.  Como  que voc soube que eu estava aqui?
 Vi voc chegar com Dave Nelson.  Agora que estava no quarto, parecia sentir-se mais seguro, e o nervosismo deu lugar  curiosidade, enquanto a percorria com o
olhar.  Esperei at que ele descesse e fosse ao bar, e ento pedi ao recepcionista que me desse o nmero de seu quarto. Preciso falar com voc. Dave Nelson  uma
parada. Como foi que voc conseguiu?
 Pode-se dizer que tive sorte  ela replicou.  O que foi que voc quis dizer agora h pouco, Chris? O que  que est acontecendo?
Ele atravessou o quarto, deu uma espiada na rua, com um gesto brusco ajeitou a persiana e olhou para ela. Suas mos afundaram os bolsos, num gesto que de alguma
forma era defensivo.
 O marido de Mai est  minha procura, ele e o irmo dela.
  sua procura?
 Para me baterem. Vieram em casa hoje de manh e levaram Mai embora, na minha ausncia; em seguida voltaram para me esperar. Eu teria cado na armadilha, se um
dos garotos da rua no tivesse me prevenido.
Kim encarou-o, confusa.  O que posso fazer por voc?  perguntou finalmente.
 Bem...  Ele hesitou.  Voc tem dinheiro?
 Dinheiro?  Subitamente ela teve vontade de rir.  Chris, no faz tanto tempo assim que voc me disse ter dinheiro suficiente para se manter sem precisar se preocupar.
  o que eu pensava.  Mostrava-se contrafeito.  O que sobrou estava guardado em casa. Conheo Mai como a palma de minha mo: foi a primeira coisa em que ela pensou,
antes de deixar que a levassem. amos fazer uma viagem e no deixei no banco um centavo sequer, pensando em nosso passeio. Eu nem mesmo posso voltar at l para
mudar de roupa enquanto o calor no diminuir, isto , contanto que eles tenham me deixado alguma coisa. Tenho mais ou menos vinte libras comigo, e  tudo.  Olhou
para ela com curiosidade.  O que foi que voc disse?
Kim dominou-se.  No tem importncia. Sinto muito, mas eu tambm no tenho dinheiro. Sobretudo a quantia que voc deseja.
 Mas voc poderia conseguir.  Ele falou num tom suave e insinuante.  Uma mulher que consegue fazer Dave Nelson despos-la pode conseguir com que um homem faa
o que ela quiser... supondo que isto no seja apenas uma mentira que voc contou na recepo do hotel para salvar as aparncias...
 No, no foi, para falar a verdade.  Kim admirou-se de como podia parecer to calma quando sua mente estava mergulhada em um caos total.  Mas voc se engana
em relao a Dave. Ele no me daria dinheiro, de forma alguma. E se ele soubesse que voc est aqui, provavelmente pouparia um trabalho para o marido de Mai. Eu...
sinto muito, Chris...
 Mas voc  a minha nica esperana!  O desespero voltava-lhe aos olhos e  voz. Atravessou a distncia que os separava, a passos largos, e segurou-a pelos ombros,
olhando-a com ar suplicante.  Kim, voc tem de me ajudar! Essa gente no hesitaria duas vezes em deixar uma pessoa mutilada para o resto da vida, por causa de um
assunto desses. Sei que fui um tolo, mas tente compreender. Eu no consegui me controlar em relao a Mai, mas s Deus sabe o quanto eu tentei me manter afastado
dela. Ela conseguiu me enredar de tal forma que eu j no podia mais pensar com clareza. Ela tinha de ser minha, Kim. Tinha!
 No.  Ela tremia.  No quero saber nada a respeito dela. Voc a escolheu em meu lugar. Por que voc espera que eu o ajude agora?
 Por tudo aquilo que fomos um para o outro, um dia. Porque voc  voc, e sei que voc no vai ficar simplesmente de lado vendo o que me acontece.
Houve uma pausa prolongada antes de ela dizer contrafeita:  De quanto  que voc precisa?
 O suficiente para tomar um navio e me sustentar por alguns dias, enquanto no aparece alguma coisa. Umas duzentas libras adiantariam.  Notou que a expresso dela
mudava e acrescentou apressadamente:  Bem, umas cem libras, ento. No posso ir para lugar algum com menos disso.
 Talvez voc tenha de ir.  Kim libertou-se de seus braos, consciente da necessidade de tir-lo do quarto. Sem a menor idia de como resolver o problema de lhe
fornecer o dinheiro, acrescentou:  onde  que posso encontrar voc?
 Vou ter de ficar por aqui mesmo. No ouso ser visto novamente nas ruas. Tomei um quarto no fim do corredor para hoje  noite, mas terei de sair amanh.
Kim achou que o elemento tempo no iria fazer muita diferena, principalmente nessa situao especfica. Qualquer que fosse a histria que ela inventasse, Dave no
se satisfaria a ponto de lhe dar dinheiro. A nica soluo seria lhe dizer a verdade, e ela bem podia imaginar sua reao ao fato. Mas Chris tinha razo, ao declarar
que ela no poderia deix-lo em semelhante situao. Isto significava que ela tinha de encontrar um modo de persuadir Dave.
Com a garganta seca, ela assentiu:  Est bem.  melhor voc sair agora.
 Obrigado.  Ele parecia estar sendo sincero.  Eu sabia que podia contar com voc, Kim.  Com uma mo na maaneta da porta, ele fez uma pausa e seus olhos percorreram
o rosto dela.  Voc deve me achar um cafajeste.
 No.  Ela disse isto sem a menor entonao.  V embora, sim, antes que Dave suba e o encontre aqui. Duvido que ele teria a pacincia de esperar explicaes.
Ele saiu imediatamente, e ela permaneceu sem reao, contemplando a porta que se cerrara  sua passagem, antes de sentar-se lentamente em uma cadeira ao lado da
cama. Havia uma nica maneira de contornar o problema, e talvez nem desse certo. Mas ela estava disposta a tentar, porque no havia mais nada a fazer.
J tinha posto o vestido azul quando Dave voltou. Saudou-o sem demonstrar a menor emoo, fingindo que lia uma revista, enquanto ele tomava banho e punha o terno
de tropical. Era a primeira vez que ela o via usando algo mais formal do que camisa aberta ao peito, e teve de reconhecer que o terno fazia uma diferena. Desaparecera
o homem rude com quem ela se habituara e em seu lugar estava um estranho muito bem vestido. As abotoaduras brilhavam no punho a camisa fina de cambraia e o corpo
parecia mais esguio, no terno muito bem cortado. At mesmo seus traos pareciam de certo modo menos angulosos. Somente os olhos cinza permaneciam os mesmos, sobretudo
quando lhe lanaram um olhar zombeteiro, enquanto ela se levantava com relutncia, depois que ele sugeriu que deveriam descer.
 Tente sorrir  ele aconselhou.  No queremos que todo mundo saiba que no nos damos bem.
 Voc est pouco se importando com o que eles pensam  ela replicou com voz abafada, e ele inclinou a cabea.
 No, talvez voc tenha razo. Vamos indo?
A sala de jantar estava repleta, assim que entraram. Apesar dos ventiladores que giravam no teto, a atmosfera era quente e desagradvel, e as moscas pousavam em
todos os lugares.
 A comida  boa  Dave apressou-se em dizer, observando o rosto de Kim enquanto ela olhava o restaurante.  Na frica a gente aprende a no levar muito em conta
os ambientes.  Acendeu o cigarro dela e depois o seu em uma vela enfiada em uma garrafa vazia. Sentou-se e ps-se a contempl-la,  luz da chama bruxuleante. 
Tirou uma boa soneca?
Kim sacudiu a cabea.  Soneca?
 Suponho que  isto o que voc estava fazendo enquanto eu tomava um drinque.  Seu olhar tornou-se um tanto aguado.  Voc no saiu?
 No. Eu no sa.  Seus olhos percorreram novamente o restaurante, com uma certa aflio.  O servio poderia ser mais rpido.
 No h pressa  ele disse, e fez uma pausa.  Ou h?
Ela olhou-o rapidamente.  Por que deveria haver?
 Nunca responda a uma pergunta com outra.  ele aconselhou-a, num tom suave.  Sempre d a impresso de que voc poderia ter alguma coisa a esconder.
Possivelmente esta era a ocasio apropriada para ela lhe fazer o seu pedido, mas o lugar era inteiramente imprprio. Desviou novamente o olhar, sem perceber que
seus dedos deslizavam nervosamente pelo p do copo, at que ele estendeu a mo e o retirou. Ele ento segurou-lhe ambas as mos, voltando-as com a palma para baixo,
apoiadas na toalha. Kim olhou-as, sentindo os rijos dedos dele pressionarem os seus, prontos para apert-los.
 Voc est escondendo alguma coisa Kim?  perguntou ele enftico.
A ocasio era mais do que apropriada, mas ela, no entanto, no conseguia se manifestar. Chris estava ali no hotel. Se Dave soubesse, era impossvel prever o que
ele poderia fazer, especialmente quando tivesse conhecimento de que o rapaz tinha estado com ela em seu prprio quarto. E entretanto, esconder o fato agora significava
simplesmente acumular problemas que acabariam por estourar mais tarde.
 Preciso lhe pedir uma coisa  disse finalmente, com dificuldade.  Mas aqui no, Dave. Primeiro vamos jantar.
Pareceu-lhe que ele levou um sculo para responder, e seus olhos no se despregaram dos dela.  Muito bem,  concordou finalmente  ento primeiro vamos comer.
Kim quase no sentiu o gosto da comida que lhe era servida; no entanto forou-se a com-la. Exteriormente Dave no demonstrou o menor sinal de impacincia pela lentido
com que ela jantava, mas ela sentiu uma certa tenso em seu rosto no momento em que seus lhos se cruzaram. Intuitivamente sentiu que ele sabia que seu comportamento
tinha algo a ver com Chris, e que ele estava exercendo m enorme controle, ao no perguntar a verdade, naquele lugar e aquele momento. A culpa era toda dela, claro.
Se ela conseguisse se controlar mais, ele no teria adivinhado que as coisas no iam bem, at que ela escolhesse o momento de lhe falar. Do modo como as coisas se
colocavam, assim que eles sassem do restaurante ele exigiria que ela lhe dissesse o que a preocupava, e sabe-se l como  que ele iria encarar o assunto.
Verificou logo em seguida que se enganava no que dizia respeito s reaes de Dave. Terminado o jantar, ele a levou para a rua, muito iluminada, e, antes de perceber
o que estava acontecendo, viu-se no carro a seu lado, dirigindo-se para fora da cidade. Freetown possui uma enorme priso dos dois lados da estrada principal. Para
Kim, os muros eletrificados pareciam se estender por quilmetros, soturnos e expressivos. Sentiu-se aliviada quando finalmente eles ficaram para trs e o carro bordejou
o mar, em meio  escurido quente e mida. Ela preferia enfrentar a enorme tenso de ter de ficar completamente a ss com Dave, a contemplar a aparncia deprimente
daqueles muros altos da priso.
Chegaram a uma praia comprida e que tinha um campo de golfe ao lado. Dave parou o carro no gramado e desligou o motor, tirando da carteira o cigarro.
 Muito bem  disse.  Fale.
Este era o Dave que ela conhecia. No contornava o assunto, ia direto a ele. Kim encolheu-se um pouco no banco e imaginou como comearia  ou, mais precisamente,
por que ponto.  Como  que poderia aceitar a espcie de barganha que ela estava pensando propor?
 Chris est em dificuldades  disse finalmente.
 Eu bem imaginei.  Suas palavras foram ditas bruscamente.  Ele finalmente teve de enfrentar o destino, no  mesmo?
 Acho que  assim que voc pode denominar o que lhe aconteceu.  Tremeu um pouco, a despeito do calor.  Ser que eles realmente o machucariam, se o encontrassem?
 Se por "eles" voc quer se referir ao esposo e ao irmo de Mai, eles com toda certeza providenciaro para que Chris no saia por a roubando a mulher alheia 
replicou secamente.  As pessoas daqui no adotam nossas maneiras civilizadas, quando se trata de assuntos desta natureza. Acreditam na lei do olho por olho.
 Mas ele no foi inteiramente culpado  ela protestou.  Mai partiu com ele.
 Isto  irrelevante.  Ele mudou de posio, voltando a cabea de maneira que ela pudesse ver seu rosto.  Imagino que ele queira dinheiro.
Kim mordeu os lbios.  Sim.
 E obviamente ele espera que voc o consiga para ele? E de mim?
 Sim  ela voltou a dizer.
A pausa que se seguiu foi enervante.  Que razes ele teria para pensar que eu estaria disposto a financiar a sua fuga?
 Razo alguma. S que  ela procurou desesperadamente a maneira de colocar a questo  S que somos casados, e ele pensou que...
 E ele pensou que, por ter dado tanta coisa a voc, eu provavelmente no poderia lhe recusar nada.  Ele completou implacavelmente sua frase, enquanto a voz dela
sumia.  Naturalmente, voc no o esclareceu a respeito de nosso acordo, mas eu achava que, a estas alturas, voc me conhecia melhor, a ponto de esperar que eu no
concordasse. Seu ex-noivo merece tudo o que est lhe acontecendo e no levantarei um dedo para ajud-lo.
Kim pousou as mos no colo.  Eu... pagarei o que for preciso.
Ela sentiu, mais do que viu, a sobrancelha dele arquear-se.  Como?
O que se seguiu foi a coisa mais difcil que ela teve de dizer em toda sua vida:  Eu serei... aquilo que voc queria.
Era difcil interpretar sua reao a partir da expresso de seu rosto, mas quando ele finalmente falou, seu tom era absolutamente seguro:  Voc quer dizer que se
venderia a troco da segurana de Adams.
 Se voc prefere encarar as coisas desta maneira.
 E existe algum outro modo de encar-las?  Ele esmagou o que restava do cigarro com o polegar e o indicador e jogou-o fora com violncia.  Supus que voc tivesse
orgulho suficiente para mand-lo para o inferno, depois de tudo o que ele fez para voc.
O que Chris lhe tinha feito no era nada, comparado com os mtodos empregados por algumas pessoas, ela pensou, mas evitou expressar em voz alta este sentimento.
 Eu no me importo com ele  ela disse.  No da maneira como voc imagina. Mas tambm no posso ficar de braos cruzados e ignorar o fato de que ele necessita
de ajuda. Se houvesse algum outro modo de conseguir o para ele...  Ela fez uma pausa, sem encar-lo.  Pareceria pouco plausvel, de sua parte, oferecer ajuda sem
uma compensao.
 No me passou pela cabea que eu tivesse me oferecido para ajudar  respondeu, com uma inflexo cruel na voz.  O que  exatamente que vou ganhar em troca?
Kim suspirou prolongadamente.  Tenho certeza de que no preciso soletrar para voc.
 No  ele concordou, aps um momento.  Acho que no precisa, no.  Ele estendeu subitamente a mo, segurando-lhe o queixo e fazendo com que o encarasse. Sua
expresso era dura.  S que vamos deixar um ponto muito bem esclarecido. Voc no est fazendo nenhum sacrifcio, Kim. O que voc est me prometendo  unicamente
o que voc tem querido me dar desde a primeira vez que estivemos juntos. Entretanto, se convm a seus ideais dizer a si mesma que voc est agindo para beneficiar
Adams, v em frente. No me importo com o que voc diga para si mesma, contanto que seja uma mulher de verdade, em vez de uma menina.
A partir do momento em que seus lbios rijos e exigentes pousaram sobre os dela, no houve mais como se justificar. Aps reprimir suas emoes por tantos dias, o
alvio que ela sentiu em abandonar-se foi sensacional e infinito. Seus braos ergueram-se espontaneamente e rodearam-lhe o pescoo, seus dedos mergulharam naqueles
cabelos espessos. Sentiu que os braos dele a apertavam cada vez mais, sentiu que a musculatura rija de seu peito lhe cortava a respirao e que todo o desejo que
ela havia negado por tanto tempo jorrava como uma fonte. Quando ele, de repente, a afastou de si, sem muita gentileza, foi como se ela tivesse recebido uma ducha
de gua fria no rosto. Com as pernas tremendo, ficou sentada no escuro, olhando para ele, sentindo a mudana em seu humor sem a compreender.
 Dave?  Ela pronunciou seu nome em um murmrio, incerta, interrogativa. Somente ento ele se moveu, afastou-se e ligou o motor do carro.
 No se preocupe  disse bruscamente.  Adams receber o dinheiro. S que, depois disto, nunca mais quero ouvir o seu nome. Entendido?
Kim no respondeu. No era preciso uma resposta. No tinha certeza a respeito de suas expectativas durante aqueles poucos momentos emocionais, mas, fossem eles quais
fossem, a atitude de Dave era mais do que suficiente para mat-las. Tinha sido feito um acordo, e isto era mais do que suficiente para ele. Ela tambm poderia dizer
a si mesma que a coisa significava exatamente isto, s que, no fundo de si mesma, sabia que no era inteiramente verdade. Mas desejou, por tudo neste mundo, que
fosse.




CAPITULO VI

Dave insistiu em ver Chris sozinho na manh seguinte, dirigindo-se a seu quarto assim que se vestiu. Passaram-se mais de duas horas antes que ele voltasse. Duas
horas, durante as quais Kim sentou-se tensa perto da janela, olhando a rua na qual os dois homens desapareceram. Ela no perguntou nem se importou em saber onde
Dave iria conseguir aquela quantia relativamente grande de dinheiro em um domingo pela manh. Tudo que sabia foi que sentiu um alvio imenso ao ver aquela figura
alta e forte caminhando de volta pela rua colorida.
Estava pondo na mala o vestido que havia usado na noite anterior quando ele entrou no quarto. Olhou para ele rapidamente e desviou o olhar, no se sentindo suficientemente
segura para fazer a pergunta que pairava em seus lbios.
 Ele tomou um navio para Dacar  disse Dave brevemente.  Se tivermos sorte,  a ltima vez que o veremos. Voc j tomou caf?
Kim fez sinal que no.  Estava esperando por voc.
 Muita gentileza da sua parte. Assim que acabarmos, vamos para a praia. Se levarmos comida conosco, poderemos passar o dia l e voltar aqui para jantar antes de
regressarmos.  Arqueou a sobrancelha ironicamente, ao notar a expresso que passou rapidamente pelo rosto dela:  Talvez a praia no lhe diga muita coisa, mas 
a nica que eu freqentei nestes trs ltimos anos. Vamos comer.
O caf foi um tanto tenso, e Dave no fez o menor esforo para aliviar aquela atmosfera pesada que pairava sobre eles, e que era algo quase tangvel. Na rua, todos
pareciam estar a caminho da igreja, alguns vestidos sobriamente de preto, com ar solene, e a maioria trajando cores vivas, alegres e sorridentes. Havia um certo
langor no ar e sentia-se o ritmo sereno e vagaroso de todas as cidades tropicais. O capim brotava nas ruas principais, largas e arborizadas com accias, e de vez
em quando pequenos lagartos de um alaranjado muito vivo atravessavam-nas com a rapidez de uma flecha. Dos dois lados da rua havia pequenas canaletas de quase um
metro de largura, que se transformavam em verdadeiros riachos quando chovia.
Dirigiram-se para a mesma praia que haviam visitado na noite anterior. Estava cheia de gente de todas as nacionalidades. Kim sacudiu a cabea quando Dave sugeriu
irem nadar, dizendo que entraria no mar mais tarde. Olhou-o enquanto ele se dirigia para a beira da gua, notando rapidamente como as pessoas se voltavam ao v-lo
passar. Mesmo no meio de tanta gente, ele sobressaa, chamando a ateno das mulheres sem que fizesse nada para isso.
Parecia mais relaxado quando voltou; sentou-se na areia, ao lado dela, e alcanou um cigarro.
 Voc devia ter entrado  disse.  Est uma delcia.  Lanou-lhe um olhar perscrutador.  Voc sabe nadar?
Kim admitiu que sim, apesar de no faz-lo muito bem, e pensou quo pouco os dois se conheciam. Eram casados, viviam como marido e mulher, e no entanto, para todos
os efeitos, eram totalmente estranhos um ao outro. Ela pensou que assim seria melhor. Quando chegasse finalmente o tempo de se separarem, haveria muito pouco a esquecer
 se  que ela o pudesse.
 Voc no esqueceu a promessa de me dar o carro, quando voltarmos para a mina?  perguntou, aps um momento.
 No esqueci.  Seus olhos se cerraram e o tom com que falava era quase indulgente.   bom que voc pratique, porque vai ser de muita utilidade para mais tarde.
 Mais tarde?
 Quando acabar meu contrato.  Ele continuava de olhos fechados.  Decidi viajar um pouco, antes de regressar  Inglaterra. Talvez ir at o Sul e tomar um navio
em Lagos.
Kim ficou parada, e a areia que ela fazia deslizar por entre os dedos acumulou-se na palma da mo em concha.  Voc... pretende levar-me em sua companhia?
 Naturalmente.  Ele disse isto sem demasiada nfase.  Que mais eu poderia fazer com voc?
 Poderia me pr em um barco e deixar que eu voltasse sozinha para a Inglaterra  disse.
 Voc preferiria que fosse assim?
Seria mesmo isso o que ela preferiria? Por mais que tentasse, Kim no conseguiria encontrar uma resposta imediata. De um lado estavam a liberdade e o lar, e de outro,
um prolongamento, talvez por algumas semanas, da associao com um homem que no sentia por ela nada alm do desejo fsico, que eventualmente se dissiparia.
 Ser que tenho realmente uma escolha?  indagou, e notou um sorriso aflorar lentamente aos cantos da boca de Dave.  No, no tem. A esta altura, no. Precisamos...
 Ento  isto o que o tem mantido afastado, Dave.  A voz se fez ouvir por detrs deles. Kim voltou-se para olhar o homem esguio, de calo de banho, que assomava
ao lado deles, e deparou-se com um par de olhos azuis que no disfaravam a admirao que ele experimentava, o que a fez sentir-se um pouco como um peixe se agitando
em um anzol.  No posso acus-lo por querer guard-la s para voc  aquele prosseguiu. - Mas agora que estou aqui, o mnimo que voc pode fazer  nos apresentar.
Dave se sentara e sua expresso tornou-se enigmtica.  Kim, quero lhe apresentar Ralph Tait  disse, acrescentando em seguida, absolutamente imperturbvel:  Minha
mulher.
 S faltava essa  comentou.  Dave Nelson finalmente se amarrou!  Os olhos azuis detiveram-se sobre Kim mais uma vez, reafirmando uma primeira impresso.  Voc
vai ficar bastante impopular em certos lugares, isso eu garanto. Houve mais de uma mulher que tentou deitar as garras neste seu homem. Qual  o segredo?
 Deixe isso para l, Ralph.  Dave falava com bastante calma, mas havia uma ponta de irritao em sua voz.  Voc est sozinho?
 No.  Ralph inclinou a cabea em direo s rvores na beira da praia.  Os outros ficaram mais para trs. Eu ia dar um mergulho quando percebi vocs dois. 
Seu tom alterou-se sutilmente.  Karen est conosco. Engraado, ela falava justamente a seu respeito, na noite passada.
  mesmo?  Seu comentrio no deixava transparecer nada.
 Sim. Olhe  Ralph obviamente no conseguia perceber que no estava agradando , vocs no podem ir embora sem ao menos dizer al para todo mundo. Melhor ainda,
por que  que vocs no almoam conosco? Voc sabe que Bea sempre costuma trazer muita comida. D para todo mundo.
 Na verdade, trouxemos a nossa  disse Kim, hesitantemente, vendo que Dave no dava uma resposta imediata.
 Melhor ainda. Tragam com vocs e a gente coloca com o resto.
 Ralph desviou o olhar dela para Dave, subitamente curioso.  Vamos, homem, a lua-de-mel no pode durar para sempre. Tenho certeza de que Kim gostaria de conhecer
alguns de seus... amigos.
Dave ps-se subitamente de p, tirando a areia de seu calo molhado. Desviou o olhar de Kim.  Muito bem, diga a eles que iremos assim que arrumarmos nossas coisas.
Kim comeou a ajuntar tudo o que tinha trazido, enquanto Ralph se afastava, consciente de uma certa tenso que se apoderara de Dave.  Quem  essa gente?  perguntou
ela, assim que acabou de pr tudo no lugar.  Quero dizer, como foi que voc os conheceu?
 Ralph trabalha no comrcio de madeira,  um executivo. Passei um ou dois fins de semana com ele e com a mulher. H um outro casal que sempre sai com eles.  Moveu-se
impacientemente.  Vamos.
O grupo os esperava  sombra de algumas palmeiras e em seus rostos estampavam-se emoes variadas, enquanto os recm-chegados se aproximavam. A ateno de Kim foi
imediatamente atrada para a mulher mais jovem do grupo.
 H quanto tempo no nos vemos...  ela disse para Dave.
  mesmo.  A resposta foi imediata:  Muito tempo. Como  que vo indo as coisas?
 Tudo timo.  Seus olhos pousaram-se novamente sobre Kim, carregados de uma expresso estranha, quase divertida.  No vai me apresentar  sua mulher?
 No h a menor necessidade de formalidades, no acha?  Apoiando ligeiramente a mo em seu ombro, trouxe Kim para perto dele.  Esta  a Karen; aquela senhora
com a cesta na mo  Bea; Ralph voc j conhece. Faltam somente Anne e Norris.  A mo aumentou sua presso, forando-a a aproximar-se um pouco mais do grupo. 
Fique a com as mulheres. Elas no mordem.
Bea deu uma risada jovial, que contrastava estranhamente com seus cabelos tingidos de azul e sua figura muito bem posta. Tinha provavelmente quarenta e poucos anos
e era prematuramente grisalha, mas, ainda assim, alguns anos mais nova que o marido.  Sabe, Dave, senti falta de voc  ela disse.  Voc  o nico homem que consegue
fazer com que um insulto soe como um cumprimento.  Lanou para Kim um olhar bondoso:  Voc no sabe com quem est lidando!
 Talvez Kim ache fcil controlar a situao  comentou Karen suavemente.  Ela parece ser capaz.  mesmo?  Desta vez a pergunta foi dirigida diretamente a Kim
e exigia algum tipo de  resposta.
Olhando de soslaio, Kim percebeu Dave sentado ao lado de Norris, alguns passos de distncia, e sentiu que sua resposta podia ser ouvida.  Estou aprendendo  disse.
 Como foi que vocs se conheceram?  perguntou Bea a Dave. - Pensei que voc estivesse enterrado l na mina, durante estas seis ltimas semanas.
 Pois estive mesmo  ele respondeu casualmente.  Kim tem um emprego na companhia.
 No sabia que estavam importando mulheres para trabalhar em minerao  disse Ralph com algum ceticismo.  No deixa de ser um melhoramento. Seu contrato j est
quase no fim, no  mesmo?
 Sim.  Dave no fez a menor tentativa de acrescentar algo mais ao comentrio.
 E enquanto isso vocs esto morando l na mina?
Bea obviamente encarava aquela situao como algo que ela jamais teria sonhado enfrentar.  Meu Deus, o que as mulheres no so capazes de fazer por amor!
Kim sentiu a ironia presente no olhar de Dave e controlou-se para no deixar o rubor lhe subir ao rosto. Se aquelas pessoas soubessem da verdade, provavelmente jamais
acreditariam. E quem acreditaria? Nenhuma mulher que tivesse o mnimo de sensatez olharia Dave e imaginaria que ele pudesse ser diferente do homem que ela imaginara
que ele fosse.
Dave divertiu-se durante a hora que se seguiu, o que, por outro lado, no aconteceu com Kim, apesar de fazer o possvel para agir com naturalidade. Karen tinha se
aproximado do lugar onde Dave se sentara, sob o pretexto de lhe servir alguma coisa, e permaneceu a seu lado, enquanto ele falava de pessoas e fatos dos quais Kim
no tinha conhecimento. Era mais do que evidente que houvera alguma espcie de relacionamento entre os dois, no passado. Isso tudo no tinha nada a ver com ela,
pensou Kim, enquanto tentava no se deixar envolver. No entanto, no conseguia evitar sua preocupao com o aparente descaso de Karen pelo fato de ter surgido uma
esposa na vida de Dave, sobretudo quando era mais do que bvio que ela ainda o considerava um homem atraente. Se as posies tivessem se invertido, ela duvidava
de que pudesse manter a mesma calma e a mesma autoconfiana em face do que estava sucedendo.
Passava das trs, quando algum sugeriu um banho de mar. Kim foi a primeira a se pr de p, aliviada com o pretexto de poder se afastar por alguns momentos de uma
situao que ia ficando cada vez mais difcil. Uma vez no mar, colocou uma pequena distncia entre ela e os outros, nadando em direo ao recife que apontava  direita,
na curva da baa, e com a inteno de ficar l descansando por alguns minutos.
Era mais longe do que ela pensara. Antes de chegar  metade comeou a sentir dor nos msculos da perna e seus braos comearam a pesar como chumbo. Flutuou alguns
momentos a fim de recuperar o flego, tentando no entrar em pnico, ao perceber que no conseguia mais tomar p, em um mar que poderia esconder todo tipo de terrores
desconhecidos. O recife parecia to distante como no momento em que ela comeara a nadar, e no entanto a praia parecia igualmente afastada. Ela jamais conseguiria
alcanar qualquer um dos dois pontos, pensou com desespero crescente. Nunca teria a fora suficiente.
Algum ps-se a nadar em sua direo e ela sentiu a esperana renascer. Tentou dar algumas braadas, forando as pernas a corresponder  sua tentativa de coordenao,
mas sem conseguir anular a distncia que havia entre eles. Quando Dave finalmente a alcanou, ela obedeceu prontamente a suas instrues, deitando-se de costas,
enquanto ele a segurava com toda firmeza, nadando com ela para o raso. Parecia ter se passado um sculo, antes que ela conseguisse esticar a perna e sentir novamente
a areia sob seus ps. At mesmo naquele momento, Dave no a soltou completamente, passando um brao em redor de sua cintura a fim de ajud-la a furar as ondas e
caminhar at a praia. Sua prpria respirao estava acelerada, o peito arfava com decrescente rapidez, enquanto ele a contemplava.
 Mas, afinal de contas, o que  que voc pretendia fazer l?  ele perguntou, brusco.  Voc mesma disse que no sabia nadar bem e de repente resolveu ir para o
fundo! Voc merece...  Deteve-se subitamente, ainda tenso, enquanto os demais vinham correndo para onde eles estavam.
 Que foi que aconteceu? perguntou Morris.  Cibras?
 Eu... eu acho que me afastei demais, s isso  respondeu Kim, fazendo o possvel para controlar o tremor que lhe percorria o corpo.  Estou perfeitamente bem agora.
 Voc est plida como uma defunta  comentou Bea, um tanto preocupada. Olhou para Dave.  Talvez fosse melhor voc lev-la l para casa e deix-la descansar um
pouco. Com estas coisas no se brinca.
 No  necessrio  protestou Kim.  Temos de voltar para a cidade e retirar nossas coisas do hotel.
 Isso pode ficar para mais tarde  disse Dave, decidido.  Bea tem razo. Voc tomou um susto, e  melhor repousar. Temos tempo de sobra para regressar  cidade.
 Tomou-a pelo cotovelo.  Vamos aceitar sua oferta, Bea.
 Tenho uma idia  disse Bea.  Voc poderia ir at o hotel retirar suas coisas, Dave, e ficar para jantar conosco. Afinal de contas, daqui onde estamos vocs podem
pegar a estrada para a mina.
"No" Era o que Kim queria dizer. "No me deixe sozinha com ssta gente." Mas Dave j estava fazendo um sinal afirmativo com i cabea.
 Boa idia.  o que vamos fazer.
O grupo todo dirigiu-se para os automveis. A ss com Dave, Kim disse em tom neutro:  Eu preferia voltar com voc e jantar no hotel, conforme tnhamos planejado.
Sinto-me perfeitamente bem.
O olhar dele perscrutou-lhe rapidamente o rosto.  S vou acreditar quando a cor voltar a seu rosto. De qualquer modo, j aceitei o convite. Por que tanta relutncia?
Achei que voc apreciaria outras companhias que no a minha.
Ela levantou ligeiramente a cabea.  Eu no disse isso.
 No.  Seu tom era seco.  Olhe, quer voc goste ou no, vamos jantar com os Taits; portanto, veja se muda de cara. No sei o que  que voc tem contra eles, mas...
 No  tanto em relao aos Taits  ela disse, sem parar para refletir em suas palavras.   que... bem, Karen tambm vai estar l, no ?
Dave apertou os olhos, quando o sol incidiu sobre eles.  O que ela tem a ver com isso?
Passou-se um momento antes que Kim respondesse:  Ela tornou bastante evidente que se sente atrada por voc  disse finalmente.
 E da?  Seus lbios se contraram.  Voc no est querendo me dizer que se sente enciumada?
 No, no estou  respondeu ela com certa aspereza , mas no aceito ser tratada como se no tivesse a menor importncia, talvez algum dia ela se achasse com algum
direito sobre voc...
A tenso estampou-se no rosto de Dave.  No deixe a imaginao tomar conta de voc. Nenhuma mulher tem direitos sobre mim, incluindo voc. Se Karen a trata da forma
como voc diz, a culpa  sua. O que  que voc espera que eu faa?
 Nada.  Havia algo mais do que mero ressentimento na resposta que lhe aflorou aos lbios.  Aposto que voc est se divertindo muito com esta situao. Da maneira
como voc leva as coisas, voc pode se envolver com quantas mulheres quiser sem correr o menor perigo. No admira que voc queira prolongar nossa associao.  um
arranjo conveniente para algum como voc!
 Eu acho melhor voc ficar quieta  ele aconselhou em voz baixa.  Voc j falou o suficiente.
Kim calou-se. Fazer o contrrio seria tentar o diabo. Com os nervos  flor da pele, olhou teimosamente para a frente, fixando-se no carro que estavam seguindo, consciente
da tenso com que Dave segurava o volante. Sentiu um aperto na garganta e opresso no peito. Dave tinha tido um romance com Karen; o tom com que reagira confirmava
o fato. Mas, e da? ela se perguntou. Que diferena faria? Dave jamais tinha tentado disfarar seu desprezo pelo sexo feminino, considerando-o apenas til a seus
propsitos, e Karen, ao que tudo indicava, no merecia outra opinio. Fazia algum sentido ficar to chocada com o que se passava? Dave no merecia que ela sofresse
por ele. Simplesmente no merecia!
A casa dos Taits era nas colinas, a uns dez minutos da praia. Tratava-se de um bangal quadrado, construdo de pedra, com a varanda tpica que o rodeava por trs
lados.
Dentro estava mais fresco, e a penumbra do quarto que foi designado a Kim foi por ela recebida como um alvio. Ela tinha posto a sada-de-praia por cima do maio
molhado e enxugado o cabelo s pressas, sem dar a menor importncia  sua aparncia. Agora, ao contemplar-se no grande espelho embutido na porta do guarda-roupa,
deu um sorriso contrafeito. No gostou do que viu: os cabelos caam em desordem pelos ombros e toda cor lhe fugira do rosto. Sua cabea doa e no parava de latejar.
Talvez Bea tivesse razo a respeito da reao que ela iria sentir, apesar de que, ao relembrar aqueles momentos, quando estava sozinha na gua, tudo lhe parecia
uma tolice. No tinha corrido perigo algum. Tudo o que deveria ter feito era flutuar de costas at recuperar o flego suficiente para nadar de volta para a praia.
Estava abrindo o zper da cala de linho quando a porta se abriu e Dave entrou, carregando em uma das mos xcara e pires e na outra um vidro de comprimidos.
 Ch e um sedativo  disse.  Passa um pouco das quatro e meia. Sugiro que voc tente dormir um pouco enquanto vou at a cidade.
 No quero tomar nenhum remdio  replicou Kim teimosamente.  Deitarei, se voc achar necessrio, mas no h nada comigo que um banho de chuveiro no possa resolver.
 Voc tomar o banho quando eu voltar com suas roupas  ele replicou. Colocou o ch na mesa-de-cabeceira e ps na palma da mo dois comprimidos brancos, estendendo-os
para ela.  Com eles voc vai se acalmar. Parece-me que voc est precisando.
Os olhos verdes defrontaram-se com os cinza e desviaram-se. Sem dizer mais nada, Kim tirou-lhe os comprimidos da mo e levou-os  boca, tomou um gole de ch quente
e deitou-se, escondendo o rosto do olhar dele.
 Vejo voc mais tarde  disse, e saiu, fechando a porta com todo cuidado.
A noite j cara quando Kim acordou. Sentou-se, piscando, ao sentir o brilho da lmpada de cabeceira que algum acendera. O vestido azul estava cuidadosamente estendido
nas costas de uma cadeira e na outra encontrava-se a mala aberta.
Seu relgio marcava sete horas. Ela afastou o cabelo dos olhos. A dor de cabea tinha passado e ela sentia-se infinitamente melhor. Pelo menos achava-se capaz de
enfrentar o resto daquele dia interminavelmente longo. Faltava apenas o jantar, e ento seria hora de voltar para a mina. Naquele momento ela mal podia esperar para
regressar.
Bea havia informado que o banheiro ficava quase ao lado do quarto. O banho restaurou-lhe novamente o equilbrio. Ela teria gostado de lavar os cabelos, mas teve
de se contentar com a aplicao de um pouco de gua-de-colnia neles. De volta ao quarto, ela ps o vestido e enfiou as sandlias brancas que combinavam com ele;
maquilou-se ligeiramente e escovou os cabelos, amarrando-os em coque.  parte as olheiras, ela parecia estar bastante bem. Deu resolutamente as costas ao espelho
e saiu do quarto a fim de juntar-se aos demais.
A primeira coisa que viu, ao entrar na sala mobiliada com todo conforto, foi Dave conversando de p com Karen, ao lado de um grande vaso com uma tamareira. A linda
morena pousara a mo em seu brao e falava em voz baixa, com um sorriso no rosto. Dave parecia tolerante e expansivo, como se subitamente estivesse achando a vida
muito boa.
 Al!  exclamou Bea, percebendo a insegurana de Kim, parada na entrada da sala.  Est se sentindo melhor?
Kim assentiu e forou um sorriso.  Sim, obrigada. Eu devia estar cansada. Dormi demais.
 Sim, Dave disse que voc ainda dormia, quando ele foi se trocar. Achou que seria melhor deixar voc despertar naturalmente. Providenciamos para que vocs dois
passem a noite aqui e viajem amanh cedo para a mina. No h nenhum motivo para que vocs recusem, no  mesmo? Vai lhes fazer bem passar a noite em uma cama civilizada.
Entre e sente-se, querida. Ralph vai providenciar uma bebida.
 O que  que voc toma?  perguntou-lhe o marido de Bea, atrs do bar de bambu num dos cantos da sala.
Dave a contemplava. At mesmo de onde estava conseguia sentir seu olhar firme pousado sobre ela, mas recusava-se a olhar em sua direo.  Gim, por favor  disse
com deliberao.
 Quer que misture alguma coisa?
 Somente gelo.
Ralph arqueou as sobrancelhas espessas e riu.  Isto  o que se chama uma mulher de verdade. No enjeita um bom trago!  Trouxe o copo para ela, cheio pela metade
do lquido incolor.  Mande ver.
J arrependida por ter lanado um desafio to infantil, Kim tomou cautelosamente um gole e teve de controlar-se para no deixar transparecer suas reaes. Sem o
gosto forte do limo para neutraliz-la, a bebida era horrvel. Como seria possvel tomar o resto sem se denunciar perante todos na sala?
Quase abenoou Norris por ele ter desviado a ateno de Ralph ao lhe fazer uma pergunta sobre seu emprego. Momentaneamente deixada de lado, pousou o copo sobre a
mesa prxima  cadeira e recostou-se, fingindo estar bem  vontade, com um sorriso nos lbios, enquanto a conversao prosseguia  sua volta. Dave aproximou-se inesperadamente
dela, sentando-se no brao da cadeira e apoiando o seu brao no encosto, por detrs de sua cabea. Ela tinha conscincia total da proximidade dele e sentiu um desejo
sbito e desesperado de ficar ainda mais perto. De nada adiantava negar a atrao que ele produzia sobre seus sentidos. Nenhuma mulher poderia esperar permanecer
indiferente a um homem como Dave. Mesmo odiando-o como ela o odiava, ela... Fez uma pausa em seus pensamentos. dio? Seria isso mesmo que ela teria em mente? Seria
ainda possvel odiar o homem em cujos braos ela havia descoberto uma nova gama de emoes?
Karen estava sentada diretamente  sua frente. Ao cruzar com aqueles olhos castanhos e confiantes, Kim sentiu novamente a insegurana se apoderar dela. Agindo sem
pensar, deixou lentamente a cabea cair para trs, at descansar no brao de Dave, e voltou ligeiramente o rosto, esbarrando ligeiramente na manga de seu palet.
Com a mesma facilidade, a mo dele deslizou pelo encosto da cadeira e permaneceu l. Havia uma possessividade em seu toque, e este fato, alguns dias atrs, teria
despertado nela o mais vivo ressentimento. Ela estava se expondo a ser muito mal interpretada; no entanto, naquele momento, ela no se importava. No se importava
porque agora ela era a esposa de Dave, e j estava na hora de Karen compreender este fato.
Ou por uma coincidncia, ou por um desgnio malicioso da parte de Bea, quando os convidados tomaram lugar  mesa, Dave achou-se sentado entre Kim e Karen. Com a
ateno parcialmente solicitada pela amabilidade da anfitri, Kim conseguiu ouvir trechos da conversa de ambos e foi forada a reconhecer que Karen punha-se  vontade
com Dave, de um modo como ela jamais conseguiria. Ela no tinha a menor possibilidade de jamais chegar a compreender uma mulher como Karen, pensou. Nada parecia
desconcert-la. De certa forma, ela invejava seu domnio sobre as emoes.
O caf foi servido na sala de estar. Kim tomou o seu sentada em uma cadeira ao lado da porta e ficou contemplando a noite e ouvindo o barulho de dezenas de grilos.
Abafadamente e a distncia, ouvia-se o batucar dos tambores, sublinhando sutilmente a permanncia da frica e de seus povos.
Ralph encaminhou-se para seu lado, sentando-se no brao da cadeira, como Dave tinha feito antes.  Sabe de uma coisa? Voc me deixa intrigado, Kim  ele disse suavemente.
 Voc  um feixe de contradies. Na aparncia, voc parece calma e equilibrada, mas subitamente voc faz alguma coisa caprichosa, como, por exemplo, pedir uma
bebida que voc nem sequer aprecia. E agora h pouco, quando voc olhou para mim, havia em seus olhos alguma coisa semelhante a chamas verdes, antes que voc se
tornasse neutra novamente O que acontece com voc?
 Nada importante  replicou ela em tom superficial.  Sinto muito o que aconteceu com o gim. Foi tolice da minha parte. Talvez possa colocar um pouco de limo nele,
depois de tomarmos o caf?
 No estou preocupado com o gim  ele disse.  Estou falando a seu respeito. O que eu gostaria realmente de saber, em primeiro lugar,  como voc chegou at aqui.
 Dave j lhe contou  e recebeu em resposta uma risada zombeteira.
 Lembro-me muito bem do que Dave nos disse e acho que ele est mentindo descaradamente. Nenhuma companhia de minerao, neste lugar, empregaria uma mulher, especialmente
algum com sua aparncia! Isso seria criar um problema com "P" maisculo!
 Mas sou empregada. Consto do registro deles. Sou eu quem prepara as folhas de pagamento.
Ralph contemplou-a atentamente, por um momento, antes de sorrir e sacudir a cabea.  Agora, talvez. Como esposa de Dave Nelson, sua situao muda inteiramente.
Mas o resto da histria no cola.  Fez mais uma pausa.  Notei que voc no usa aliana.
 No. Ns... no tivemos a oportunidade de compr-las.  Tudo aquilo no dizia respeito a ele, porm Kim no se incomodou. Ela o colocaria a par da verdade, mas
at certo ponto.  Na realidade, vim para a frica  procura de meu noivo e descobri que ele havia desposado uma outra mulher. Ento me casei com Dave.
 Assim, de repente?  Havia uma certa admirao em seu olhar.  Voc certamente no perdeu tempo em agir. Voc  uma garota e tanto, Kim!
O corao dela disparou.  No quer mais caf?
 Ainda tem bastante.  Obviamente, Ralph no tinha a menor inteno de abandonar o interrogatrio.  Voc acha que vai conseguir prend-lo?
Kim desviou ligeiramente o rosto.  Sou sua mulher.
 Isso no lhe d muita proteo, neste pas. O melhor que voc tem a fazer  voltar com ele para a Inglaterra o mais cedo possvel. L pelo menos voc ter reconhecidos
alguns direitos, se as coisas no derem certo.
Era assim to bvio para todo mundo que Dave no a amava? Com certeza ficara aparente para Ralph que seu relacionamento tinha um ar provisrio.
 Eu nunca atravesso pontes antes de chegar at elas  disse Kim, com ar de desafio.  Ser que sobrou caf? Gostaria de tomar mais.
Karen estava sentada ao lado de Dave, no comprido sof, e seus dedos pousavam ligeiramente sobre o joelho dele, quando ela enfatizava algum tpico da conversa. Ralph,
sem dvida, iria lhe reportar a histria que Kim lhe contara, assim que tivesse a oportunidade. No que isso modificasse a atitude de Karen. Esta j parecia admitir
tacitamente que o casamento de Dave no apresentava qualquer tipo de problema que o tempo no pudesse resolver. Kim ps-se a cogitar se ela sabia que Dave no tinha
planos de voltar para Serra Leoa aps sua viagem  Inglaterra.
Foi Dave quem interrompeu a reunio, sob pretexto de que deveriam viajar logo cedo. J no quarto, ele tirou o palet e pendurou-o; ao remover as abotoaduras disse
casualmente:  Voc e Ralph pareciam estar muito ntimos naquele canto, h alguns momentos. O que ele estava pretendendo?
 Queria apenas conversar  respondeu Kim.
 Sobre o qu?
Ela tirou a faixa do cabelo e sacudiu-o.  Sobre ns.
Ele a olhava refletida no espelho.  O que foi que voc lhe contou?
 A verdade.  Ela disse isto com certa cautela.  Ralph no  bobo. Ele j adivinhou que existe algo de estranho em nosso casamento.
O sorriso de Dave foi to sbito quanto inesperado.  Mas o que h de estranho nele?
O zper do vestido encrencou. Kim puxou-o com toda fora, ao mesmo tempo que dizia mordazmente:  Para voc pode at parecer uma piada, mas eu no consigo achar
a menor graa em que me olhem como se eu fosse... uma mulher sustentada por um homem!
 Mas a maior parte das esposas o so.  a vida.  Ele tinha caminhado para seu lado.  Pare de puxar desse jeito, voc ainda vai acabar rasgando o vestido.
 Muito bem, voc me compra um outro.  Sentiu que os dedos dele lhe tocavam a nuca e isto bastou para que nela despertassem as sensaes que aquela proximidade
sempre provocava. Com a respirao ofegante, disse:  Dave, o que voc falou ainda h pouco, em relao a no voltar diretamente  Inglaterra quando seu contrato
acabar...
 Voc vem comigo. Eu disse isto tambm.  Seu tom era inequvoco.  Levarei voc de volta para a Inglaterra quando eu achar que chegou o momento; portanto, se est
pensando em sugerir algo diferente, no perca tempo.
Podia v-lo refletido no espelho, atrs dela, alto, de ombros largos, os traos tensos e severos. Esposo. Amante. Ainda um enigma.  No perca tempo em me pedir
para deix-la partir  ele dissera, e portanto, ela no o faria. De ento em diante viveria o dia-a-dia como ele se apresentava, e aos diabos com o futuro! Agora
ela era querida por algum, acontecesse o que acontecesse, e somente isso teria importncia.



CAPITULO VII

A vida prosseguiu na mesma rotina, no acampamento de minerao, nas duas semanas que se seguiram. Eles trabalhavam, comiam, dormiam, despertavam e comeavam tudo
de novo. Para Kim, no entanto, ter o carro prometido abriu novas possibilidades. A primeira coisa que fez, depois que Dave lhe entregou a chave, foi dar uma volta
pela mina, apesar de a chuva do dia anterior ter tornado seu passeio uma proposta arriscada.
Com a ajuda de algumas receitas que sabia de cor e um pouco de inventividade, conseguiu melhorar o padro da comida de Patrick. Ele ficou bem feliz, ao v-la praticamente
se encarregar do jantar, enquanto perambulava pela cozinha, limitando-se a pr a mesa. Estava completamente de acordo com o desejo dela de esconder perante o patro
a verdade sobre as atividades culinrias de Kim, mesmo que no entendesse as razes para tal. Deste modo, ele ganhava os crditos sem ter de realizar o trabalho.
Numa sexta-feira  noite, Kim sugeriu, com muita habilidade, que deveriam convidar Luke e mais dois engenheiros para jantarem com eles no dia seguinte.
 Assim eles mudariam um pouco daquela comida do clube  comentou.  Luke estava dizendo, outro dia, que estaria liquidado, se comesse mais um daqueles pudins de
chocolate que servem sempre.
 Ele vive dizendo isso desde que chegou aqui.  Dave a estudou com curiosidade, enquanto ela se apoiava no balastre da varanda.  Um convite desses parece algo
civilizado demais para o nosso modo de viver, alm do fato de que no conseguiremos equilibrar o nmero de convidados. Ou ser que lhe agrada pensar que voc ser
a nica mulher no meio de quatro homens?
 L no clube isso aconteceu freqentemente  ela relembrou, decidida a no se deixar provocar.   no vejo nenhuma razo pela qual no possamos ser civilizados,
s porque h falta de casais. Se voc quer invocar algum motivo para convid-los, pode dizer que o jantar  apenas uma preliminar para o jogo de pquer. J pensei
em convidar Carl Gerhardt.
 Voc parece pensar em tudo  ele disse, com uma rispidez pouco habitual.  Suponha que todos tenham planejado passar o fim de semana na cidade?
 No planejaram, no. Eu j indaguei.  Tendo chegado a este ponto, Kim no desanimaria to facilmente.  Ento, est combinado?
 Faa como voc quiser.
No que dizia respeito aos elogios  sua comida, Kim achou que o jantar foi um sucesso retumbante, mas era evidente que os quatro homens acharam a formalidade inabitual
da ocasio um tanto embaraosa.
Foi somente aps os charutos e o licor que os trs convidados comearam a dar sinais de relaxamento, e a sugesto de Dave, de jogar algumas partidas de pquer, foi
recebida com muito agrado. Dentro de alguns minutos estavam totalmente  vontade, com os palets no encosto das cadeiras, as gravatas afrouxadas e as mangas da camisa
dobradas. Esquecida de todos, Kim tentou ler um livro, aninhada em uma poltrona ao lado da porta, mas o murmrio das vozes, o calor e a fumaa tornavam a concentrao
difcil, seno impossvel. Achou que nenhum deles notou quando se levantou em silncio e foi para fora tomar ar.
Cara uma daquelas tempestades tpicas no final da tarde. O terreno estava todo enlameado e sentia-se no ar o cheiro da vegetao molhada. Um vento persistente levantava
o teto da varanda em um dos cantos, onde a palha havia se esgarado. Se no o consertassem logo, a palha ia comear a se desprender. Kim imaginou que Dave se interessava
muito pouco pelo que aconteceria com a casa, depois que se fosse. Caberia ao prximo morador providenciar os consertos.
No fazia nem cinco minutos que estava l quando ouviu o barulho de um automvel que se aproximava. Tornou-se logo visvel, com todos os faris acesos e evitando
as poas de gua, at que se deteve diante dos degraus da entrada.
 Voc tem visitas  disse o motorista, saltando na lama. Passou os braos ao redor da cintura da jovem que estivera sentada a seu lado, ajudando-a a subir os degraus
da escada e soltando-a a contragosto.  Pronto, est entregue, senhorita.
Kim caminhou em sua direo, enquanto outra pessoa cobriu a distncia entre o carro e a varanda; tratava-se de um homem jovem.
 Al, Karen  ela disse, sem a menor inflexo na voz.  Isto ... uma grande surpresa.
 No  mesmo?  Karen examinou,  luz do lampio, o estrago que a lama havia provocado em suas calas, antes de levantar a cabea e enfrentar o olhar de Kim. Veio-lhe
subitamente um sorriso aos lbios, com uma ponta de malcia.  Acho que a palavra "choque" seria mais adequada. Dave est l dentro?
 Estou e no estou.  Ele tinha vindo at a porta, atrado pelas vozes. Como sempre era difcil imaginar o que ele estava pensando. Simplesmente ficou parado diante
da porta, com a mo apoiada no umbral, olhando os recm-chegados com as sobrancelhas arqueadas, porm, sem nenhuma surpresa.   uma hora estranha para se receber
visitas.
 J estaramos aqui h horas, se no fosse a tempestade  precipitou-se em dizer o rapaz.  Samos logo depois do almoo.
 A estrada est inundada, Dave  falou o motorista que os conduzira at l, desviando o olhar de Karen.  Eu os achei na cabeceira da ponte. O carro deles est
atolado.
 A culpa  de Austin, que guia muito bem.  Karen disse estas palavras ironicamente, e seu companheiro ruborizou-se.  Desistimos de prosseguir, e ele estava manobrando
quando descobrimos que a estrada j no dava mais passagem.
 Ca num buraco e uma das rodas ficou atolada.  A explicao foi dita em tom de defesa.  Do jeito que chovia eu no podia enxergar nada.
 Pois vocs deviam ter ficado sentados no carro, esperando enquanto desse  foi o comentrio indelicado de Dave.   melhor vocs entrarem.  Seu olhar dirigiu-se
a Kim.  Por favor, diga a Pat que vamos precisar de gua quente.
 No seria melhor que eles se lavassem no clube?  sugeriu Kim, hesitante.   difcil usar o banheiro l de fora quando no se est acostumado.
 Eles daro um jeito  replicou Dave tranqilamente.  Voc poderia providenciar uma muda de roupas para Karen. Encontrarei alguma coisa para nosso convidado.
Karen riu.  Ainda no os apresentei, no ? O nome dele  Moyes. Austin, quero lhe apresentar Dave Nelson, oh, e ela  a Kim.
Os trs jogadores de pquer puseram-se de p assim que eles entraram. Com sete pessoas dentro, a sala parecia mais acanhada do que nunca, e no havia acomodao
para todo mundo. Kim deu uma olhada em volta sem se preocupar em disfarar o seu descaso, fitando em seguida Dave, ao mesmo tempo em que dava de ombros, sorridente.
 Parece que interrompemos uma festa.
Luke apressou-se em dizer:  J vamos indo, Dave. Vou providenciar algumas camas. Depois voc me procura l no clube?
 Sim, e muito obrigado.
Todos se despediram e Dave acompanhou os trs engenheiros at a escada, na entrada. Kim murmurou algo relativo  gua quente e  roupa limpa e foi at a cozinha
dizer a Patrick que de modo algum o servio daquela noite tinha chegado ao fim. No quarto ela escolheu um par de calas recm-lavadas e uma blusa limpa e permaneceu
durante alguns minutos com a roupa na mo, tentando pr alguma ordem em suas emoes. O fato de Karen ter vindo  mina no queria dizer necessariamente que Dave
havia sugerido a visita. Pelo contrrio, ele obviamente no esperava v-la diante da porta de sua casa. Mas isto no queria dizer que ele no tivesse ficado contente
em v-la. Ele se mostrara muito fechado nas ltimas semanas,  semelhana de algum com alguma coisa  ou uma pessoa  em mente. Talvez o fato de ter visto Karen
no ltimo fim de semana o fizera compreender o quanto ele tinha sido atrado por ela. Era muito caracterstico dele fingir indiferena na presente circunstncia.
Por outro lado, se isto era verdade, ele dificilmente continuaria com seu plano de lev-la, Karen, em sua companhia, quando viajasse para o litoral, no  mesmo?
Desolada, teve de reconhecer que quando se tratava de Dave nada era seguro.
Karen aceitou a roupa com um ar de quem tinha de tirar o melhor partido de uma situao, por pior que ela fosse. Kim acompanhou-a at os fundos e mostrou-lhe como
lidar com o chuveiro, antevendo sua reao.
  um tanto precrio  comentou , mas funciona perfeitamente. Vou lhe buscar meu roupo, assim voc poder se vestir no quarto quando terminar.
 Eu me recuso a entrar neste lugar  replicou ela imediatamente.  S Deus sabe os bichos que devem estar a dentro!
Por um momento Kim hesitou em avis-la a respeito dos escorpies, mas decidiu que no o faria. Patrick recebera ordens de inspecionar cuidadosamente o banheiro antes
de comunicar que estava pronto para ser ocupado. Foi buscar o roupo azul e depois levou a roupa suja de Karen para a cozinha.
 J est na hora de voc ir para casa, Patrick  disse com firmeza.  Encha novamente a caixa depois que a senhorita Karen terminar, que eu cuido do caf e da comida.
Os visitantes j estavam de volta  sala de estar quando Kim entrou com a bandeja. Austin usava uma cala de Dave, que parecia se ajustar bem, pois ambos tinham
a mesma altura, mas a camisa era um tanto folgada. Tinha traos finos e regulares, cabelos longos, nos quais o sol pusera reflexos alourados. Kim imaginou que ele
tivesse uns vinte e sete anos e achou-o um tipo um tanto diferente dos homens que usualmente se encontravam naquele pas.
 Ento est decidido  disse Dave em tom conclusivo.  Austin e eu vamos dormir no clube, e vocs duas dividem a casa. Acho que levaro dois dias para pr a estrada
em ordem, portanto vocs vo ter que se acostumar com o desconforto enquanto esperam.
 Oh, no  to mau assim  replicou Karen, tranqilamente.  Vai ser uma experincia e tanto. Vamos ter assunto para falar quando voltarmos. Voc j recebeu alguma
visita na mina, Dave?
 Ningum seria suficientemente insano a ponto de pensar nisto.  Ele sorria, mas com uma certa tenso na voz.
 Ns no tnhamos a inteno de ficar.
 Obviamente, seno teriam trazido alguma coisa com vocs. J que vocs esto aqui por um tempo, vamos aproveitar o quanto pudermos.  Havia ironia no olhar que
lanou para Kim.  Tenho certeza de que sua companhia ser apreciada.
 Existe alguma maneira de avisarmos o que aconteceu?  perguntou Austin, preocupado.  Pode ser que organizem equipes que saiam  nossa procura, e isto no faz
sentido.
 J foi providenciado.  Dave foi incisivo.  Tome caf e pare de pensar em problemas inexistentes.
Austin enrubeceu.  Desculpe. Isto apenas me passou pela cabea.  Sentou-se ao lado de Kim no sof e esboou um sorriso.  Acho que estamos lhe dando muito trabalho.
 Muito pelo contrrio  ela replicou prontamente.  As visitas de qualquer tipo so to raras aqui. Voc trabalha com Ralph Tait?
 Sou sobrinho de Bea, filho do irmo dela. Cheguei h uma semana atrs e vou passar aqui um ms de frias. H muito tempo que ela vinha insistindo para que eu viesse,
mas a oportunidade ainda no tinha surgido.  Acrescentou com franqueza:  No tenho viajado muito, a no ser pela Inglaterra e Frana, apesar de viver prometendo
a mim mesmo que um dia iria para mais longe.
 Pelo jeito voc est cumprindo a promessa. Qual  sua impresso da frica at agora?
 Bem, eu no gostaria de viver aqui permanentemente, mas no poderia deixar de vir.  um continente fascinante. So culturas to diferentes. Mas eu no me envergonho
de admitir que no  exatamente o que eu esperava.  Seu sorriso era envolvente.  Creio que no fundo eu ainda a via como uma selva inexplorada, povoada por tribos
brbaras.
 Austin  um romntico nato  disse Karen, mas sem malcia.
 Acho que ficou muito desapontado por no viajarmos at aqui a p, acompanhados pelos nativos carregando nossas bagagens, e com revlveres na cintura. Eu vivo lhe
dizendo que as zarabatanas e os rostos pintados caram de moda.
 Voc devia convencer algumas tribos do interior sobre isso.  Levantou-se.  J est na hora de irmos. Vocs duas se ajeitam, no  mesmo?
Kim respondeu:  Claro. Vai dar tudo certo.  Desejava sentir-se to segura quanto parecia.
 Ento lhes desejo boa noite. Passe a tranca na porta assim que sairmos.
Ouviu-se o barulho do carro subindo o morro antes que uma delas falasse. Karen foi a primeira a romper o silncio.
 Eu deveria me sentir culpada por expulsar Dave de sua prpria cama.
 Mas no  o caso. As camas l do clube so muito confortveis.  Kim aproximou-se do sof e debruou-se sobre a bandeja.  Mais caf?
 Ainda no acabei o meu, obrigada.  Karen voltou a sentar-se na cadeira, com um cigarro entre os dedos.  Voc est vivendo em uma completa iluso  disse em tom
de conversa.  Dave pode ter concordado com a necessidade de tirar uma licena, por causa de voc, mas no se ponha a imaginar que um simples papel vai ligar vocs
dois para o resto da vida. Eu o conheo h anos. O suficiente para saber que nenhuma mulher poder possu-lo.
 Incluindo voc?  perguntou Kim, sem alterar a voz.
Karen deu de ombros.  Eu jamais haveria de querer possuir um homem.  isto o que me d certa vantagem sobre pessoas como voc. Sou uma pessoa independente e nem
um pouco interessada em me dedicar  vida domstica, portanto, no se ponha a pensar que o que estou dizendo  apenas o resultado de uma frustrao. Eu simplesmente
a estou prevenindo, eis tudo. Com Dave nada dura.  assim que ele .
 Voc fez toda essa viagem s para me dizer isto?
 No.  Por um momento um sorriso aflorou em seus lbios.  Tinha curiosidade de ver como eram as coisas por aqui. Apesar de que matei dois coelhos com uma s cajadada,
pois proporcionei a Austin o gosto da aventura que ele procura com tanta nsia. Ele leva uma vida um tanto tolhida.
Kim apressou-se em dizer:  Eu o achei bem simptico.
 Ah;  sim. Comparado com este seu marido, ele  um anjo.  isto que  estranho nas mulheres, no acha? Ns nos esquivamos de tipos como Austin, por mais que eles
meream. Imagino que isto tenha algo a ver com o desafio. Afinal de contas, lidar com Austin  fcil para qualquer um, mas trazer um homem como Dave Nelson a seus
ps...  Ela riu.  Mas que idia, hein? Tenho de admitir que eu mesma me deixei envolver por ele at certo ponto.
 Mas agora voc no est mais interessada?
 Eu no disse isto Dave pode ser um patife, sob alguns aspectos, mas ainda assim  o homem mais atraente que j conheci. Eu estaria mentindo se dissesse que no
existe mais nenhuma atrao entre ns, ou que com voc fora do caminho as coisas no voltassem a reanimar-se por um momento. Sabe, seu esposo e eu temos algo nico
no relacionamento entre um homem e uma mulher, compreenso. No importa quanto tempo voc consiga ficar na companhia dele, jamais conseguir compreender suas motivaes
mais profundas.
Havia uma dose de verdade grande demais nesta observao para que Kim sequer tentasse neg-la. A nica coisa que ela desejava era que as pessoas parassem de apontar
para ela o que ela j sabia. Levantou-se de repente e comeou a levar os pratos e xcaras para a cozinha.  Vou arrumar sua cama  disse.
Austin chegou na manh seguinte s nove e meia e j as encontrou de p e arrumadas. Haviam tomado o caf da manh h uma hora atrs. Informou-as de que Dave tinha
ido at o local onde ocorrera o deslizamento de terra. No dissera quando estaria de volta.
 E como vamos passar o dia?  perguntou Karen.  Como  que voc normalmente emprega o tempo, Kim, quando o homem da casa no est?
Kim ignorou a ironia.  Trabalho  disse calmamente.  Mas no nos fins de semana. Temos um outro carro. Poderamos dar uma volta pela mina, se vocs quiserem. Domingo
tudo pra.
 O que fazer, no ? Suponho que qualquer coisa  melhor do que ficar sentada em casa. Como  que  o clube, Austin?
  bom.  Ele hesitava em se comprometer.
 Foi feito com o propsito de os funcionrios se encontrarem durante os momentos de folga  disse Kim defensivamente.  Eles se contentam com pouco. Poderamos
almoar l, contanto que voc no se incomode em ser encarada.
 No tenho objees em ser desejada  distncia  foi a resposta petulante.  Espero que voc dirija melhor do que Austin. No gostaria nem um pouco de atolar novamente.
O passeio pela mina dificilmente poderia ser considerado um sucesso. No havia algo que pudesse interessar especialmente a um leigo, e as estradas enlameadas dificultavam
o acesso. A sugesto de Kim, de que eles desistissem e fossem para o clube tomar um refresco, foi aceita com a primeira demonstrao de entusiasmo da parte de Karen,
desde que comeara o dia, apesar de Austin ter jurado que tinha gostado do passeio.
Habitualmente, aos domingos pela manh, o clube era freqentado pelos funcionrios graduados que no tinham se decidido a passar o fim de semana na cidade. Naquele
dia, entretanto, parecia deserto. Kim deixou o casal sentado no bar e foi averiguar o que estava acontecendo, encontrando finalmente um dos garons na sala de jantar.
 Foram todos para a estrada  ele a informou.  Mais rochas desabaram.
 Ento esto todos ocupados em desobstruir os caminhos que levam  civilizao  comentou Karen, quando Kim voltou com as notcias.  Que tal se formos at l e
darmos uma olhada? Eu sinto em mim um interesse enorme pelo progresso.
Kim hesitou, sabendo muito bem que Dave no gostaria da idia de ter meros espectadores  sua volta. No entanto, sentia uma necessidade crescente de ir at l. Alguma
coisa estava errada; sentia isso na pele, como se fosse a premonio de um desastre.
 Tem medo do que o seu marido possa dizer?  caoou Karen.  No se preocupe, eu assumo toda responsabilidade. Ele sabe como eu sou, uma vez que me decido a levar
alguma coisa adiante. Se vocs quiserem, eu guio o carro at l.
Kim decidiu-se.  Obrigada  disse brevemente , mas eu mesma guio.
O porto principal estava escancarado quando chegaram at l, apesar de, como sempre, haver um guarda de planto na guarita. Kim atravessou o porto sem esperar
a permisso e tomou a estrada que levava at o desfiladeiro com a sensao do desastre aumentando a cada minuto que se passava. Depararam-se com uma cena de completa
desordem e confuso. Toda a parte superior da montanha tinha desabado e soterrado a estrada, bloqueando completamente qualquer espcie de trfego. Nas proximidades
do local, onde Kim havia parado o carro, um deslizamento recente havia empurrado uma das mquinas de terraplenagem a bordo do desfiladeiro, deixando-a quase completamente
virada e na iminncia de se despencar por um barranco ngreme e espatifar alguns andaimes de madeira a uns vinte metros abaixo. Nas proximidades havia outras mquinas
de remover terra. porm ningum para control-las. Todos os homens presentes pareciam mais preocupados em impedir a mquina de cair. Alguns estavam empenhados em
providenciar equipamentos e cabos de ao para levant-la, enquanto outros permaneciam em silncio, olhando. Por mais que tentasse, Kim no conseguiu distinguir Dave
no meio deles, apesar de localizar Luke que dirigia toda a operao.
Esquecendo seus companheiros, saiu do carro e correu em direo ao engenheiro, puxando-o pela manga da camisa.  Onde est Dave?  perguntou aflita, e adivinhou
a resposta mesmo antes de ele a encarar com ar compungido.
 Est embaixo dela  disse, acenando para a mquina de terraplenagem.  Ele a guiava quando a terra deslizou e o colheu.
Kim mal podia respirar.  Ele morreu?
 No, mas ficou preso l.  Fez uma pausa, e depois decidiu-se a lhe contar toda a verdade.  Se a mquina se mover mais um pouquinho poder esmag-lo, e do jeito
como ela est, isto pode acontecer a qualquer minuto.
Seu olhar desviou-se dele para a mquina, em seguida para o guindaste e voltou a pousar-se sobre Luke.  Voc tem muitos homens  sua disposio  disse impetuosamente.
 Eles no podem afastar a mquina e tir-lo de l sem esperar por isto?
 No daria certo. Tem que ser levantada de cima. E a coisa precisa ser muito bem feita: vamos ter de passar uma corrente por baixo. No podemos correr o risco de
o gancho se desprender.  Desta vez a pausa que se seguiu encerrava deliberao.  O problema  saber como. Precisamos de algum que passe a corrente por baixo da
mquina e a enganche no lugar exato. Mas acontece que no temos um homem suficientemente pequeno que possa se enfiar l sem fazer com que a mquina desabe em cima
dos dois.
 Dave conseguiu entrar muito bem quando aqueles dois homens ficaram presos  ela comentou pressurosa, e notou um sorriso triste e deprimido em seu rosto.
 S que aqui a situao  diferente. A nica razo pela qual Dave ainda est vivo  porque a maior parte do peso est sendo suportada pela cabine do maquinista,
pelo menos, at agora. Se ela cede, a mquina desaba, mas at agora h suficiente espao para que um homem pequeno e magro passe por baixo, se ele tomar cuidado.
S que, como eu disse, no temos ningum aqui que seja suficientemente pequeno ou magro. Acho que, em vez disto, vamos ter de passar um gancho na corrente.
E correr o risco de romper aquele precrio equilbrio. Ele no precisava dizer isso; a conscincia do fato pairava no ar opressivo. Kim disse com firmeza:  Sou
suficientemente pequena, Luke. Poderia passar a corrente l por baixo.
 Voc?  Ele a olhou com sbita esperana, mas em seguida sacudiu vagarosamente a cabea.  Dave no permitiria.  perigoso demais.
 Dave no est em situao de dizer o que permite ou no  ela replicou, e sua resoluo tornou-se mais firme.  E, a menos que algum aja rapidamente, ele no
ter mais condio de dizer o que quer que seja. Agora quem manda  voc, Luke. Cabe a voc; decidir o que  melhor.
O seu olhar era um modelo de indeciso.  Mas voc j viu como  que a mquina est se equilibrando? Basta um movimento em falso, um s, e ela cai em cima de vocs
dois.
 Eu tomarei cuidado. Diga apenas o que tenho de fazer. Luke deu algumas ordens enrgicas aos homens que trabalhavam com ele, depois foi para a frente da mquina,
agachando-se bem prximo ao cho, pondo a cabea perto do buraco por onde Kim teria de entrar.  Dave, vamos mandar... algum at a para passar uma corrente por
baixo  disse em voz baixa, porm audvel.  Vamos tirar voc da em um minuto.
Kim no conseguiu ouvir a resposta de Dave, mas Luke olhou para ela e balanou a cabea.  Quando voc entrar com a corda, precisa se certificar de que ela deslizar
livremente no momento em que; puxarmos  disse.  Do jeito que Dave est l embaixo voc vai ter que entrar deste lado, levar a corda por cima dele at onde puder,
em seguida entrar pelo outro lado e puxar a corda at o fim. Voc acha que vai conseguir?
 Posso tentar.  Ela estava plida, porm decidida. Ajoelhou-se na terra a seu lado, contente por usar calas que lhe permitiriam deslizar de bruos pelo buraco
adentro com muito mais facilidade do que se estivesse usando um vestido. A extremidade da corda, na qual tinha sido dado um n, de modo que ela pudesse peg-la com
mais segurana, estava em sua mo.  Se eu ficar entalada  disse ela em uma tentativa de mostrar-se bem-humorada  agarrem-me pelos ps e me puxem para fora!
 Kim?  A voz de Dave fez-se ouvir inesperadamente e com bastante fora, vinda debaixo da mquina.  Afaste-se daqui, esta me ouvindo? Luke, tire-a da!
Kim olhou preocupada para Dave antes de deitar-se de bruos e enfiar lenta e cuidadosamente a cabea e os ombros no espao estreito entre a mquina e o cho. Conseguiu
distinguir a cabine atravs da qual teria de passar a corda e o corpo de Dave. Ele estava deitado de lado, e o brao esquerdo encontrava-se preso at o cotovelo
na janela da cabine. Seu rosto mostrava as marcas de uma tenso que ela desconhecia, e a respirao parecia dificultosa. Passaram-se alguns segundos antes de ela
compreender que o som persistente de algo que gotejava provinha do sangue que empapava a manga de sua camisa e caa assustadoramente em grandes gotas.
Havia muito pouco espao para manobrar. Kim no ousava apoiar-se na mquina a fim de poder entrar mais, porm conseguiu avanar alguns centmetros apoiando os cotovelos
no cho. A corda deslizava por entre seus joelhos e Luke a desdobrava cuidadosamente,  medida que ela avanava. Passaram-se cinco minutos interminveis, at que
ela alcanasse uma posio que lhe permitisse passar a corda por cima da cintura de Dave.
 Ser que voc consegue impedir, com a mo livre, que a corda se desenrole quando eu sair?  ela perguntou baixinho. Limpou o suor do rosto com o colarinho da blusa,
mantendo as pernas imobilizadas no espao confinado. Ouvia com uma prece silenciosa nos lbios o barulho surdo provocado por aquela estrutura de metal toda retorcida,
e seu corao disparava. Tomara que agente mais um pouco!
Dave deslizou o brao e agarrou com firmeza a extremidade da corda. Kim sentiu que seus dedos estavam frios. Mostrava-se extremamente plido e a mandbula contrada
era o sinal da dor que sentia.  Voc no devia estar aqui  murmurou.  Eu disse a voc que se afastasse.
 Eu sei.  Kim pousou por alguns momentos sua mo sobre a dele e sentiu os dedos que apertavam.  Mais tarde voc me pune por este ato de rebeldia. Daqui a pouco
eu o vejo do outro lado.
Recuar foi ainda mais difcil do que entrar. Quando finalmente se viu ao ar livre, estava ensopada e exausta pelo esforo sob aquele calor tremendo, mas tinha de
completar o resto da tarefa.
 Descanse um pouco  aconselhou Luke, preocupado com sua aparncia.  Espere uns minutos antes de entrar novamente.
 No h tempo a perder.  Levantou-se inquieta.  O cabo no vai agentar por muito mais tempo, e do jeito como o brao de Dave est preso...  Ela no terminou
a frase, hesitando em pr em palavras o que inevitavelmente aconteceria se o peso da mquina de terraplenagem se abatesse sobre Dave.  H mais unia coisa, Luke.
Voc acha que eu posso puxar a corrente quando eu estiver do outro lado? Ela poder se enroscar facilmente na janela da cabine se no estiver algum l para gui-la.
  muito pesada  ele disse, hesitante.  E voc vai ter de puxar deitada de bruos.
 Muito bem, ento primeiro eu passo a corda, em seguida volto para cuidar da corrente enquanto vocs puxam daqui de fora. Uma vez que ela passe em volta da cabine
tudo dar certo.
Depois disto os minutos pareciam atropelar-se um ao outro. Quando mais tarde pensou no assunto, Kim no conseguiu recordar os detalhes exatos de como entrou naquele
vo exguo para segurar a corrente, enquanto ela era enfiada por Luke e seus auxiliares, e nem como conseguiu gui-la e coloc-la na posio correta, at finalmente
voltar ao ar livre. A nica coisa de que se lembrava com alguma clareza foi o tremor que se apoderou de suas pernas, enquanto Luke a ajudava a pr-se de p, e o
espetculo reconfortante da pesada cadeia sendo passada pelo gancho. Sobreveio ento a tenso de olhar o guindaste ser acionado, o ranger do metal enquanto a frente
da mquina levantava-se lentamente no ar, at que houvesse espao suficiente para que dois homens socorressem Dave, tirando-o de sob a barra que o havia protegido
com tanta segurana. Alguns segundos aps se ouviu um rudo espantoso; e o guindaste no suportando o peso descomunal que levantava, arrebentou e precipitou-se com
a mquina no desfiladeiro.
Dave ainda estava consciente quando o estenderam na maca. O mdico da mina aplicou-lhe uma injeo de morfina antes de rasgar a camisa manchada de sangue at acima
do cotovelo. Kim notou que seu rosto se tornava tenso no momento que viu os ferimentos, e lutou para no formular a pergunta que lhe veio involuntariamente aos lbios.
Luke surpreendeu o olhar de Kim, e na expresso de seu rosto estava estampada sua preocupao. Ele j tinha visto antes ferimentos como aquele.
A morfina j tinha funcionado no momento em que eles se preparavam para colocar a maca na parte traseira de um dos carros. Aqueles olhos cinza pareciam perdidos,
no momento em que Kim entrou no carro e sentou-se ao lado dele; havia uma vulnerabilidade naquela boca que fez com que Kim sentisse vontade de encostar seus lbios
nos dele, no em um mpeto de paixo, mas sim de solidariedade. Dave no era um tolo. Ele compreendia as implicaes contidas no comentrio evasivo do doutor Selby
e nenhuma quantidade de morfina iria amortecer aquela espcie de temor. A mo que, no tinha sido atingida repousava na maca, a alguns centmetros da mo de Kim,
a qual, sentada no banco estreito, no fez a menor tentativa de toc-la. Algo dentro dela lhe dizia que naquele momento ele no queria ser tocado  nem por ela,
nem por ningum mais. Gente como ele lutava s contra o medo. Ela permaneceu sentada em silncio, contemplando o rosto sujo de terra do homem a quem ela havia desposado,
enquanto se deslocavam da mina at o hospital.
Ainda esperava por notcias quando Luke veio juntar-se a ela na pequena ante-sala, passado algum tempo. Aceitou agradecida o cigarro que ele lhe ofereceu, e enquanto
fumava repousou a cabea de encontro  parede, de olhos cerrados e preocupada. Dave iria superar aquilo tudo, com certeza. Ele tinha de superar. O trabalho era sua
vida  o nico tipo de vida que ele conhecia ou queria. Privado dele seria um homem pela metade.
 Voc o ama, no  mesmo?  Luke estava comovido.  Eu achei que voc tivesse casado com ele apenas por interesse.
 No tenho certeza se amor  a palavra certa  disse.  Pelo menos no do modo como sempre o entendi. Como  possvel amar algum a quem voc sequer conhece, Luke?
 Nunca pensei no assunto  ele admitiu.  Sou apenas um homem. So vocs, mulheres, que sempre ficam confusas em relao a isto. Para dizer a verdade, nunca entendi
seu sexo. Vocs no podem ter um simples relacionamento; sempre tem de haver complicaes.
Ela estava olhando para ele naquele momento, estudando seus traos marcados, como se nunca os tivesse visto antes.  Voc acha que  isto que estou fazendo, complicando
as coisas?
 Sim  ele disse de chofre.  Voc acaba de arriscar sua vida por esse homem. Se isto no  amor, ento no sei o que . Se eu tivesse encontrado uma mulher capaz
de fazer isto por mim. eu me sentiria muito seguro a respeito de seus sentimentos.
Ela disse em voz baixa:  Voc acha que Dave ter certeza dos meus em relao a ele?
Ele hesitou.  No necessariamente. H talvez uma ou duas coisas que voc precisa saber a respeito dele, antes que a coisa v mais longe. So coisas que aprendi
a respeito dele lendo nas entrelinhas. Ele nunca teve um lar ou uma famlia. Seus pais morreram em um desastre quando tinha uns dois anos, e passou toda a vida em
uma srie de internatos ou com famlias adotivas, at que tivesse idade suficiente para se defender sozinho. Eu me lembro de ele ter me contado uma vez que aps
ter vivido com duas famlias ele no ousava ficar gostando demais das pessoas com quem morava de medo de ser levado embora mais uma vez. Crescer desse jeito deve
surtir algum efeito sobre um homem.
 Voc est querendo dizer que Dave no  to duro como parece?
  por a. Eu diria que ele tem de se sentir absolutamente seguro do afeto de uma mulher por ele, antes de dar um passo em sua direo. Principalmente agora que
isto aconteceu.
 Voc tem tanta certeza assim de que ele vai perder o brao?
 Digamos que no estou contando com nada melhor. E se ele perder de fato, aposto que a primeira coisa que vai fazer quando voltar a si  mand-la embora. Somente
voc pode decidir se o que sente por ele  suficientemente forte para obrig-la a ficar, mas acredite em mim, Kim, ele precisa de voc. Ele se tornou um homem diferente
nestas duas ltimas semanas. Pela primeira vez na vida teve um lar para onde pudesse voltar aps um dia de trabalho, uma mulher que compartilhasse esse lar com ele.
Isto significou muito para ele, por mais que tentasse disfarar.  Fez uma pausa, sem deixar de encar-la.  Voc acha que poder encarar o inferno em que ele 
capaz de a colocar, antes que voc o vena?
 No tenho certeza  confessou ela, sentindo-se infeliz.  Luke, no tenho a menor certeza.
 Ento  melhor voc se decidir. E rpido. Mas cuidado para no cometer erros. Uma coisa de que ele no vai precisar  piedade.
Ela sabia que ele tinha razo. Isto era algo que tinha de resolver por si mesma. Ela amava Dave suficientemente para aceitar o confronto inevitvel com seu orgulho
e independncia, se o pior acontecesse, ou seria melhor e mais justo para os dois se ela optasse pelo caminho fcil da retirada e consentisse na alternativa que
Luke tinha tanta certeza lhe seria oferecida? O que ela sentia por Dave tinha, afinal de contas, algo a ver com o amor?
No precisou de muito para conseguir a resposta. Tudo que ela tinha a fazer era relembrar o momento em que Luke lhe dissera que Dave estava preso debaixo da mquina
de terraplenagem e as emoes que se tinham apoderado cegamente dela nos segundos que antecederam a notcia de que ele ainda estava vivo. Naquele momento no houve
dvidas ou hesitaes de sua parte. Ela sentiu unicamente a necessidade de chegar at ele, de salv-lo.
Mas nisto tudo havia muito mais do que suas emoes, pensou. No importava o que Luke achasse dos sentimentos de Dave em relao a ela; isto no queria dizer que
ele estivesse certo. E se de fato Dave lhe dissesse para ir embora, ela teria coragem de recusar, carregando com ela aquela dvida?


CAPITULO VIII

Parecia ter se passado horas antes que o doutor Selby viesse finalmente ao lugar onde esperavam. Ele parecia cansado e tenso, e havia nele um estranho ar de reticncia
no momento em que olhou para Kim.
 Ele vai se recuperar  disse, rompendo o silncio prenhe de expectativas.  Ele quebrou o brao e o machucou bastante, mas no  to grave como eu inicialmente
temi. Acordou e est pedindo para v-la.
Dave estava reclinado sobre dois travesseiros no momento em que Kim entrou na enfermaria acanhada e que continha meia dzia de camas. Seu rosto estava plido, sob
o queimado do sol, mas os olhos cinza se mostravam to vivos como nunca. O brao esquerdo estava engessado do cotovelo para baixo e apoiado em uma espcie de tipia.
 Fiquei contente ao saber das boas novas  ela disse.  O doutor Selby me comunicou que voc queria me ver.
 Sim.  Falava em tom baixo, porm firme.  Eu ainda no lhe agradeci por ter salvado minha vida.
 De um modo ou de outro eles teriam tirado voc de l  ela respondeu, insegura.  Como  que est se sentindo?
 Sobreviverei  Ele a encarou atentamente.  No preciso dizer-lhe que isto muda todos os planos, naturalmente. Ficarei aqui at meu contrato terminar, mas no
h razo para voc esperar mais tempo. H um vo amanh  tarde. Luke arranjar um helicptero que a conduzir at o aeroporto, e eu lhe darei um cheque visado at
que a gente acerte tudo. No fique preocupada.  Iro cuidar de voc.
 Voc est me indenizando?  Kim ficou espantada com seu prprio autocontrole.
 Se voc quiser encarar as coisas desta maneira.
 Suponha que eu no queira ir embora?
Seus olhos se apertaram.  O que  que voc est querendo?  Mais dinheiro?
 Como voc mesmo no sabe o quanto est pensando em me oferecer, eu dificilmente poderia pedir mais  ela retrucou.  Voc... prometeu viajar comigo para o Sul
antes de regressarmos  Inglaterra.
Ele indicou o brao quebrado.  Deste jeito?
 Eu posso guiar.
O jeito como ele aspirou o ar foi ouvido com toda nitidez no silncio do quarto.  Se voc acha que preciso de uma mulher para cuidar de mim est redondamente enganada.
No que me diz respeito est tudo acabado entre ns, garota dos olhos verdes, portanto quanto mais cedo voc for embora, melhor. De qualquer maneira, iria terminar
dentro de uma ou duas semanas.
 Eu... eu no quero ir embora, Dave. Desse jeito, no. No podemos seguir o plano original e regressarmos juntos  Inglaterra?
No havia o menor trao de abrandamento nos olhos cinza.  No I  ele disse peremptoriamente , no podemos. Acabo de lhe dizer que no a quero mais por aqui.
 Mas s porque voc quebrou um brao? Isto no me parece...
 O brao  apenas uma parte da histria.  Ele retesou a mandbula e comprimiu os lbios.  Voc no consegue enfiar na cabea que eu j me cansei de tudo isto?
Claro que eu disse que viajaramos ao Sul. Isto foi antes de...  Fez uma pausa e prosseguiu com deliberao.  Antes de eu voltar a encontrar Karen. Assim que eu
tirar o gesso qualquer plano que eu venha a fazer a incluir. Agora voc est suficientemente esclarecida?
Kim levantou o queixo e o orgulho lutava para esconder a dor que sentia.  Voc no podia ter sido mais claro. No se preocupe, Dave, eu no lhe trarei mais problemas.
No precisa sequer voltar a me ver. Espero que ambos achem o que esto procurando.
Deu as costas com toda a dignidade de que se sentia capaz e saiu da enfermaria. Estava tudo acabado. Dave no a queria. Luke se enganara.
 Kim?  Luke veio em sua direo no momento em que ela tropeou no nico degrau da escada que levava  sala onde ela o tinha deixado esperando.  O que foi? Que
aconteceu?
 Onde est Karen?  ela perguntou, insegura.
 Sugeri que ambos voltassem para casa  ele respondeu, e surgiu um lampejo sbito de compreenso em seus olhos.   isto que ele est fazendo, usando Karen como
desculpa para obrig-la a ir embora?
 No  uma desculpa.  uma razo.  a Karen quem ele quer, no a mim.  Kim deu um sorriso contrafeito.  Voc estava enganado, Luke. Dave no precisa de ningum.
Nunca precisar. Ele foi suficientemente claro a este respeito.
Luke permaneceu em silncio por um longo momento e uma grande variedade de expresses passavam por seu rosto. Deu de ombros, desalentado.  Sinto muito  disse.
 Eu seria capaz de jurar que o conhecia melhor. Vamos, eu a acompanharei at a casa.
Karen veio at a porta ao ouvir o carro, com Austin atrs.
 E ento?  perguntou, no momento em que Kim subia os degraus, com Luke ao lado.  O que o mdico disse?
 Ele vai ficar bom. Quebrou o brao, s isso.  Kim passou por ambos, percebendo a curiosidade no olhar de Karen.  No h razo pela qual voc no possa ir v-lo,
se quiser. Ele j voltou a si.
 Voltou?  Karen ainda no se sentia segura a respeito do que estava ouvindo.  Ele disse que queria me ver?
 Sim.  Havia muito controle na voz de Kim, enquanto acrescentou:  Viajo amanh cedo. Vou embora para a Inglaterra. Deixe-me providenciar a comida. Afinal, nem
chegamos a almoar.
Luke seguiu-a at a cozinha, apoiando a mo contra o batente da porta de um modo que a deixou comovida.  Voc vai mesmo embora?  ele perguntou.  Assim, sem mais
essa?
 E que mais eu devo fazer?  Olhou para ele, abalada.  Ele no me deixou nenhuma outra escolha. Quer que eu me v o mais cedo possvel. Por falar nisso,  voc
quem dever me acompanhar at o aeroporto amanh, e sairemos daqui de helicptero.
 Bem, talvez eu no esteja de acordo.
 No vai adiantar nada. Se voc se recusar a me levar ele simplesmente conseguir com que algum faa isto por ele. Prefiro ir com voc.
Ele a olhou, desamparado.  Eu simplesmente no entendo. Se tivesse acontecido alguma coisa muito sria com o brao dele eu teria esperado por isto, mas no como
as coisas esto.
  muito simples  disse ela.  Dave est cansado de mim e quer romper. O acidente trouxe as coisas  tona um pouco mais cedo, eis tudo. Eu sabia desde o incio
que no era um arranjo permanente. Dave no est preparando nenhuma surpresa. Fui eu que mudei.
 O que  que voc far quando voltar?
 No tenho certeza. Aceitarei sua oferta de dinheiro at conseguir encontrar um emprego, acho. Penso que no me resta outra escolha. Mas eu o pagarei at o ltimo
centavo  acrescentou com altivez.
Luke esboou um gesto de exasperao.  Sabe de uma coisa? Voc  to orgulhosa quanto ele, e igualmente teimosa! Aposto que voc nunca sequer tentou dizer-lhe como
se sente em relao a ele.
 Tentar?  Kim o encarou, e seus olhos verdes brilhavam intensamente.  Luke, ele no quer nem saber! H uma nica coisa na qual ele est interessado, que  se
livrar de mim o mais cedo possvel. Ele me odeia por ter sido eu quem levou a corrente por debaixo daquela maldita mquina. Acho que ele preferiria morrer esmagado
l a dever o que quer que fosse a uma mulher.
 Ento j  tempo de ele modificar suas idias  foi a resposta brusca, e Luke endireitou o corpo.  Com brao quebrado e tudo, ele vai engolir algumas verdades!
 No, por favor.  Ela ps a mo em seu brao, procurando det-lo.  Deixe isso para l, ouviu? Por mim.
Fez-se uma pausa e ele sacudiu a cabea, tenso.  Est certo, se isto significa tanto para voc.  melhor eu ir tomar providncias para que o helicptero esteja
aqui de manh. E quanto aos outros dois? Acha que eles vo querer aproveitar e ir junto? Vai levar uns dois dias at que a estrada d passagem novamente.
 No tenho certeza.  melhor voc lhes perguntar.  Deu-lhe novamente as costas, procurando um cinzeiro.  Fique e tome um caf conosco.
Austin ficou contente com a oportunidade de regressar ao litoral, mostrando sem o menor disfarce que j se cansara de tanta aventura. Karen tambm demonstrou o desejo
de gozar dos refinamentos da hospedagem dos Taits. No achou necessrio acrescentar que ela poderia voltar para a mina quando quisesse. A complacncia de seu sorriso
enfatizava o fato com suficiente clareza. Ficou de p quando Luke se levantou para ir embora, depois que acabaram de comer, e pediu a Kim que lhe emprestasse o carro
a fim de se dirigir at o hospital.
 Acho que devo dar uma olhada em nosso invlido antes de partirmos  disse em tom ligeiro.  Talvez amanh de manh no haja tempo. Talvez voc no se incomode
em me orientar pelo caminho certo, Luke?
 Claro  concordou Luke, enquanto Kim lhe entregava as chaves.  Vamos.
Austin manteve os olhos fixos no prato por alguns momentos, um tanto ruborizado, enquanto os outros se afastavam. Kim sentiu pena dele. Ele tinha sido jogado no
meio de uma situao que nem sequer tinha condies de comear a compreender, e a culpa no era sua. Ela podia compreender seu desapontamento e sua incerteza sobre
que atitude tomar. Decidiu que a nica maneira de desanuviar o ambiente seria expor a situao com toda clareza.
 Sinto muito por voc ter sido envolvido em toda esta histria, Austin  disse calmamente.  Mas acho melhor voc tomar conhecimento do que se passa dentro de uma
perspectiva correta. De qualquer modo Dave e eu iramos nos separar em breve. Nas atuais circunstncias pareceu mais sensato rompermos agora.
 Voc no precisa me explicar nada  ele disse, encarando-a finalmente.  Sei que no sou uma pessoa muito experiente, e no vou fingir que entendo o que se passou
entre voc e Dave. Mas o que eu percebo  que voc est deixando Karen passar por cima de voc. Ela me disse a caminho daqui que pretendia fazer com que Dave voltasse
com ela, mesmo que fosse pelo prazer de tir-lo de voc. Ela na verdade no gosta dele. De verdade. Sinceramente, no acredito que ela seja capaz de querer alguma
coisa ou algum por mais tempo do que levou para consegui-lo. Ela  muito... egosta.
Kim deu um sorriso plido.  E voc  uma boa pessoa, Austin.  capaz at de estar certo em relao a Karen, s que ela no foi a causa verdadeira de nossos problemas.
A verdade  que simplesmente Dave e eu no combinamos. Seremos muito mais felizes separados.  Propositadamente mudou o tom de voz, tornando-o despreocupado.  E
depois de tirar esta pedra do caminho, vamos esquecer o assunto e tomar mais caf.
Estavam falando do tipo de vida que Austin levava na Inglaterra quando Karen voltou, depois de algum tempo. Ela de certo modo parecia diferente, pensou Kim, apesar
de no poder detectar exatamente como. "Sim, Dave estava muito bem", informou a Kim. Disse isto de uma maneira distrada, como se seus pensamentos estivessem em
outro lugar. Austin provavelmente tinha acertado em cheio ao delinear o carter de Karen, refletiu. Agora que tinha vencido, Karen comeava a perder o interesse
na conquista. Ela achou que iria se sentir contente pelo fato de que Dave, provavelmente, iria se enredar nas prprias malhas, mas mas isso no aconteceu. Seu nico
consolo consistia em saber que quando era preciso lidar com as emoes em profundidade ele e Karen faziam um bom par. Nenhum deles se magoava seriamente. Naquele
momento este fato chegava a provocar inveja.
Choveu durante a noite toda, amainando somente pela manh. O cu permaneceu encoberto por uma hora ou mais, e o trovo ribombava  distncia; de repente, como que
por milagre clareou Quando chegou a hora de Luke vir busc-los, a lama vermelha da clareira j estava endurecendo novamente, sob os raios de sol implacvel. Kim
no olhou para trs enquanto o carro subia o morro acima, distanciando-se da casa onde ela vivera durante quase um ms. Isto tudo pertencia a um momento de sua vida
que ela ia expulsar de sua mente para sempre  se  que conseguiria. Estava voltando para casa.
O helicptero j estava esperando por eles na pequena clareira ao lado do porto principal. O corao de Kim disparou quando ela reconheceu o piloto, e foi com certa
dificuldade que manteve um sorriso enquanto se aproximavam do aparelho. Ele lanou-lhe um olhar de curiosidade ao ajud-la a subir e sentar-se a seu lado, mas para
grande alvio seu no fez o menor comentrio sobre seu encontro anterior. Luke subiu aps ela e correu a porta, ajeitando-se no banco traseiro enquanto o motor era
ligado. De repente pairavam no ar, voando em direo ao desfiladeiro. O conjunto de edificaes e as grandes extenses de terra escavada eram deixados rapidamente
para trs, at dar lugar  floresta.
J voavam havia alguns minutos, quando finalmente Jerry falou.
 No esperava t-la como passageira hoje  disse em voz baixa a Kim.  Est de volta, no  mesmo?
 No  respondeu, consciente de que Karen estava ouvindo, sentada atrs deles.  No, no estou voltando.
Ele a fitou, notando as olheiras sob seus olhos e a tenso ao redor da boca.  Voc no me parece ser daqueles tipos que fogem quando um homem est na pior  ele
disse inesperadamente.  Depois do que aconteceu a Dave eu acharia que voc gostaria de ficar perto dele.
 Ele somente quebrou o brao  ela retrucou, defendendo-se.
  mesmo?  Ele parecia surpreendido.  No foi o que eu ouvi. Um dos rapazes com quem eu conversava h alguns momentos achava que o estado dele no era nada bom.
Disse que o assistente do mdico tinha lhe contado que ele poderia piorar de repente.
Kim sentou-se muito ereta e o corao disparou.  Ele deve ter entendido mal.
 Talvez. Ele, no entanto, parecia estar bastante seguro do que dizia.
O instinto levou Kim a voltar a cabea at que seus olhos "se depararam com os de Karen. Esta sustentou o olhar sem pestanejar, mas sem conseguir disfarar completamente
a expresso que passou por seu rosto.
 Voc sabia, no  mesmo?  disse Kim com toda calma.  Foi por isso que voc estava to estranha quando voltou para casa ontem  noite. Ele lhe contou a verdade.
 No foi ele; foi o doutor Selby.  Havia indiferena no tom com que ela falava.  Se voc quer mesmo saber a verdade, eu nem cheguei a ver Dave. No fazia muito
sentido. No tenho a menor inteno de me prender a um invlido.
A crueldade de suas palavras mal se fez notar; foi o que estava por detrs delas que deixou Kim fora de si.  Dave jamais ser um invlido  gritou.  No importa
o que acontecer, isto ele jamais ser!  Voltou a concentrar-se em seus pensamentos, recusando-se a parar e examinar o que estava a ponto de fazer, sabendo unicamente
que teria de faz-lo.  Jerry, voc quer me levar de volta? Por favor.  importante.
Ele manobrou mal ela tinha acabado de completar a frase, dando um giro amplo que os colocou novamente em direo  mina.  Isto vai atrapalhar minha prxima viagem
 disse, sorrindo , mas diabos que a carreguem! Direi que tive de fazer um conserto no motor!
Estavam de regresso  mina em alguns minutos, mas no entanto, para Kim, o percurso de volta pareceu levar um sculo. Ainda no era nada certo que Dave a queria,
mas o prprio fato de que ele obviamente tinha dito ao doutor Selby para divulgar uma informao falsa a respeito de seus ferimentos exigia uma explicao. O seu
orgulho talvez fosse o nico motivo que ele necessitava para mand-la embora. Dave era incapaz de encarar a possibilidade de t-la a seu lado s por uma questo
de piedade. E no seria menos difcil convenc-lo de que a piedade no tinha infludo no fato de ela voltar. As barreiras que ele levantara duravam h muito tempo,
para serem removidas de um dia para outro.
Luke desceu do helicptero com ela, assim que pousaram, retirando sua mala. Kim despediu-se rapidamente dos dois passageiros e recebeu de Karen em resposta um breve
levantar de ombros.
 Boa sorte  disse Austin com sinceridade.  Espero que tudo acabe dando certo.
Kim tocou sua mo e sorriu para o piloto.  Obrigada, Jerry.
 No h de que  ele respondeu.
O helicptero j havia decolado no momento em que chegaram at o carro. Kim abanou a mo e viu Austin responder. Logo perderam-se de vista e Luke ligou o motor,
subindo pela estrada que levava ao hospital.
 No vai ser nada fcil  ele disse em voz alta, expressando os pensamentos de Karen.  Ele vai gostar de ver voc de volta, porm no admitir.
 Eu no ligo  ela disse.  Ele pode dizer o que quiser. Desta vez eu fico.
Luke sorriu.  Isto  que !
O doutor Selby estava na sala de tratamento tirando o contedo de sua valise. Olhou para Kim com alguma surpresa, quando ela surgiu na porta, e olhou para o relgio.
 Pensei que voc tivesse ido embora  disse.  No vieram busc-la?
 Sim.  Kim decidiu que mais tarde haveria tempo para explicaes. No momento a nica coisa que ela desejava era esclarecer a situao.   verdade que Dave corre
perigo de perder o brao?
A expresso do mdico alterou-se.  Quem lhe disse isso?  perguntou.
 No importa quem foi. S quero saber se  verdade.
Fez-se uma breve pausa, ele suspirou subitamente e assentiu.  Sim,  verdade; ou pelo menos existe a possibilidade. Mesmo na melhor das hipteses,  duvidoso que
ele consiga se servir apropriadamente do brao. Os nervos foram seccionados. Fiz o que pude, mas...  Deixou o resto no ar.  No gostei de fazer o que fiz, mas
 que ele no queria que voc soubesse a verdade. Pessoalmente achava que ele estava errado em esconder o fato de voc.
 O senhor contou para Karen, a jovem a quem conheceu na noite passada.
 Tambm instigado por Dave. Ele me pediu que a detivesse antes que ela pudesse entrar na enfermaria e lhe contasse exatamente o que estava se passando. Disse que
era a maneira mais segura que conhecia de livrar-se dela.
 Percebo.  Kim tentou acalmar os nervos. As coisas ainda no tinham chegado ao fim.  Tudo bem, se eu for l dentro v-lo?  indagou.
 Como no?  o mdico sacudiu a cabea, preocupado.  S que eu no arriscaria adivinhar como ele reagir quando a vir. Duvido de que haja algum que saiba como
trabalha a mente de Dave Nelson!
Kim esperava que houvesse este algum. O julgamento de Luke era a nica coisa em que ela punha toda a sua f.
Um dos africanos estava a ponto de entrar na enfermaria com uma jarra de caf. Kim tirou-a de suas mos, indicando-lhe que fizesse silncio, enquanto abria a porta.
Dave estava prximo  janela, dando as costas para a porta  Estava vestido e com o brao esquerdo apoiado na tipia. No se voltou quando ela entrou, simplesmente
indicou com a cabea a direo da mesa de cabeceira.  Pode deixar a, sim?
Com o corao aos pulos, Kim aproximou-se e pousou a jarra sobre a mesa de cabeceira. Ao fazer este gesto sua cabea e braos tornaram-se visveis para Dave. Ele
se voltou rapidamente e durante um momento bastante longo fez-se no quarto silncio completo, enquanto ele a fitava. A expresso dos olhos cinza alterou-se to rapidamente
que Kim no teve certeza de ter notado alguma mudana. Ento, de repente, as barreiras voltaram a levantar-se e foi impossvel ler seus pensamentos.
 O helicptero levantou vo h vinte minutos  ele disse bruscamente.  Por que  que voc no foi?
 Eu fui, sim.  Kim conseguiu no demonstrar o quanto estava tremendo.  Pedi a Jerry que me trouxesse de volta.
 Por qu?  A pergunta foi incisiva.
 Devido a algo que descobri. Algo que Karen confirmou para mim.  Fez uma pausa.  Dave, eu tambm tenho o direito de saber a verdade. O que voc obrigou o doutor
Selby a fazer foi injusto, tanto para ele quanto para mim.
A mandbula dele retesou-se subitamente.   uma questo de opinio. De qualquer modo, no faz a menor diferena, a no ser que voc criou mais problemas ao voltar.
Agora vamos ter de chamar novamente Jerry Brice.
 Hoje no d. Ele est com o tempo todo tomado.
 E da? A companhia tem outros aparelhos.  Apoiou-se pesadamente de encontro  moldura da janela.  Uma coisa  certa, aqui voc no fica. Eu j lhe disse uma
vez para ir embora.
 Voc tem medo de no poder lidar comigo s com um brao?  ela perguntou com firmeza, e viu seus lbios se comprimirem.
 Claro  disse ele   isso mesmo. Posso muito bem sentir pena de mim mesmo sem a sua contribuio.
 Oh, no se preocupe, no tenho a menor inteno de sentir pena de voc. E por que sentiria? O doutor Selby disse que no  cem por cento certo que voc v sofrer
efeitos negativos em relao ao brao e, mesmo que acontecesse o pior, voc aprenderia a fazer com um s brao o que muitos homens s conseguiriam fazer com trs!
O problema com voc, Dave Nelson,  que voc sempre suspeita dos motivos dos outros. J lhe passou pela cabea que eu poderia querer ficar com voc por uma razo
bem diversa?
Seus lbios se comprimiram.  Tal como?
 Tal como o fato de que eu talvez esteja apaixonada por voc  ela disse, comovida.  E no me olhe assim. Acontece que  verdade. Eu no queria am-lo. S que...
acabou acontecendo.
 Voc no conseguiu evitar?  Havia zombaria em sua voz, no sorriso duro que curvava seus lbios.  Voc bem que tentou, garota dos olhos verdes, mas eu no sou
to bobo assim. Talvez voc se sinta atrada, a despeito de si mesma, mas no confunda este tipo de sentimento com amor. Eu fui apenas o primeiro homem que fez com
que voc se desse conta de que  uma mulher.
 Voc me fez compreender muitas coisas  ela respondeu rapidamente.  Eu vivia dizendo a mim mesma que o odiava, mas era porque eu tinha vergonha de admitir que
gostava de voc, mesmo porque voc vivia me jogando este fato na cara. Gostar faz parte do amor, Dave. Pelo menos para uma mulher  assim... e para o tipo de mulher
que eu sou.
Havia dureza nos olhos cinzentos que a estudavam.  Por que esperou at agora para me dizer isso? Por que no disse ontem, ou no dia anterior?
A frase que se seguiu foi dura de ser dita, mas ela o fez quase em seguida.  Porque eu no tinha certeza de seus sentimentos em relao a mim.
 E agora tem?
 Eu... acho que sim.  Esboou um gesto tmido de apelo, estendendo as mos para ele.  Dave, fui honesta com voc ao preo de meu prprio orgulho. Voc no pode
pelo menos dar um passo em direo a mim?
Ele deu de ombros com uma frieza deliberada.  Desculpe. Eu no me sinto muito atrado pelos finais felizes.
Kim contemplou aqueles traos duros, que no se alteravam jamais, e sentiu-se tomada por uma onda de raiva que fez com que as palavras irrompessem de seus lbios
sem maior reflexo.  Pois ento voc  um tolo!  lanou-lhe ao rosto.  E eu tambm, por esperar que seria capaz de passar por cima de suas barreiras! E sabe tambm
o que voc , Dave? Voc  um covarde! Voc tem tanto pavor de permitir que algum se aproxime de voc, que prefere morrer a agir pelo menos uma vez como um ser
humano! Bem, no tenho certeza de que quero um covarde para marido. Eu poderia ter pensado o pior de voc quando nos encontramos pela primeira vez, mas nunca me
passou pela cabea que voc no tinha coragem. Passe o resto de sua vida com medo de ser ferido, se quiser. Vou encontrar um homem que tenha disposio suficiente
para correr alguns riscos!
Meio cega pelas lgrimas, dirigiu-se cambaleando para a porta, estendendo desajeitadamente a mo para encontrar a maaneta. No o tinha ouvido segui-la, mas subitamente
sua mo apoiou-se em seu ombro, obrigando-a a dar a volta e fazendo com que se apoiasse contra o batente. Seu rosto estava plido e seus olhos brilhavam.
 Sou capaz de matar voc por dizer uma coisa dessas  falou entre dentes.  Sua atrevida...  A mo dele segurou a garganta de Kim selvagemente, machucando-a, enquanto
levantava seu rosto. De repente seus lbios apoiaram-se nos dela, solicitando-os brutalmente, sem encontrar nenhuma resistncia e clamando por possu-los. Kim no
esboou a menor tentativa de se opor. Em vez disso correspondeu, retribuindo tudo que podia, at que finalmente a dureza de seus lbios comeou a abrandar-se. Ele
imprimiu a seu beijo mais ternura, a tenso de sua mo afrouxou e ele a atraiu para si. Ela aferrou-se a ele desesperadamente, com o rosto ainda banhado de lgrimas,
sem pensar no que quer que fosse, a no ser naquele momento. Quando ele finalmente levantou a cabea ela apoiou o rosto em seu peito, sentindo a batida forte de
seu corao, o calor de seu hlito em seus cabelos.
 Eu o amo  ela disse.  Voc tem de acreditar em mim, Dave. Eu o amo!
 Eu quero acreditar.  Pela primeira vez ela conseguiu detectar a incerteza em sua voz.  No consigo dizer o quanto eu quero. Nestas ltimas semanas, desde que
voc apareceu, eu me senti... eu me senti como algum que tem um novo motivo para viver. No vou fingir, dizendo que desde o comeo tinha apenas boas intenes a
seu respeito. Eu a desejava, e usei de todas as vantagens de que dispunha para ter voc, porm nunca pensei no que poderia acontecer, depois que a levasse de volta
para a Inglaterra.
 Voc pensava que at l j estaria farto de mim?  murmurou.
 Acho que sim, se  que eu realmente pensava no assunto.  O gesto da mo dele em seus cabelos era delicado, mas ainda assim havia nele uma certa dureza.  Voc
era diferente de todas as mulheres que eu conheci. Sua lealdade em relao a Chris, por exemplo, mesmo depois que voc soube o que tinha acontecido. E o modo como
voc encarou a coisa, quando ele lhe mostrou do que era realmente capaz. Voc no derramou uma lgrima enquanto no saiu da casa dele. Depois disso no parei de
levar em conta nada que no fosse meus interesses. Sabia que no havia nenhuma outra maneira de chegar aonde queria, portanto vim com a idia de lhe propor um casamento
temporrio, s que no levei em conta esta sua natureza to confiante.  Fez uma pausa, afastou-a um pouco, e seus olhos percorriam seu rosto.  Voc acreditava
realmente que um homem poderia ser to altrusta?
 No sei.  Esboou um leve sorriso.  Talvez eu quisesse me convencer. Talvez fosse apenas uma desculpa, como voc mesmo disse.
 Disse uma poro de coisas que preferiria esquecer.  Seu sorriso era desajeitado.  S Deus sabe como  que voc pode ter acabado por sentir alguma coisa a meu
respeito, depois do modo como a tratei, mas  que a sua indiferena foi como acenar uma bandeira vermelha para um touro. Naquela noite em que voc se ofereceu a
mim em troca da segurana de Chris eu podia ter matado os dois!
 Mas voc sabia o que eu sentia de verdade quando voc fez amor comigo  ela observou.  Voc mesmo me disse que eu estava sendo teimosa.
 Claro que sim. Uma coisa era sentir que as barreiras estavam l devido  sua determinao de no se entregar a mim, outra coisa era saber que elas tinham cado
para pagar uma dvida. Foi ento que fiquei sabendo que no seria capaz de me afastar de voc quando chegasse o momento. Sugeri a viagem ao Sul esperando que em
algum momento podamos chegar a uma espcie de compreenso e comearmos tudo de novo.
Kim contemplou o brao machucado e disse suavemente:  Da aconteceu o acidente e voc imediatamente se viu como um encargo que mulher alguma assumiria. Oh, Dave,
voc devia estar cego por no ter compreendido o que estava me fazendo quando me disse para ir embora.  Fitou novamente os olhos cinza.  Agora voc acredita, no
 mesmo?
 Sim  disse ele.  Sim, acredito. S que voc vai ter muito trabalho para que eu continue me convencendo. Estou lhe avisando: vo ser necessrios milhares de beijos
como aquele que voc me deu agora h pouco, e da por diante...  Dirigiu o olhar para o brao e o sorriso apagou-se um pouco...  da por diante vamos encarar os
fatos como eles vierem. Trs braos entre duas pessoas at que parece razovel.
 Quatro braos parecem ainda melhor , ela retrucou prontamente.  A opinio do doutor Selby  uma s, e ele  o primeiro a reconhecer que no  infalvel. H cirurgies
na Inglaterra melhor qualificados para dar a deciso final, e mesmo ento muita coisa vai depender provavelmente de sua prpria fora de vontade  e s Deus sabe
que isto no lhe falta!
Dave a contemplava com expresso atenta, como se pretendesse imprimir cada trao de seu rosto na memria.  E se acontecer o pior?
 Ento voc ter de usar um brao mecnico , ela respondeu.  E eu terei de me lembrar, para saber qual deles eu mordo!
Sua risada saiu livre, do fundo do corao, viril, sem a menor restrio. Passando o brao pela cintura de Kim, levantou-a do cho at a altura de sua boca, mantendo-a
naquela posio sem o menor esforo.  Lembre-me um dia de lhe dizer que eu a amo, garota dos olhos verdes  disse.  Mas agora vamos nos concentrar apenas nisto!


FIM
